iTurismo: Parar para Pensar

A evolução da actividade turística em Portugal face ao reposicionamento de destinos mediterrânicos e a entrada em perda de alguns mercados tradicionais, é um dos temas analisados. Atilio Forte detém-se, também, nas anunciadas alterações ao trânsito em Lisboa, e no próximo congresso da ADHP que vai dar voz a alunos de mestrado e doutoramento das escolas superiores de hotelaria e turismo.

 

A semana que findou ficou marcada por um vasto conjunto de “acontecimentos” que poderão condicionar, ainda este ano, a evolução da actividade turística à escala nacional, apesar dos ecos de continuidade de crescimento do turismo mundial que nos chegam no rescaldo da FITUR (uma das mais importantes feiras de turismo do Mundo, que teve lugar em Madrid na penúltima semana do mês de Janeiro). Assim se, aparentemente, não se vislumbram no horizonte “obstáculos” de difícil superação que, de alguma forma, possam travar ou condicionar internacionalmente a dinâmica quer do aumento de turistas, quer das receitas por eles geradas, o facto é que alguns dos destinos mais tradicionais, onde Portugal se inclui, não podem deixar de ficar (pelo menos) um pouco apreensivos, uma vez que, do que nos é dado ver, muito do “ímpeto” revelado nos últimos anos está a esmorecer.

Prova disso – e corroborando o que em devido tempo aqui dissemos e alertámos! – é o dinamismo que muitos mercados mediterrânicos manifestam, visível tanto no investimento turístico (interno e externo, público e privado) que aí está a ser feito, como nas operações que para aí já foram contratadas e começam a ser anunciadas. Isto significa que, em definitivo, regiões como a do Norte de África (Tunísia, Marrocos, Egipto, etc.) ou do Mediterrâneo Oriental (Turquia), estão de volta e em força “ao jogo” e, convirá ter presente, com ânimo (leia-se argumentos) redobrado. Em paralelo, a recuperação de alguns destinos da chamada Europa mediterrânica, como a França e a Grécia, a par da entrada “na moda” de outros como a Croácia ou o Montenegro, vêm aumentar significativamente a concorrência internacional a todos os níveis e em todos os segmentos, pois conseguem esgrimir argumentos em qualquer “tabuleiro” de viagens, sejam elas de curto, médio ou longo curso.

Não é por isso de estranhar que alguns dos nossos principais e mais tradicionais mercados (Alemanha, França e Países Baixos), com decréscimos registados no ano passado, continuem sem dar sinais de inversão da tendência. Vale-nos que, no imediato, não se perspectiva que o (recém consumado) “Brexit” possa alterar substancialmente o comportamento dos turistas oriundos do Reino Unido, dada a “moratória negocial” que existirá até ao final deste ano, para que os (agora) 27 e aquele ex-Estado-Membro cheguem ao(s) acordo(s) necessário(s) que consubstancie(m) as bases do futuro relacionamento comum, mormente no que respeita às questões económicas, nas quais o turismo se inclui. Mais a mais sabendo-se, à partida, da possibilidade de “esticar” o prazo de 31 de Dezembro de 2020, por mais um ou dois anos.

Se olharmos para países emissores mais longínquos que têm estado a apresentar bons indicadores no que toca a Portugal, constatamos que o “quadro” pode, de um momento para o outro, ficar instável. Veja-se o que há poucos anos aconteceu com Angola que, infelizmente e pelas razões que são públicas, não dá mostras de, a curto prazo, voltar a ser (turisticamente) o que já foi. Estão nesta situação, embora por motivos diferentes, a China e os Estados Unidos da América e, até, o próprio Brasil. Se no primeiro caso ninguém pode prever como irá evoluir a questão do “coronavírus” e, consequentemente, qual a dimensão em que tal poderá afectar a mobilidade dos chineses – que são só a maior potência emissora mundial – nos próximos meses, nos outros dois, o aumento da contestação interna e a implementação governamental de medidas mais proteccionistas, deixam muitas interrogações no que respeita ao seu futuro económico e turístico, pois ambos são “países continente” com uma fortíssima e diversificada oferta turística que pode dar resposta “caseira” às múltiplas solicitações dos seus consumidores.

Em síntese, a “coisa não se afigura fácil” pelo que o mais recomendável é que se pare para pensar!

 

A semana também ficou marcada pela apresentação pública do projecto para a criação da Zona de Emissões Reduzidas Avenida Baixa Chiado (ZER ABC), por parte da Câmara Municipal de Lisboa, visando retirar viaturas – principalmente automóveis – de uma das partes mais emblemáticas e históricas da capital, tornando-a menos caótica, menos poluída e mais apetecível de fruir, quer para quem lá vive, quer para os demais lisboetas quer, ainda, para os que a visitam. Se estas intenções são, naturalmente, de saudar, já o conjunto de soluções propostas vai, seguramente, dar muito que falar.

Mas, aparentemente, a ideia é exactamente essa dado que este foi apenas o primeiro passo ao qual se seguirão reuniões com entidades várias (Juntas de Freguesia, Associações Empresariais e cidadãos) de modo a obter consensos que permitam operacionalizar as medidas, já no próximo Verão.

No entanto, esta “pressa” pode pôr em causa um debate mais sereno e, acima de tudo, menos controverso porque mais informado, principalmente se se tiverem em conta soluções que outras cidades com problemas semelhantes adoptaram e que se afiguram bem mais eficazes do que as que estão “em cima da mesa”. Se é fundamental que a sustentabilidade, nos seus mais diversos níveis, esteja presente no pulsar quotidiano dos municípios, em geral, e no de Lisboa, em particular, também não pode esquecer-se que há pouquíssimos anos a zona objecto da intervenção agora proposta estava semiabandonada e decrépita. Portanto, e como o “óptimo é inimigo do bom”, e para que não se ande constantemente de alterações em alterações – como é o caso do trânsito na Avenida da Liberdade, mudado apenas há meia dúzia de anos e, aparentemente, pronto para o ser de novo – será avisado que se pense bem no que se pretende fazer.

 

Concluímos esta análise à semana passada com o anúncio da realização, entre 2 e 4 de Abril, em Évora, do XVI Congresso da Associação dos Directores de Hotéis de Portugal (ADHP) subordinado ao tema “Hotel 4.0 – o futuro começa agora”, o qual englobará mais uma edição dos Prémios Xénios, que distinguem aqueles que diariamente trabalham no sector hoteleiro e as empresas que nele operam, nas suas múltiplas áreas.

O grande objectivo do Congresso é que os profissionais da hotelaria debatam os novos problemas e desafios com que têm de se confrontar, fruto de um Mundo, de uma sociedade e de comportamentos de consumo em constante mutação.

Dito isto, o que verdadeiramente merece ser destacado é a inovação introduzida no evento deste ano, que inclui a realização de sessões paralelas onde os alunos de mestrado e doutoramento das escolas superiores de hotelaria e turismo terão a possibilidade de aí procederem a apresentações tanto sobre matérias relacionadas com a gestão hoteleira, como com a promoção turística. É uma iniciativa inédita em congressos de turismo que se aguarda com curiosidade e, sobretudo, que se espera possa ajudar a estreitar ainda mais os laços entre as instituições de ensino, as empresas e quem as gere e, mais importante, pôr todos a pensar em conjunto!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).