iTurismo: O Paradoxo Lisboeta, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje Atilio Forte comenta as declarações do presidente do Turismo de Lisboa, Fernando Medina, que quer “mais turistas e mais valor deixado pelos turistas” na capital e fala dos 25 anos da ESHTE. A gastronomia portuguesa, o turismo no Médio Oriente e televisões mais inteligentes compõem os “Tópicos da Semana”, enquanto “O + da Semana” versa sobre o desporto e a hotelaria.

Tópicos da Semana:

  • Gastronomia portuguesa de parabéns: Os prémios da edição espanhola da revista “Travellers”, pertença do Grupo Editorial Condé Nast, incluíram pela primeira vez a gastronomia. E na categoria de “Melhor Restaurante do Mundo” distinguiram o lisboeta “Belcanto”, do Chefe José Avillez, sobre o qual disseram: “A sua carta baseada nos produtos do mar e da terra é toda uma experiência sensorial”. Mais palavras, para quê?…

 

  • Televisões mais inteligentes: Os aparelhos de televisão que são muito mais do que simples TV’s estão “em alta”, a um preço cada vez mais baixo. Uma nova geração de televisores permite que os hóspedes dos hotéis controlem a temperatura dos quartos, façam pedidos de “room service” e interajam com os diversos serviços que lhes são disponibilizados (entre muitos outros aspectos), melhorando assim a sua estada e, simultaneamente, permitindo uma gestão mais eficiente e rentável.

 

  • Médio Oriente continua a investir no turismo: Como aqui temos vindo a dar nota, tal não é uma novidade. Desta feita olhamos para o Sultanato de Omã que, só este ano, irá acrescentar à sua oferta hoteleira mais 2.000 quartos de luxo, atraindo investimento e garantindo a presença de grandes marcas internacionais que aí se juntarão, entre outras, à Sheraton, à Fairmont e à Westin.

 

 Comentário

Turisver.com – O Presidente da Câmara de Lisboa e Presidente do Turismo de Lisboa, na tomada de posse dos novos corpos sociais da Associação de Turismo de Lisboa foi peremptório ao afirmar que “queremos mais turistas e queremos mais valor deixado pelo turismo na cidade de Lisboa”. A discussão sobre a existência de turistas a mais na cidade tem ganho força, por isso os nossos leitores têm pretendido saber se, na sua perspectiva, Fernando Medina esteve certo ao não deixar dúvidas sobre o que se pretende para a cidade em relação ao turismo?

 

Atilio Forte – Começamos por recordar, como inúmeras vezes já aqui o fizemos que, nas análises que produzimos, nunca comentamos pessoas, mas políticas e estratégias. É à luz deste princípio que desenvolveremos o nosso raciocínio sobre a questão colocada.

Assim, é sem qualquer hesitação que qualificamos esta afirmação do Executivo Camarário da capital como da maior importância e de grande clarividência. Está mais do que provado o contributo ímpar que a actividade turística dá ao desenvolvimento e crescimento sustentados de qualquer economia (nacional, regional ou local), na geração de riqueza, emprego, coesão social ou territorial.

Dito isto, faz todo o sentido que, ao mais alto nível, se clarifiquem as intenções de quem tem a responsabilidade de conduzir os destinos da cidade de Lisboa sobre o que pensa e projecta para o turismo da capital, sobretudo, quando tal é feito, por um lado, no início de um novo mandato dos órgãos sociais de uma das mais bem-sucedidas (para não dizer a melhor) parcerias público-privadas que alguma vez o nosso país conheceu – a Associação Turismo de Lisboa (ATL) – e, por outro lado, quando algumas vozes questionam se o crescente número de turistas não começa a ser prejudicial, pelos impactos que causa, para o dia-a-dia de todos quantos vivem e trabalham na cidade.

Como é público, mesmo assim esta tomada de posição não deixa de lado, nem esconde, a existência de alguns constrangimentos, tais como a actual capacidade aeroportuária e, tão ou mais importante, a necessidade de harmonizar, adaptar e conciliar as condições oferecidas por Lisboa a quem nela vive e trabalha, com as disponibilizadas a quem a visita. E, para isso, nuns casos será necessário alterar/afinar normativos legais (alguns a que a edilidade até é alheia, como o do Alojamento Local), noutros será necessário intervir para melhor preparar e suportar o aumento da carga turística e, noutros ainda, haverá que regular e, consequentemente, fiscalizar, de modo a garantir quer o cumprimento da legislação em vigor, quer o acesso ao mercado em igualdade de circunstâncias por parte de todos os agentes económicos.

Como facilmente se compreende, tal não será uma tarefa simples e exigirá tanto uma profunda compreensão e conhecimento da realidade, como uma enorme capacidade de diálogo e criação de consensos.

Contudo, apesar de enaltecermos esta postura, também convirá sublinhar o paradoxo que ela encerra, pois se são tão inequívocos os benefícios que decorrem da actividade económica do turismo, fará algum sentido fustigá-la com mais taxas, como acontece com as de dormida e desembarque? É que sendo tantas as vantagens e a tantos níveis, não se percebe que se penalize quem nos visita, quem cá deixa riqueza, principalmente quando essa riqueza provém da exportação de bens e serviços cujo consumo é feito na cidade! Sinceramente, não se compreende, nem se entende!

Se o turismo – e os turistas – traz(em) tantas mais-valias, porquê puni-lo(s) ou multá-lo(s)? Será que a riqueza gerada pela actividade não justifica, por si só, o investimento da cidade na melhoria das suas infra-estruturas, equipamentos e espaços públicos, sem recurso a qualquer “Fundo de Desenvolvimento Turístico” e sem pôr em causa ou estimular contranatura – como acabou por acontecer – o mimetismo de outras cidades portuguesas, prejudicando a competitividade turística do país?

Em conclusão, esta dualidade de posições vem baralhar o que a cidade pretende, verdadeiramente, para e do turismo. Acreditamos francamente que o Executivo da edilidade lisboeta tem total consciência sobre os benefícios que o turismo oferece à capital, por isso somos de opinião que deve, com a maior urgência, desenredar-se da teia em que se enleou.

 

Turisver.com – A Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), que está a comemorar o seu 25º aniversário, tem realizado um excelente trabalho ao longo da sua vida, formando muitos dos melhores profissionais de turismo de hoje, no entanto tem passado ao lado do reconhecimento e apoio do sector público. Pensa que esta é uma altura crucial para que as entidades competentes tenham outro olhar sobre a ESHTE?

 

Atilio Forte – Para responder à questão colocada, sinto que devo começar por fazer uma declaração de interesses, uma vez que, de há um ano e meio a esta parte tenho o privilégio, e o prazer, de leccionar na ESHTE, na qualidade de professor-adjunto convidado. Resta-me ainda salvaguardar que, como sempre, a responsabilidade pelo comentário que se segue só a mim vincula.

Prestado este esclarecimento, e para um melhor entendimento de alguns dos nossos leitores que possam não estar tão familiarizados com a realidade da ESHTE, convirá clarificar que, na sua configuração e localização actuais, as mesmas instalações servem dois estabelecimentos de ensino totalmente diferenciados e tutelados de modo bicéfalo, o do ensino técnico-profissional (tutelado pelo Ministério da Economia, através do Turismo de Portugal) e o do ensino superior (tutelado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior).

Esta coabitação, fruto da partilha física do mesmo espaço, nem sempre se tem revelado de fácil convivência já que, ao longo dos anos e apesar da suposta coesão governamental, por vezes as posições não coincidem no que toca à gestão do “Campus Escolar”, nomeadamente, porque uma acaba por condicionar a outra, ou seja, a Escola Superior é condicionada pela Escola Profissional e vice-versa.

É aqui que tem residido – e reside – o maior constrangimento ao desenvolvimento e expansão deste estabelecimento de ensino como um todo, dado na prática existirem dois “compartimentos quase estanques”, dificultando que quer as suas instalações possam ser desenvolvidas e melhor geridas, quer as inovações a introduzir sejam postas em prática, quer ainda os investimentos a efectuar realizados de modo célere, expedito e de harmonia com as necessidades que uma Escola Superior e uma Escola Profissional deste potencial, precisam e reclamam.

É pois, no seio desta dualidade e dos impasses e inércias daí resultantes que a instituição tem vivido ao longo dos anos.

Contudo, o facto é que, apesar destes condicionalismos, a ESHTE tem prosperado, afirmando-se como um “centro de excelência do saber e do conhecimento” da actividade turística em ambas as vertentes mencionadas (técnico-profissional e superior). A comprová-lo está o crescimento obtido em número de alunos e cursos ministrados.

Tendo em consideração os compromissos assumidos no início desta semana pelo Governo, que tivemos a oportunidade de testemunhar no decurso da Sessão Solene Comemorativa do 25º aniversário da ESHTE, tanto pela Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, como pela Secretaria de Estado do Turismo, sem esquecer a disponibilidade também manifestada pela Câmara Municipal de Cascais, acreditamos que uma nova fase, bem mais promissora, está prestes a iniciar-se.

Fase essa que permitirá não apenas resolver em definitivo a questão das instalações, como augurar um futuro bem mais promissor à ESHTE, para que possa continuar, com crescente sucesso, a cumprir com a sua incontornável missão educativa e formativa na actividade turística nacional e, por que não dizê-lo, ambicionar poder transpor as fronteiras nacionais, internacionalizando-se – e dando-se a conhecer ao Mundo – como pólo de excelência do turismo português.

 

O + da Semana:

O desporto e a hotelaria começam a revelar-se como uma combinação vencedora. Prova disso são as inúmeras parcerias que, um pouco por toda a parte, têm ocorrido entre cadeias hoteleiras e grandes marcas ou clubes desportivos, com significativos benefícios mútuos, concretamente ao nível de uma maior exposição dos seus nomes e da fidelização dos consumidores. O mercado americano tem-nos dado vários exemplos, como sejam, a aliança entre a Starwood Hotels & Resorts Worldwide, a equipa de basebol Chicago Cubs e a National Basketball Association (NBA) ou a da Marriot International com a National Football League (NFL) e a selecção americana de natação. Mas não se julgue que Portugal se deixou ficar para trás! O acordo anunciado há alguns meses – do qual demos nota – entre o Grupo Pestana e a CR7 (leia-se Cristiano Ronaldo) prevê a abertura, ainda este ano, de duas unidades “Pestana CR7 Hotel” – uma em Lisboa e outra no Funchal -, estando na calha a inauguração, já em 2017, de duas outras (Madrid e Nova Iorque). Agregar valor, de modo a que o resultado seja superior à soma aritmética das partes (1 + 1 = 3) é, no fim de contas, o grande segredo (… de Polichinelo).