iTurismo: Para Salvar o Turismo

A pandemia provocou uma pausa no Turismo mundial e está em jogo o futuro de uma actividade que, na última década, desempenhou importantíssimo papel na economia. Neste âmbito, Atilio Forte comenta o pacote de medidas de apoio lançado pelo Governo e atenta, também, em duas iniciativas: o slogan mundial “não cancele, adie”, e a campanha do Turismo de Portugal “#CantSkipHope”.

 

Com a pandemia a alastrar é quase uma redundância dizer que estamos em “território desconhecido” e que tudo à nossa volta está em permanente mutação. Por isso é com crescente dificuldade e incerteza que todos, sem excepção, olhamos o futuro, seja ele mais próximo ou mais distante. É que já ganhámos consciência – infelizmente ainda há uns poucos que teimam em fazer de “avestruz” – que, para além do gigantesco problema de saúde pública que enfrentamos, estamos paulatinamente a mergulhar naquela que, com enorme probabilidade, poderá tornar-se numa das maiores crises económicas mundiais jamais vividas.

 

Quanto ao turismo, seja num plano mais vasto e global, seja num plano mais restrito e interno, o cenário é devastador. Desde aviões “estacionados” em tudo quanto é aeroporto, a hotéis, restaurantes, termas, casinos, agências de viagens, empresas de mobilidade, organização de eventos, animação turística, etc., etc., a reduzirem drasticamente (e dramaticamente!) ou a suspenderem as suas actividades, assiste-se ao inimaginável. A constelação turística, a maior actividade económica do Mundo, ficou de supetão em “pausa”! E, mais grave, é que ninguém sabe dizer, com certeza, quando é que voltará a (re)animar. As únicas coisas que podemos ter como garantidas são, por um lado, que a retoma chegará, pois enquanto houver seres humanos a vontade de viajar (e sonhar) e conhecer novos sítios, culturas e povos perdurará e, por outro lado, que a fragilidade presentemente demonstrada pelo turismo é inversamente proporcional à resiliência dos seus agentes e profissionais e à capacidade das suas empresas se reinventarem, como ficou bem provado num passado não muito distante.

Atenta quer a sua expressão económica, quer a sua dimensão ao nível do emprego – afinal é uma actividade feita por pessoas para pessoas –, é natural que os Governos procurem acautelar a sobrevivência do tecido empresarial turístico durante este autêntico “tsunami” que atravessamos, nomeadamente em países como o nosso, isto é, possuidores de pequenas economias muito abertas (e dependentes) ao (do) exterior.

 

Por estas e muitas outras razões, devemos saudar o pacote de medidas de apoio à actividade económica em geral e, muito em particular ao turismo, que o Governo anunciou na passada semana, as quais denotam não apenas um grande esforço e convicção política, mas igualmente vontade de “atacar” o problema no seu âmago, principalmente em tudo o que se prende com a salvaguarda da tesouraria das empresas e com a preservação do emprego.

No entanto, e sem que se pretenda aqui tecer qualquer crítica – até porque estes são tempos de unidade e de convergência de esforços –, da mesma forma que elogiámos os objectivos das decisões tomadas, também devemos dizer que elas vão ser (serão!) insuficientes no que respeita ao turismo, por um vastíssimo conjunto de causas de entre as quais decidimos destacar as três que se seguem:

 

  • Em turismo não se criam “stocks”! Tal significa que, por exemplo, um lugar que não é vendido num determinado voo, um quarto de hotel que não é ocupado numa dada noite, um lugar num restaurante que fica vazio numa qualquer refeição, mesmo que seja vendido para o voo seguinte, ocupado na noite seguinte ou preenchido na refeição seguinte, tratar-se-á sempre de uma outra receita, já que jamais será possível recuperar a riqueza que não se gerou nas situações iniciais, em virtude de não haver forma de “congelar”, para revenda a posteriori, aqueles produtos/serviços. Portanto, todas as reservas que não se materializaram, todas as viagens que não se realizaram e, consequentemente, todas as vantagens económicas que daí adviriam fica(ra)m perdidas, para sempre;

 

  • Considerando este facto, ao qual se pode e deve acrescer o estarmos diante de uma constelação de sectores de mão-de-obra intensiva que, nas perspectivas mais optimistas, vai ter de viver um trimestre sem receitas e que, como acabámos de ver, não terá qualquer hipótese de as vir a recuperar, de pouco ou nada adianta que ao tecido empresarial turístico seja dada a possibilidade de diferir no tempo parte das suas obrigações, pois o prejuízo verificado nunca será recuperável e, consequentemente, esses compromissos terão de ser honrados com outras (novas) receitas que, escusado será dizer, também cumularão com as responsabilidades que devam ser liquidadas nesse momento. A isto deverá somar-se o esforço de tesouraria que as empresas que optarem por aderir ao “lay off” serão forçadas a efectuar (por certo a esmagadora maioria) pois, embora sem entradas de caixa terão de suportar a totalidade dos salários, como todas as de outras áreas da economia, sendo depois – em quanto tempo não se sabe?! – ressarcidas pelo Estado (Segurança Social) em 70% desse valor;

 

  • Mesmo aquelas que o consigam fazer, que serão quase exclusivamente as “médias” e as “grandes”, sobretudo em número de postos de trabalho, de imediato adoptarão medidas – como já começou a acontecer – de suspensão de quaisquer outros tipos de pagamentos, nomeadamente a fornecedores, para salvaguardem a sua liquidez mas que, inevitavelmente, contaminarão toda a cadeia de valor do turismo – e não há actividade mais simbiótica do que esta –, estrangulando agentes económicos tanto dos diferentes sectores turísticos, como de áreas que (aparentemente) nada têm a ver com eles.

 

Em conclusão, não estamos perante uma equação fácil! Mas poderá ser menos complexa e difícil se se conhecer o “A, B, C” e os fundamentos da actividade turística, sob pena de se despenderem energias e meios, que são escassos, e no fim do dia inadvertidamente comprometer-se a nobre missão em que todos estamos empenhados, que é “salvar o (nosso) Turismo”!

 

Igualmente, não podemos deixar de destacar o facto de no Conselho Europeu da semana passada os 27 terem entreaberto uma porta que, até aqui, tem estado completamente selada. Estamos, obviamente, a referir-nos à questão da dívida pública europeia que, atenta a actual conjuntura, vai inexoravelmente disparar e à qual é preciso fazer face sob pena das economias de todos os Estados-Membro entrarem – tal como as empresas – em turbulência financeira. Assim, a admissão à discussão da emissão das célebres “eurobonds” é um pequeno passo que, caso venha a concretizar-se, mesmo que só para os países que integram a Zona Euro, pode ser um excelente amortecedor no curto prazo e um mecanismo poderoso para impulsionar o relançamento da economia europeia e, assim, também vir a revelar-se vital para salvar o Turismo.

 

Não obstante tudo o que se disse há que louvar a iniciativa “não cancele, adie”, tomada à escala mundial por um crescente número de agentes turísticos e que ganhou fôlego na última semana a qual, aparentemente, está a surtir efeito junto dos consumidores, dado ter conseguido atenuar o volume de cancelamentos, principalmente a partir do início de Julho. Paralelamente, um inquérito levado a cabo pela multinacional dinamarquesa de guarda de bagagens “LuggageHero” junto dos seus clientes, revela que 56% mantêm os seus planos de viagem entre Maio e Setembro deste ano. Independentemente das razões que possam estar por trás desta reacção de quem viaja, esta é uma “campanha” que terá de ser colectiva e continuada se quisermos salvar o Turismo.

 

Finalmente, na semana que terminou o Turismo de Portugal merece um rasgado elogio por ter dado provas de grande profissionalismo e sensibilidade ao reconverter a tradicional campanha promocional internacional “#CantSkipPortugal” numa mensagem de prevenção e união de esforços para que depois possamos seguir em frente, que apropriadamente intitulou “#CantSkipHope”. O vídeo que daí resultou merece ser visto (e divulgado!) em https://youtu.be/lFlFkGV207A. É com (pequenos/grandes) gestos como este que também se contribui para salvar o Turismo!

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).