iTurismo: Os Rostos e As Marcas, por Atilio Forte

A evolução do tecido empresarial do turismo, que à imagem do que se passa noutras actividades tende a ser cada vez mais marcada por investimentos “sem rosto”, é o tema em destaque no habitual comentário de Atilio Forte. Outra questão abordada no iTurismo de hoje tem a ver com o crescente número de catástrofes ambientais e o impacto negativo que têm sobre a actividade turística.

 

Tópicos da Semana:

  • Já conhece a “solomoon” ou a “unimoon”?: Ainda não? Pois é bom estar atento a esta nova tendência que, ao que parece, veio para ficar. Pelo menos é o que relata um recente artigo publicado no conceituado jornal The New York Times que explica a opção que um crescente número de casais toma logo após o casamento. Sim, é isso mesmo… ir de lua-de-mel sozinho, separado(a) do cônjuge. Só na rede social Instagram já existem cerca de 1.500 publicações com o “hashtag” #solomoon.

 

  • China em primeiro lugar no número de novas aberturas na hotelaria: De acordo com a consultora multinacional de estudos de mercado STR a China e os Estados Unidos da América lideraram os países com maior número de quartos de hotel em construção no ano passado, com a primeira a registar um aumento superior a 20% se comparado com o alcançado em 2017, sendo que mais de 50% desses novos quartos são dirigidos aos segmentos médio-alto ou alto.

 

  • Hotéis atentos aos “podcasters”: Já são várias as unidades hoteleiras dos Estados Unidos da América e da Europa que disponibilizam gratuitamente ou alugam estúdios totalmente equipados dentro das suas instalações para que os hóspedes possam confortavelmente gravar os seus “podcasts” (ficheiros de multimédia), indo assim ao encontro das necessidades de um número crescente de clientes que não passam sem fazer as suas comunicações/publicações diárias na blogosfera.

 

Comentário

 

Turisver.com – O investimento no turismo a nível mundial está a ficar sem rosto empresarial e esta situação já se faz sentir também em Portugal. Na sua opinião, estamos perante uma situação económica favorável ao desenvolvimento da actividade?

 

Atilio Forte – O vasto alcance desta pergunta merecia mais espaço do que o que está ao nosso dispor, sendo este o motivo pelo qual teremos de nos restringir a uma resposta mais holística, sem esconder a esperança de voltarmos ao tema ou a algumas parcelas do mesmo numa outra ocasião, podendo desse modo melhor complementar as reflexões que já de seguida tentaremos explanar.

Dito isto, vale a pena começar por afirmar que à semelhança do que acontece com muitos outros aspectos da nossa vida política, económica, social, religiosa e cultural e dos demais domínios da economia, também o turismo acaba por ser influenciado quer por um vasto conjunto de estereótipos, quer pelo que comummente se designa por globalização, quer ainda pelas tendências ou apetências de consumo que, nos tempos que correm, cada vez mais influenciam os comportamentos empresariais ditando (e impondo) a sua lei. A lei de quem paga… logo manda!

Ao referirmos todos estes “fenómenos” que moldam, para não dizermos determinam, o que o turismo é actualmente, não podemos deixar também de mencionar, por um lado, que nenhum deles lhe é exclusivo, já que igualmente se repercutem e reflectem noutras actividades económicas e, por outro lado, que o seu alcance apenas é maior (ou mais visível) na “constelação turística” devido à juventude e importância desta, uma vez que em pouco mais de sete décadas (do pós II Guerra Mundial até aos dias de hoje) passou, em consequência de um vasto conjunto de alterações políticas, económico-sociais e tecnológicas, da quase insipiência económica à liderança da economia mundial, isto é, de luxo a bem essencial.

Todavia, em parte por ter antecipado e antecedido o próprio entendimento e conceito que temos da globalização, em parte pela sua matéria-prima serem os turistas, o negócio turístico é, sem sombra para qualquer dúvida, a mais humana e humanizada das actividades económicas residindo, neste particular, um dos fundamentos da sua diferença com as demais. Concretizando, humana porque é feita por pessoas, para pessoas; humanizada porque procura aperfeiçoar as características do ser humano através da sua interacção com o meio envolvente.

Não obstante o que acabámos de referir, a evolução do tecido empresarial do turismo não foi muito diversa daquela por que outras áreas também passaram, na esmagadora maioria das vezes começando por pequenos negócios familiares e em nome próprio muitos dos quais, posteriormente, vieram a transformar-se em gigantescos conglomerados. A título de mera ilustração recordamos, entre outros, alguns pioneiros como César Ritz, Conrad Hilton, John Willard Marriott e Alice Marriott (fundadores das cadeias hoteleiras com o seu apelido), Thomas Cook (fundador da agência de viagens com o seu nome) ou os portugueses Manuel Pestana e Bernardo Abreu fundadores, respectivamente, do Grupo Pestana (hotelaria) e das Viagens Abreu (agência de viagens).

Acontece que o crescimento frenético que o turismo em tão curto período de tempo registou fez com que, em muitas destas situações, as necessidades financeiras para o imprescindível e continuado investimento fossem de tal ordem que se tornaram incomportáveis para as disponibilidades dos seus proprietários – é bom lembrar que o turismo é uma actividade de capital intensivo, cujos prazos de amortização são quase o dobro do verificado em outros negócios, e de grande utilização de mão-de-obra, o que faz aumentar sobremaneira os custos operacionais das empresas –, obrigando-os numas circunstâncias a admitir sócios, noutras a dispersar capital por accionistas e nalguns casos a entrar em processos de fusão, venda parcial ou total das sociedades ou arriscar em financiamentos bancários, factores que amiúde, directa ou indirectamente, acabaram por fazer passar a titularidade das empresas para as mãos de terceiros, já que a alternativa acabaria sempre por condicionar o seu desenvolvimento e expansão, tendo como resultado o cercear de uma presença mais global e a possibilidade de conquistar novas oportunidades de negócio.

Mas, de uma maneira geral, qualquer que tenha sido a opção tomada e a sua consequência em termos de dimensão, uma coisa todas as empresas turísticas procuraram (continuar a) garantir: manterem-se fiéis à visão, à missão e aos valores dos seus fundadores. No fundo, e se se quiser, assegurar ao mercado e sobretudo aos seus clientes que, mesmo nos casos em que por uma ou outra razão o rosto do seu fundador “saiu de cena”, a marca perdurou igual a si própria, mantendo viva a cultura organizacional definida no momento da sua génese.

E a verdade é que na maior parte dos casos tal ainda sucede, independentemente do local do Mundo onde ela esteja presente, dos objectivos a que se proponha, das inovações que introduza ou das adaptações que tenha de fazer para melhor se integrar na comunidade local. No final do dia o foco, o centro de toda a atenção, continua a ser o cliente, o passageiro, o hóspede, o turista.

No fundo se o rosto do fundador deu lugar à marca esta transfigurou-se não num mas em todos os rostos de quem trabalha na organização, assegurando aos seus clientes a mesma confiança, a mesma qualidade de serviço, a mesma incessante vontade de tornar a “sua viagem ou estada” numa jornada inigualável e inesquecível, em tudo idêntica ao propósito original com o qual quem a iniciou se aventurou no mercado do turismo.

Portanto, podemos afirmar que estamos perante a mais do que natural evolução da actividade turística, perfeitamente ciente do seu passado, adaptada e identificada com a realidade do presente e apta a abraçar as mudanças que o futuro lhe reserva, pois sabe que só assim poderá continuar a desenvolver-se sustentadamente já que, mais importante do que a titularidade dos capitais é essência do turismo, que continua a ser a de uma actividade feita por pessoas, para pessoas.

Assim sendo, e para concluir, resta-nos dizer que por mais “anónimos” que os investimentos e os capitais se tornem no turismo, quer do lado da oferta, quer do da procura, haverá sempre rostos que simbolizam a dimensão verdadeiramente humana da actividade. Rostos esses que de quando em vez – afinal o sucesso não é para todos – conseguem humanizar as empresas permitindo-lhes, mesmo quando estas se tornam marcas globais, que o toque humano subsista e que por mais que o rosto se transfigure em marca esta nunca deixará de ter uma identidade humana, invariavelmente traduzida no(um) rosto… de quem atende, de quem recebe, de quem reserva, de quem cozinha, de quem anima, de quem transporta, de quem gere…

 

Turisver.com – As tragédias ambientais não poupam países nem regiões, com Moçambique, em especial a região da Beira, a viver dias difíceis depois de ser atingido pelo Ciclone Idai. De que forma é que, em seu entender, o turismo pode vir a ser prejudicado com situações como esta?

 

Atilio Forte – Antes de mais e em nome do iTurismo gostaríamos de aqui registar uma palavra de sinceras e sentidas condolências às famílias das vítimas, ao povo irmão de Moçambique, bem como aos demais países que foram atingidos por esta catástrofe (Madagáscar, Malawi, Zimbabwe e África do Sul).

Infelizmente, este tipo de tragédias ambientais têm-se tornado cada vez mais frequentes resultando, em grande parte, da acção da Humanidade sobre o meio ambiente, nomeadamente como consequência do aquecimento global, algo cuja evidência ainda há quem, com responsabilidades, recuse aceitar…

Em contrapondo saudamos a reacção da comunidade internacional, particularmente na ajuda imediatamente disponibilizada às regiões mais afectadas, como a do Centro de Moçambique, na esperança que a mesma se mantenha após sair da prioridade informativa da comunicação social.

Escusado será dizer que do ponto de vista turístico fenómenos desta natureza arrasam qualquer destino sobretudo quando, como é o caso presente, existe maior vulnerabilidade pois, para além da perda de vidas que provocam, causam a destruição de muitas infra-estruturas, limitam a utilização de outras, concorrem para o aparecimento de surtos epidémicos e abalam o quotidiano de qualquer comunidade, situações que, natural e compreensivelmente, afugentam os fluxos turísticos.

Como se sabe Moçambique é um país com muito para dar ao turismo, pelas enormes riquezas naturais e culturais que possui, e que se insere na África Subsariana região que, paulatinamente, tem vindo a captar a atenção de turistas e investidores na actividade.

No entanto, neste momento ainda não é possível fazer uma avaliação concreta do estado de alguns importantes activos turísticos, de entre os quais o Parque Nacional da Gorongosa (situado a Noroeste da cidade da Beira) é, porventura, o mais emblemático, sendo por isso prematuro antever a extensão dos danos provocados.

Uma coisa é certa: a reconstrução e o regresso à normalidade são sempre morosos. Mas podem-no ser mais, ou menos, consoante a intensidade do auxílio prestado. Por isso, e conscientes da solidariedade e da fraternidade entre os povos que o turismo estimula como nenhuma outra área da economia, apelamos à nossa comunidade turística, e muito em particular às estruturas associativas portuguesas, para que se disponibilizem junto das autoridades moçambicanas para ajudar à reconstrução do turismo no país e dinamizem acções de solidariedade de recolha de donativos e bens que, de alguma forma, possam contribuir para atenuar a dor e confortar quem neste momento tanto precisa.

 

O + da Semana:

 

Já todos sabemos que hoje em dia a competição turística é não apenas feroz como se desenrola à escala planetária, situação que afecta em muito as receitas geradas por cada empresa, nuns casos positiva noutros negativamente. Por esta razão não é motivo de espanto que quem faz os investimentos mais “pesados”, como é o caso da hotelaria, esteja (porque a isso é quase obrigado) constantemente em busca de novos factores de diferenciação que, simultaneamente, possam tornar-se em fontes adicionais de proveito e de aumento da sua notoriedade. Tendo em conta esta realidade verificamos que há um número cada vez maior de hotéis que, para além de procurarem satisfazer as necessidades dos seus hóspedes, vêm apostando em prolongar e proporcionar o melhor das experiências que oferecem, permitindo que cada cliente possa levar uma pequena (ou grande) parte delas consigo, quando regressa a casa. Para tal estão a introduzir nos seus canais de venda a possibilidade de aquisição da multiplicidade de produtos que disponibilizam aos turistas que recebem, que vão dos simples artigos de cosmética ou de higiene que podem ser utilizados nas casas de banho dos seus quartos, a cópias das peças de arte ou de mobília que cada unidade possui, aos cobertores, almofadas, camas ou mesmo artigos da palamenta que aí podem ser encontrados, até a um quarto inteiro – exactamente igual àquele onde passámos “aquelas férias extraordinárias” –, tornando uma pequena parcela da viagem realizada numa realidade diária com que convivemos. Portanto, não estranhe se da próxima vez que fizer uma reserva de hotel lhe for oferecida a possibilidade de também comprar artigos iguais aos que lá poderá encontrar e/ou usufruir.