iTurismo: Para Além da Espuma do Verão, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte faz um balanço sobre a época alta do turismo que agora chega ao fim, falando das boas perspectivas que se abrem para os números anuais do turismo, a nível global e nacional e chamando a atenção para os muitos “trabalhos de casa” que há a fazer. Outro dos temas em destaque no habitual Comentário é a anunciada introdução de uma taxa turística no Algarve.

 

Tópicos da Semana:

  • e-pulseiras aqui mesmo ao lado: Neste Verão vários foram os resorts espanhóis que passaram a disponibilizar aos seus hóspedes pulseiras com conexão digital, as quais não só permitem o acesso aos quartos e a realização de pagamentos dentro das unidades como, também, em lojas e estabelecimentos nos arredores das mesmas.

 

  • Reciclagem posta em causa nos hotéis americanos: Muitos jornalistas especializados em turismo têm alertado a opinião pública americana para o facto das unidades hoteleiras daquele país não estarem dotadas de caixotes do lixo em número suficiente. Os argumentos que estão na origem desta “acusação” são, por um lado, a pressão para aumentar a reciclagem e, por outro lado, a poupança em gastos com o pessoal, já que menos recipientes significam custos inferiores de mão-de-obra para os despejar.

 

  • As impressionantes perspectivas turísticas da China: De acordo com um relatório elaborado pela School of Hotel Administration da reputada Cornell University é expectável que o primeiro emissor turístico mundial também se torne a curto/médio prazo no primeiro receptor de turistas do Mundo. A comprová-lo está a “desenfreada” construção de novos hotéis naquele país asiático que, de acordo com esta entidade, irá motivar a abertura diária de 3 novas unidades… durante os próximos 23 anos!

 

Comentário

Turisver.com – Chegámos ao fim do período de Verão e da época alta do turismo. No seu entender, o turismo viveu dentro do que era espectável para este período e sem sobressaltos negativos?

Atilio Forte – De um modo geral podemos afirmar que o Verão que agora finda correu dentro das expectativas – e do que aqui havíamos perspectivado – deixando antever que, em 2018, o turismo poderá voltar a bater recordes à escala global, seja no número de turistas, seja nas receitas por eles geradas.

Assim, e caso não existam quaisquer sobressaltos até final do ano, provar-se-á que a actividade económica do turismo é, sem dúvida, a área que mais continuará a “puxar” pelo crescimento da economia e do emprego a nível mundial.

Para o cimentar desta posição muito contribuiu a estabilização nuns casos e a retoma noutros de um número considerável de destinos turísticos, nomeadamente os situados na bacia mediterrânica, bem como o esmorecer dos atentados terroristas (um pouco por toda a parte), em larga medida fruto dos esforços (mais ou menos deliberados e/ou concertados) da comunidade internacional.

Para além disso, a diminuição do clima de tensão na Península da Coreia, com o reatar de contactos regulares quer entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, quer entre a primeira e os Estados Unidos da América (EUA) e os consequentes anúncios de desnuclearização daqueles países distenderam tanto toda a região do Extremo-Oriente como o Mundo, pela mensagem de maior segurança que passaram.

Nem mesmo algumas catástrofes naturais – sobretudo sismos e inundações, em grande parte devidas às alterações climáticas por que passa a Terra – ou o acentuar da “guerra comercial” dos EUA com a União Europeia e com a República Popular da China, desmotivaram os turistas.

Por cá, e no que respeita ao turismo receptivo (vulgo “incoming”), não obstante o desenvolvimento significativo da oferta que se tem vindo a verificar, deve salientar-se a continuidade do crescimento dos proveitos turísticos, mormente na hotelaria, alicerçado em preços mais elevados e no aumento da receita por quarto disponível (vulgo “RevPAR”), que colocou a nossa oferta turística em padrões mais consentâneos com a relação qualidade/preço que oferece e em níveis mais próximos dos praticados em média pelos destinos mais tradicionais do “Velho Continente”, deixando antever um ano de resultados risonhos para o turismo nacional no seu todo e para o tecido empresarial em particular.

Contudo, e sobre este aspecto, convirá que aqui deixemos três breves notas:

A primeira para referir que apesar destes resultados animadores o número de turistas que nos visitou neste Verão diminuiu – o que pelo “peso” que estes meses têm terá reflexos no todo anual – e essa redução registou-se nos nossos mercados mais tradicionais (europeus), com o britânico (por força do “Brexit”) “à cabeça”.

Deste aspecto decorre uma segunda nota, sobre a qual somos de opinião que é urgente começar a reflectir: maior concorrência e diminuição de turistas podem vir a confrontar-nos, a brevíssimo prazo (é bom ter presente que a contratação do ano de 2019 já está em curso), com maior pressão sobre o preço. Ora, a ponderação desta eventualidade deve merecer a maior atenção por parte de todos agentes turísticos (sem excepção!), mais a mais se considerarmos que a oferta vai continuar a aumentar.

E, a terceira para salientar a importância que o mercado interno voltou a demonstrar o qual, em grande parte, ajudou a atenuar as perdas que acabámos de mencionar.

No que se refere aos fluxos turísticos para o exterior (vulgo “outgoing”) e apesar dos portugueses ainda estarem na “cauda da Europa” no que diz respeito ao valor médio despendido por viagem, tivemos mais pessoas a viajar para o estrangeiro. Mas, ao contrário do “incoming”, tal não significou acréscimo de lucros para a generalidade das empresas turísticas, já que houve um excesso de oferta para a grande maioria dos destinos mais sonantes e, acima de tudo, estratégias comerciais questionáveis por parte de alguns operadores, que deveriam ter merecido uma maior atenção do lado dos Reguladores (Turismo de Portugal e Autoridade da Concorrência) no que toca à avaliação das boas, leais e saudáveis práticas de actuação no mercado e da protecção do consumidor.

Feito este balanço positivo na forma como correu o “Verão turístico”, não podemos concluir a nossa resposta sem antes aqui deixar três alertas que decorrem de situações que tiveram origem ou se acentuaram nestes últimos meses e que, por isso, merecem ser objecto de ponderação pois, num futuro não muito distante, podem trazer-nos alguns “amargos de boca”, a saber:

Desde logo destacar aquela que foi, porventura e para alguns, a maior surpresa deste Verão, mas que só terá repercussão a partir de meados do mês de Outubro. Referimo-nos ao anúncio da suspensão dos voos para Lisboa por parte da Beijing Capital Airlines que é, não temos dúvidas em assim o qualificar, um rude golpe nas legítimas expectativas que existiam no desenvolvimento dos fluxos turísticos com aquele que já é o primeiro mercado emissor mundial – a China –, tema que no início deste mês tivemos oportunidade de aqui abordar em maior detalhe (cf., https://www.turisver.com/iturismo-o-que-nasce-torto-por-atilio-forte/).

Depois, para sublinhar a continuidade da instabilidade laboral na transportadora aérea de baixo custo (vulgo “low cost”) Ryanair, que não afecta apenas Portugal, mas que, se considerarmos o volume de operações que a mesma tem para o nosso país e alguma “dependência” em que nos temos deixado enlear, pode vir a confrontar-nos com sérios e indesejáveis impactos, sempre que algo corra (ou venha a correr) menos bem, seja no Verão, seja nas demais épocas do ano.

Por último, não podemos “passar ao lado” dos incêndios que voltaram a verificar-se, com destaque para o de Monchique (Algarve), o qual pelas suas dimensões e duração fez com que, novamente, Portugal andasse “nas bocas do Mundo” pela pior das razões. Por mais que possamos dizer que tal aconteceu numa zona relativamente circunscrita e que, felizmente, não teve as proporções trágicas do ano passado, o facto é que “a época dos grandes fogos” começa a tornar-se um (péssimo!) hábito. E não há pior que os potenciais consumidores/turistas percepcionarem e interiorizarem esta altura do ano como um mau momento para nos visitarem… Arriscamo-nos a que mais cedo ou mais tarde forme-se a ideia (no espírito dos turistas, induzida ou não pelos nossos concorrentes) que no Verão é perigoso ir (vir) a Portugal porque lá (cá) está tudo a arder (descontroladamente).

Feita esta breve síntese, pode afirmar-se que o Verão de 2018 foi bom mas, como agora é moda dizer-se, por baixo da espuma dos seus dias deixou-nos muitos “trabalhos de casa” para fazer.

 

Turisver.com – A Comunidade Intermunicipal do Algarve anunciou na sexta-feira passada a introdução de uma taxa turística na região, no valor de 1,5€ por dormida, a ser cobrada entre Maio e Outubro. Com a região algarvia a ter uma quebra na procura turística, o anúncio da aplicação desta taxa surge numa boa altura?

Atilio Forte – Em abono da verdade e, também, em coerência com o que sempre defendemos, nenhuma altura é boa para criar taxas ou verdadeiros impostos, porque é efectivamente disso que se trata, mais a mais quando eles incidem sobre a actividade que mais tem contribuído para o progresso do país, com destaque para a última década, e principalmente no momento em que a concorrência “aperta” e o número de turistas tende a diminuir.

Vale a pena relembrar que esta não é uma pretensão de hoje do “poder autárquico”. A diferença é que no passado foi sempre (energicamente) repudiada pela globalidade dos agentes turísticos, nos quais também nos incluímos. Contudo, quando nos anos mais recentes a questão voltou a colocar-se, rapidamente percebemos que a nossa voz iria ficar progressivamente isolada, como acabou por acontecer, dado que os diferentes actores turísticos – públicos e privados – acabariam por aceitá-la, nuns casos como “mal menor”, noutros como “fatalidade”.

Por isso, não estranhamos esta tomada de decisão por parte da AMAL – Comunidade Intermunicipal do Algarve e a pouca contestação que ela está a enfrentar (quase só a nível regional), uma vez que vem na esteira de muitas “taxinhas” turísticas, umas já postas em prática outras anunciadas para breve, cujo único objectivo é suprir as incapacidades da gestão autárquica sem prejudicar o “voto” (os turistas não votam!) ou arrecadar mais receita sem qualquer esforço.

Houve tempos, não muito distantes, em que muitas autarquias imploravam pelo turismo e por turistas, pois entendiam (e bem!) que a sua presença dinamizava as economias locais, criava emprego, riqueza, fixava populações, estimulava o investimento, etc., etc., e percebendo que isso lhes trazia receitas adicionais ainda tinham a preocupação de “retribuir” parte do valor arrecadado melhorando, recuperando, limpando, animando e qualificando, pois sabiam que ao fazê-lo estavam a potenciar a sua atractividade turística, logo a gerar novas fontes de rendimento e mais vantagens directas e indirectas das quais todo o município (munícipes incluídos) beneficiaria.

Só que isso exige critério, rigor, dedicação, compromisso… Entretanto, o turismo em Portugal “disparou” e com isso num ápice passou-se do “rogo” (por turistas) para a “arrogância” (com que se trata os turistas)!

Não espanta pois que o turismo seja algo dado por adquirido e, por vezes, como é o caso que nos é colocado, mesmo nas regiões com maior “saber”, “conhecimento” e “importância” turística como a do Algarve, pouco se ligue a eventuais flutuações ou ciclos dos seus fluxos, pensando-se que os turistas continuarão a vir, que não temos concorrência e, acima de tudo, que quem nos visita não se informa ou compara (com outros destinos) o total do valor que vai gastar, com o que obtém em troca.

Existe o pensamento que não é mais “um ou dois” Euros por dia/noite que influencia a decisão. Nada mais errado. É que, normalmente, quem vem não fica um dia/noite, nem vem sozinho – felizmente – e, mais importante, pergunta-se: então eu para gastar o “meu” dinheiro ainda tenho de pagar um imposto? É que taxa aqui, imposto ali, “taxinha” acolá, no final a soma é grande… e as alternativas são muitas e igualmente com bons argumentos…

Em suma, vale a pena fazer um esforço e tentar “vestir a pele” do turista. Exactamente o mesmo por quem há poucos anos tanto se implorava…

 

O + da Semana:

Celebra-se hoje o Dia Mundial do Turismo! Razão mais do que suficiente e justificável para aqui darmos destaque a uma das mais jovens e fascinantes actividades económicas da actualidade e, principalmente, da única que ao longo das próximas décadas apresenta indicadores de crescimento significativamente acima dos da média do Mundo inteiro. Procurando ilustrar a importância que o turismo tem nos dias de hoje vale a pena recordar os 8 triliões de dólares (a unidade seguida de 18 zeros!) e os 10% de emprego com que contribui para a economia mundial, isto para nem sequer referir a impressionante velocidade com que a actividade se tem desenvolvido e que em escassos 70 anos (do pós II Guerra Mundial até ao momento presente) fez com que o número de turistas disparasse de uns “modestos” 25 milhões para pouco mais de 1.300 milhões. Em suma o turismo deixou de ser um luxo para tornar-se num bem essencial. Mas estamos perante uma actividade económica que é muito mais do que um mero conjunto de indicadores atenta a sua profunda dimensão humana, já que no seu “código genético” possui características ímpares, de entre as quais destacam-se a promoção da solidariedade, da compreensão e da aproximação entre os povos, a preservação do Planeta, a defesa do meio ambiente, do ordenamento do território, do património e da cultura, o contributo para a formação do ser humano, uma vez que o educa, anima e entretém e… poderíamos continuar. Por tudo isto não admira que também seja conhecida como a “Actividade da Paz”. Paz essa que tanta falta nos faz e que quase diariamente vemos ser posta em causa pelo incitamento à construção de “muros” e “barreiras” físicas e morais, que negam os “valores e princípios turísticos”. Talvez por isso alguns pobres de espírito se entretenham a diabolizar o turismo. Certamente por isto a Humanidade precisa do Turismo!

 

Nota da Redacção – Por razões de ordem profissional o iTurismo não será publicado nas próximas duas semanas. Pelo facto pedimos desculpa aos nossos leitores, prometendo voltar ao Vosso contacto no dia 18 de Outubro.