iTurismo: O Silêncio dos Inocentes

A versão preliminar do documento “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030”, elaborado para o Governo pelo consultor António Costa e Silva é o tema em destaque no comentário de Atilio Forte que assenta nas propostas que este Plano apresenta para a actividade do Turismo.

 

Uma das grandes novidades da semana que findou foi a “libertação” da versão preliminar do documento/proposta “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020-2030”, que o Governo “encomendou” a António Costa e Silva. Apesar do formato definitivo só ficar concluído no final do corrente mês, seguindo-se a respectiva discussão pública, naquilo que à Actividade Económica do Turismo respeita convirá que, desde já, a mesma se debruce sobre o que acerca dela e da sua evolução futura aí é dito e, mais importante, que prepare e fundamente as sugestões que, em nossa opinião, terá obrigatoriamente de apresentar e pugnar, para que o país possa ficar dotado, por um lado, de um plano prospectivo eficaz e coerente e, por outro lado, capacitado para pôr em prática o conjunto de medidas que aí vier a constar, pois muito provavelmente daí resultará a “agenda” da actividade não só para a década, como para o “novo Mundo” pós-pandemia onde tem de se começar a iniciar.

Vale a pena abrir aqui um parêntesis para recordar que no “iTurismo”, desde o início, optámos invariavelmente por nunca comentar pessoas, mas sempre estratégias, ideias, opções e decisões, razão pela qual (mais uma vez) o que aqui hoje dissermos deve ser entendido e encarado estritamente nessa perspectiva e jamais percepcionado como uma crítica pessoal ao autor deste estudo que, escusado é referir, merece toda a nossa admiração e consideração, para além de ter um curriculum e uma reputação que falam por si.

Contudo, também é útil dizer que, a partir do momento em que foi anunciada a elaboração deste documento e, sobretudo, indicada a escolha do Governo sobre a forma como o mesmo iria ser executado, que nos pareceu que o modelo definido ficava muito aquém do que seria expectável para um país que se quer do século XXI e, consequentemente, integrado no Mundo actual. É que a globalização exige uma cada vez maior especialização e, simultaneamente, uma visão aprofundada das grandes áreas da actividade económica mundial as quais, pela complexidade que encerram, carecem de um substrato de óbvios conhecimentos técnicos sobre cada uma. Isto quer dizer que entregar uma tarefa como esta, de grandeza ciclópica, a uma só pessoa fica, à partida, e de modo natural, amputada da riqueza que lhe possa ser trazida por reconhecidos especialistas em cada uma das matérias analisadas. Como não há quem saiba “muito e profundamente de tudo”, porque tal é humanamente impossível, o produto final arrisca-se a falhar em toda a linha. Assim, seria expectável, desejável e quanto a nós bem mais produtivo, a nomeação de um coordenador a quem competiria formar as equipas de peritos independentes – necessariamente pequenas e focadas em resultados práticos – que ficariam debaixo da sua supervisão. Caso contrário, o risco de existência de propostas meramente com laivos holísticos e pouco fundamentadas ou sem disrupção ou, ainda, sem se enquadrarem numa lógica e estratégia mais vastas, para determinadas áreas da economia nacional, é proporcional ao conhecimento, opinião e/ou sensibilidade pessoal do (único) relator logo, e quanto a nós, redutora, insuficiente e ineficaz!

 

Ora, no que se refere ao Turismo, o que pode ser observado de uma leitura atenta do documento é que dele constam um conjunto de lugares comuns e medidas avulsas, muitas das quais já integram a prática do quotidiano dos agentes que actuam na actividade e, nalguns casos, há muito que foram superadas seja pela inovação e desenvolvimento dos vários sectores que compõem a constelação turística, seja pela adopção de melhores metodologias e técnicas, seja pela evolução tecnológica e digital, seja pela qualificação dos recursos (humanos e materiais), etc., etc.. Acresce, que no texto podemos encontrar um grande número de imprecisões graves, por vezes a roçar o amadorismo, confundindo conceitos ou usando-os como sinónimos, como por exemplo, “turismo”, “hotelaria”, “restauração”, “gastronomia”… e poderíamos continuar.

Mas, porventura o “mais penalizador”, é a completa ausência de uma estratégia, de um fio condutor que, gerando ou não concordância, fosse passível de discussão e de onde pudesse resultar um caminho, uma reflexão estruturante, um rumo para o Turismo nacional prosseguir na próxima década, contemplando as necessárias adaptações, correcções e respostas aos desafios com que o presente quadro de pandemia o veio confrontar. A título de ilustração mencionamos as questões ligadas à Aviação (que inclui, como se sabe, as infra-estruturas aeroportuárias, o transporte, a segurança, a navegação, o controlo e a regulação aéreas), que hoje já ninguém questiona ser um sector que é parte integrante e peça fundamental da actividade turística, quanto mais não seja porque se percebeu (finalmente!) que só há Turismo com deslocação, sendo bem impressivas as imagens que gravámos nos nossos espíritos para todo o sempre de aeroportos sem vida, com frotas de aeronaves neles estacionadas… totalmente inertes, espelhadas em cidades sem turistas e, por isso, proporcionando uma visão desoladora e antagónica do “Mundo da proximidade” em que nos tínhamos habituado a viver. A este propósito a única referência feita é ao novo aeroporto na região de Lisboa sem sequer haver o cuidado de reflectir se o dito deve ser complementar ao Humberto Delgado ou proceder-se à construção de raiz de um de outra dimensão, esquecendo totalmente que um equipamento com essa função não é mais do que um instrumento de corporização de uma política. A ser assim, não seria melhor e mais de acordo com a missão atribuída dizer-se que o que o país precisa é da definição de uma estratégia para o sector (Aviação) devidamente enquadrada numa outra, mais vasta, para o Turismo?

Para que se não diga que estamos sempre a defender a “dama” da integração da Aviação no Turismo – cuja necessidade continuamos a considerar gritante! –, veja-se o que o documento entende (pág. 104) ser o “Plano de Investimento para o Turismo”, que transcrevemos:

 

Plano de investimento para o Turismo
Promover programas de atração de turistas
O país deve promover um grande plano para captar a atenção dos mercados mais importantes com base nas valências que Portugal apresenta em termos da sua diversidade geográfica e paisagística. A oferta deve ser diversificada, explorando as diferentes partes do território e é importante apostar na qualidade e ter como indicadores não só o número de visitantes, mas também a rentabilidade por turista. O setor do turismo é importante, e tudo o que possa aumentar a sua resiliência deve ser explorado. Portugal pode combinar o turismo convencional com o turismo da natureza, o turismo da saúde, o turismo cultural, o turismo oceânico, e construir uma oferta competitiva.

É importante para o futuro que o turismo se desenvolva em maior articulação com outros setores da economia, evitando o recurso sistemático a mão-de-obra precária e desqualificada. Neste quadro, a diversificação da economia, das cidades e do país pode contrariar a excessiva dependência de um único setor.

Promoção do Turismo de Natureza
Outro fator diferenciador com potencial em Portugal é o turismo rural e de natureza. Portugal é um destino por excelência para a prática de Turismo de Natureza dado que é detentor de um riquíssimo património natural, dispondo de uma enorme variedade de paisagens e elevada diversidade de habitats naturais, com condições que permitem a realização de atividades de animação turística ajustadas aos diferentes segmentos do Turismo de Natureza. Reuniões com os operadores desta área, como de outros setores, devem ser promovidas com os organismos públicos que as supervisionam, para captar ideias e mobilizar as empresas para projetos que possam ser marcantes e trazer benefícios para a indústria em geral.

 

Depois de lermos estes parágrafos, legitimamente questionamo-nos: estará o Turismo assim tão cheio de incompetentes (não há como dizê-lo de outra forma) que não vejam ou não tenham pensado estas coisas tão óbvias? Nada de semelhante ou parecido (nem dizemos melhor) tem estado a ser feito ou já foi realizado? É isto, só isto, o que queremos para o nosso Turismo para a década 2020-2030? Ou, trata-se de um favor ao(s) Governo(s) – independentemente dos Partidos Políticos que o compõem – para que este diga que não só os aspectos focados, como muitos mais, fazem parte das medidas avulsas, que habitualmente designa pomposamente por “Política de Turismo”, que tem posto em prática nos últimos anos? Ou, ainda, estaremos perante um típico caso de total desconhecimento da realidade, do que efectivamente acontece no terreno, no dia-a-dia da actividade turística? Como seguramente não se trata de uma brincadeira de mau gosto, escolha o(a) caro(a) leitor(a) a opção que lhe pareça a mais acertada.

Para concluir, embora muito do que está contido nesta “Proposta” – note-se preliminar – tenha inegável mérito e grande valor (desde a descrição dos impactos económicos e sociais que o país irá sentir, principalmente, a partir de Setembro, à necessidade da adopção de melhores políticas ambientais, de descarbonização, de reindustrialização, de sustentabilidade, de coesão económica e, consequentemente, territorial, etc., etc.), no que “toca” ao Turismo ela falha redondamente e carece, com enormíssima urgência, de correcção. O alerta aqui fica, porque há momentos em que a ignorância tem de ter resposta! E, neste caso, o silêncio (cúmplice) dos sabedores de hoje não os transformará amanhã em inocentes…

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).