iTurismo: Os Verdadeiros Pirómanos, por Atilio Forte

No regresso do iTurismo, Atilio Forte analisa o tema dos fogos que avassalam a Amazónia e as consequências possam ter para o mundo no geral e para o turismo em particular. Comenta, também, a potencial dependência de Portugal para com companhias aéreas low cost.

 

Tópicos da Semana:

  • As grandes tendências turísticas deste Verão: A Turquia a tomar o lugar de Cuba como grande porto de destino para cruzeiros; o ambiente e o bem-estar como tópicos que lideram as preferências de quem viaja; o acesso (e visita) a novas regiões e locais; e a reconfiguração da actividade turística por acção da geração “Z”, que tudo quer e “muito” está disposta a gastar para conseguir experiências únicas, imersivas, exploratórias e carregadas de adrenalina são, de acordo com o portal de notícias turísticas TravelAgentCentral.com, as mais importantes tendências da actividade turística reveladas pelo Verão que agora finda.

 

  • O que fazer para tornar um hotel boutique num sucesso económico?: Esta foi a pergunta que os participantes na recente Conferência Stay Boutique Live Investmentse propuseram responder e, ao que parece, foram bem-sucedidos, uma vez que concluíram que os hotéis boutique têm de fazer tudo o que os maiores e de gama-alta fazem, mas melhor, de forma mais personalizada e numa escala mais reduzida. Mas antes de aí chegar, e logo no início da concepção do negócio, a escolha de uma localização com pouca concorrência, de modo a melhor vincar a diferenciação, tal como a incorporação de elementos da cultura local, são factores críticos para qualquer projecto que, a prazo, se pretenda afirmar e tornar lucrativo.

 

  • Num hotel (quase) tudo pode ser usado pelos piratas informáticos: Actualmente a maior parte dos hotéis, sobretudo os que integram as grandes cadeias, já foi confrontada com tentativas de roubo informático de informação vital, como seja a respeitante a dados pessoais dos clientes, cartões de crédito, códigos de acesso aos quartos e muitos outros “segredos”, pois todos têm valor no mercado negro. Normalmente, estes casos começavam com o“inocente” envio de um e-mail de “phishing” que era inadvertidamente aberto, permitindo o livre acesso “aos amigos do alheio”. Contudo, o aumento da segurança digital das empresas e a formação dada aos trabalhadores tem motivado que quem pretende apropriar-se de dados que não lhe pertencem tenha de criar formas mais “inovadoras” e “sofisticadas” de aceder aos mesmos, contornando “os alarmes” instalados pelas diferentes unidades hoteleiras. Assim, nos últimos meses continuaram a ser detectadas intrusões, só que com um crescendo de“originalidade”…de entre as que mais se destacam estão as realizadas através dos sistemas automatizados de gestão de aquários, ou do controlo remoto das cortinas dos quartos e, obviamente, por tudo o que utilize a rede wi-fi do hotel. Portanto, todos os cuidados são poucos!

 

Comentário

Turisver.com – Os fogos na Amazónia colocam o turismo internacional fora desta área do Mundo. Do seu ponto de vista é o desaproveitar uma fonte de receita importante para a região e para o Brasil?

Atilio Forte – Este é um daqueles temas com que, infelizmente e de modo crescente, mais temos vindo a lidar e que nos coloca a todos (sem excepção!) numa gigantesca encruzilhada sobre o que verdadeiramente pretendemos para o futuro da (nossa) Terra, que é o mesmo que dizer para o nosso próprio futuro, para o futuro da Humanidade e de todas as espécies que habitam o Planeta Azul, já que os impactos das (nossas) acções sobre a natureza e o ambiente põem em causa a sustentabilidade das diversas formas de vida que nele existem, seja pelas alterações climáticas que provocam, seja pelas mutações nos habitats e ecossistemas que induzem, traduzidas em fenómenos que vão desde o aquecimento global, ao aumento das catástrofes naturais, passando por uma drástica diminuição da biodiversidade.

Não deve por isso estranhar-se que hoje em dia exista muito mais do que a mera consciência de existência de um problema, que se traduz por um genuíno sentimento de urgência para que se adoptem medidas – das mais simples, às mais complexas – que, no mínimo, possibilitem que consigamos ganhar tempo e com isso permitir que a natureza se regenere e, quem sabe, nos dê (um) a segunda oportunidade que, reconheça-se, até aqui não temos feito por merecer.

Portanto, estamos muito mais perante uma questão de sobrevivência, pois precisamos de garantir as condições mínimas para que a vida continue a ser possível, do que de subsistência económica e, por consequência, turística.

Apesar da gravidade do que está em causa, alguns Estados, governantes, líderes económicos e sociais ou simples cidadãos, persistem em tomar atitudes contrárias às evidências, quer por ganância, quer por ignorância, quer por incúria quer, ainda, por congénita estupidez, como temos assistido ao longo das últimas semanas a propósito dos incêndios que grassam na Floresta Amazónica que, note-se, é “apenas” responsável pela produção de cerca de 20% do oxigénio da Terra, elemento essencial para a existência de vida, como se sabe.

Dito isto, que é deveras o mais importante, convirá recordar o que inúmeras vezes referimos nas análises que fazemos no que ao turismo respeita e que se prende com a incessante procura, por parte de quem viaja (leia-se consumidores) do único, do autêntico, do genuíno, do natural, do intocado… mas, igualmente, do preservado, do protegido, do sustentável, do “amigo” do ambiente, motivos que têm estado na origem da subida da procura por destinos localizados tanto na África Subsariana, como na América Latina, neste segundo caso em muitos dos locais que, directa ou indirectamente, estão presentemente a ser afectados pela catástrofe dos incêndios que aí ocorrem.

E embora estejamos a falar de uma vasta região, cujo território é “pertença” de nove Estados  [Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa)] é o “país irmão” o mais atingido por esta tragédia, uma vez que 60% da Floresta Amazónica localiza-se dentro das suas fronteiras.

Ora, como facilmente se constata, é mais do que óbvio que os fluxos turísticos que se encontravam em franco desenvolvimento para esta região do globo vão abrandar, o que, para além dos impactos nas economias nacionais, regionais e locais, acarretará todo um conjunto de outras consequências, de entre as quais destacamos: a diminuição da actividade turística noutras zonas, algumas mesmo longínquas, em virtude da sua contaminação pelos fumos e fuligem levados pelo vento; a afectação de uma parte substancial da área ardida a uma tipologia de exploração económica mais intensiva, levando a fonte de pressão humana mais “floresta adentro”; a possibilidade do aparecimento de alterações climáticas a nível regional com eventuais repercussões na fisionomia territorial e na vida comunitária das espécies locais (humanas, animais e vegetais); a rotulagem daqueles destinos como “anti ambiente” e ou “anti ecologia” o que os fará sair do raio de preferência dos consumidores; etc.; etc..

Claro está que este desinteresse generalizado por parte dos turistas e, por consequência, dos operadores turísticos, a verificar-se, motivará com que a “batalha” pela defesa da natureza, do ambiente e da biodiversidade perca aquele que, porventura, poderia ser o seu maior aliado – o turismo –, expondo ainda mais as fragilidades a que aquela região já está sujeita.

Do ponto de vista turístico, e pelo que referimos, tudo isto pode vir a significar que o Brasil saia largamente prejudicado desta situação, em virtude de ano após ano ter infligido ou, por inacção, ter deixado infligir, rudes golpes num dos principais produtos da sua oferta turística – o turismo de natureza –, sobretudo no momento crucial da sua expansão que, por seu turno, tem coincidido com o período em que a procura tem vindo a revelar maior apetência e predisposição pelo mesmo, como atrás referimos.

E um “país-continente” e um destino com tanto potencial turístico como é o Brasil não pode dar-se ao luxo de ver oportunidades destas fugirem-lhe por entre os dedos das mãos e continuar a “marcar passo” no panorama do turismo mundial. Para só falarmos na presente década onde foi feito um esforço promocional sem precedentes, nomeadamente com o investimento na organização do Campeonato do Mundo de Futebol (FIFA 2014) e nos Jogos Olímpicos (Rio 2016), o facto é que, segundo dados do próprio Ministério do Turismo do Brasil, em 2010 o país recebia aproximadamente 5,2 milhões de turistas estrangeiros e em 2018, nove anos volvidos, ficou-se por uns modestíssimos cerca de 6,6 milhões, isto é, pouco mais de metade dos que Portugal acolheu no ano transacto (12,2 milhões).

Mas bem mais triste do que a modéstia destes resultados turísticos é, enquanto a Amazónia (e África de que tão pouco se fala) vai ardendo e, por arrasto, o Planeta fica com “falta de ar”, assistirmos a um autêntico bloqueio dos acordos internacionais sobre o ambiente pela parte de algumas nações e a uma ignóbil troca de insultos pessoais entre Chefes de Estado – no fim de contas aqueles que foram eleitos democraticamente para nos representarem, defenderem e servirem! –,  em vez de concertarem esforços para protegerem os seus países, o Planeta e o legado das gerações vindouras, como é seu dever, e pararem com comportamentos infantis e afirmações e posições que, sendo demagógicas, política e socialmente funcionam como autênticas bombas incendiárias.

O que nos leva a finalizar com uma interrogação e uma proposta de reflexão: afinal quem é ou quem são os verdadeiros pirómanos? Serão os que ateiam os fogos; serão os que exercendo o poder se entretêm a insultar-se e a “rasgar” acordos internacionais em vez cumprirem com as suas obrigações; ou seremos nós que os elegemos, e depois passamos o resto do tempo apenas preocupados com minudências, tais como, reciclar e não usar palhinhas e sacos de plástico, convencidos que esse é o único grande contributo que nos resta dar para a defesa do meio ambiente e da Terra…

 

Turisver.com – Tendo em conta o anúncio da Ryanair fechar a sua base no aeroporto de Faro, no seu entender Portugal não está demasiado dependente das low cost?

Atilio Forte – É importante começarmos por referir que, actualmente, os principais destinos recebem uma parte significativa dos “seus” turistas através das companhias de baixo custo (vulgo, low cost) e que os mesmos são geograficamente oriundos de zonas de curto e médio curso aéreo.

Por outro lado, se é verdade que o modelo de negócio destas transportadoras veio impulsionar – e de que maneira! – a actividade turística, não menos verdade é que a esmagadora maioria das suas receitas não provém da venda de “bilhetes/lugares de avião”, mas de outras fontes onde se incluem os próprios destinos (nacionais, regionais e locais).

Assim, numa primeira análise, facilmente podemos constatar que, tendencialmente, as “low cost” voam para os sítios em que podem maximizar os seus proveitos, seja por saberem que os mesmos estão na mira da preferência dos consumidores e, por essa razão, são alvo de grande procura, seja porque lhes são proporcionadas condições excepcionais, particularmente a nível financeiro, para o fazerem.

Portugal, à semelhança da maior parte dos destinos – veja-se o que também está a acontecer em Espanha –, abriu (e bem) os braços à operação destas empresas, proporcionando-lhes condições favoráveis para voarem para e no território nacional, contudo, sem garantir ou conseguir que elas se comprometessem a longo prazo com o destino e, portanto, ficando à mercê quer da volatilidade do mercado (flutuações da procura), quer da evolução da conjuntura internacional, para além da própria concorrência.

Como ao longo dos anos temos vindo a alertar, esta ausência total de estratégia iria, um dia, colocar o nosso país numa posição de grande fragilidade bastando para tal que ocorressem mudanças nos mercados que se encontram dentro do mesmo raio de acção (curto e médio curso) daquelas transportadoras, como veio a suceder com a “pacificação” de muitos destinos localizados na Bacia Mediterrânica, ao que acresceu a emergência de outros, o que ainda acirrou mais a competição.

Ora, pelo que dissemos, tudo indica que esse dia chegou! Resta-nos esperar – e desejar – que de uma vez por todas Portugal defina uma política para a aviação que comece por a considerar como parte integrante e peça fundamental da actividade turística, e que dê sinais de estar “a aprender a lição” através da introdução de maior critério, rigor e garantias nos contratos celebrados com as “low cost” e, claro está, tendo presente que as companhias aéreas “regulares” – que normalmente estão muito mais disponíveis para se comprometerem com os destinos – recebem exactamente o mesmo tratamento ou, se se quiser, que acedem ao mercado em igualdade de circunstâncias e condições.

Para terminar uma palavra sobre a questão do encerramento da base da Ryanair no aeroporto de Faro a partir do início de 2020, para dizer que nos incluímos no grupo daqueles que não se consideram plenamente esclarecidos – muito menos convencidos! – com as explicações avançadas por parte daquela transportadora e, consequentemente, que essa decisão possa,a prazo, vir a representar uma real diminuição de voos para o Algarve.

 

O + da Semana:

Tomando em consideração que ainda estamos no Verão, que o calor aperta e a sede tem de ser satisfeita, nada melhor do que juntar tudo isto com a terceira bebida mais popular do Planeta – logo a seguir à água e ao chá –, envolvendo-a com e na actividade turística e adicionando-lhe um toque de inovação. Estamos, como certamente já percebeu, a referir-nos à cerveja, cuja popularidade está a ser aproveitada de modo crescente pelo turismo, uma vez que a variedade do número de propostas em seu torno está a conseguir cativar um cada vez mais alargado número de turistas, extravasando em muito a circunscrição a que estava sujeita, nomeadamente através da realização de alguns eventos os quais, embora de projecção mundial, como acontece com a Oktoberfest, em Munique (Alemanha), acabam por limitar a sua fruição. Para o comprovar aqui deixamos alguns casos que têm feito sucesso junto dos consumidores, a começar pela companhia aérea Brew Dog Airlines [que já opera entre o Reino Unido e os Estados Unidos da América (EUA)], passando pelos pacotes de férias em Itália ou na Bélgica direccionados para provas de cerveja artesanal, às visitas de cidade em bicicleta com paragem obrigatória nos bares mais emblemáticos para… tomar uma cerveja local, até às atractivas propostas de tratamentos em spa’s com recurso à imersão nesta afamada e apreciada bebida, que já podem ser encontradas tanto em Praga (República Checa) como nos EUA. Considerando o índice de crescimento que o mercado americano tem vindo a demonstrar nos últimos dois anos para o nosso país e que 42% dos seus consumidores são taxativos em afirmar que a preferem ao vinho e às bebidas espirituosas, estamos em crer que muito em breve também passaremos a ter a cerveja bem mais integrada na oferta turística nacional.