iTurismo: Perguntas Sem Resposta

As consequências que o coronavírus “CoVID 19” está já a provocar na economia global e, em particular, no Turismo, é um dos temas abordados por Atilio Forte. Em análise estão, também, o Plano Estratégico de Turismo para a Região de Lisboa 2020-2024 e o XIV Congresso da CGTP que elegeu um novo quadro de dirigentes e aprovou vários documentos programáticos.

 

Apesar dos esforços desenvolvidos pela China, bem como por toda a comunidade científica e organizações internacionais, a luta contra o coronavírus – recentemente baptizado como CoViD 19 – tem vindo, infelizmente, a revelar-se insuficiente, uma vez que o número de infectados e de fatalidades continua a crescer. O lado mais positivo da situação – se é que nela existe algo de bom – é que, apesar de tudo e contrariamente às expectativas iniciais, o presente surto epidemiológico está a conseguir ser circunscrito, ou por assim dizer acantonado, à região onde eclodiu, sendo esta uma das diferenças mais marcantes com casos análogos surgidos nas últimas duas décadas.

A par deste grave problema que a saúde pública mundial atravessa, na passada semana começámos a ter alguma percepção sobre as consequências que o mesmo já está a provocar ao nível das diversas actividades económicas e de como pode vir a afectar a economia global e, muito em particular, o turismo. E, desde logo, o aspecto mais importante a salientar (e a recordar) comparativamente ao verificado em 2003, quando enfrentámos o SARS-CoV (síndrome respiratória aguda grave), é que nessa altura a economia manifestava-se pujante em todas as grandes regiões do globo, a República Popular da China apenas “pesava” 8% (dados do FMI – Fundo Monetário Internacional) do total da riqueza gerada no Mundo e ainda estava longe de se tornar no primeiro emissor de fluxos turísticos do Planeta. Ao invés, actualmente a economia mundial passa por uma fase de crescimento mais ténue, estando estagnada ou perto disso em muitas regiões – veja-se o caso da Europa –, a China tornou-se, entretanto, na segunda maior potência económica, responsável por 19% (dados do FMI) do total da riqueza gerada e é, consistentemente e de longe, o maior emissor turístico do Mundo.

Ora, este (novo) quadro onde aquele país representa perto de 1/5 da economia mundial deve naturalmente preocupar-nos, já que uma “travagem a fundo” da actividade económica e do consumo na China pode confrontar-nos com o espectro de um grave problema internacional de proporções difíceis de antecipar, pelo menos neste momento. Para além disso, sendo até agora a quarentena a arma mais eficaz para evitar a propagação da doença, a interrupção provisória de cerca de 67% de todas as ligações aéreas para e da China, a suspensão das viagens turísticas de grupo dos cidadãos chineses para o estrangeiro decretada pelo Governo de Pequim e o consequente cancelamento de vários eventos internacionais de grande dimensão um pouco por todo o Mundo, tal como o veemente desaconselhamento da realização de viagens para aquele país, por parte de quase todos os Estados, contam-se entre os factores que mais fortemente têm impactado negativamente na actividade turística à escala global.

A título de ilustração, refira-se que uma das principais cadeias hoteleiras do Mundo a Hilton Worldwide Holdings Inc., detentora no seu portefólio de várias marcas, encerrou nos últimos dias, ainda que temporariamente, 150 unidades que operavam em território chinês, dando como razão a falta de clientes. Na passada sexta-feira, a ICAO – Organização Internacional da Aviação Civil veio alertar publicamente que estima que, só no primeiro trimestre de 2020, as companhias aéreas possam vir a perder qualquer coisa como 5 biliões de Dólares (4,6 mil milhões de Euros) de receitas. Também na semana passada, aqui bem ao nosso lado, em Barcelona, foi anunciado o cancelamento de um dos maiores eventos tecnológicos que anualmente se realizam no Mundo, o MWC – Mobile World Congress, por ausência de algumas dezenas das principais empresas que habitualmente nele participam, prevendo-se perdas económicas para a cidade a rondarem os 500 milhões de Euros. E muitos mais exemplos poderiam ser dados, mesmo de casos nacionais em que, entre outros, hotéis, restaurantes, agências de viagens e estabelecimentos comerciais começam a ver a sua operação em plena “época baixa” (Inverno) ser posta em causa, em razão dos cancelamentos de grupos de turistas chineses…

Não admira pois que nenhuma entidade internacional, do Banco Mundial ao FMI, passando pelo Fed (Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos da América), pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu, tenha avançado até ao momento com qualquer projecção para a evolução da economia mundial que englobe o impacto do CoViD 19. O mais que se consegue antecipar é que estaremos perante um cenário em “V”, isto é, de queda abrupta, seguida de retoma fulgurante. Tomando como boa esta teoria a grande pergunta para a qual ainda não há resposta é saber-se quanto durará o seu “ponto” mais baixo (do vértice do “V”)?

 

A semana que findou ficou igualmente marcada pela apresentação, por parte da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa (ERT – RL) e do Turismo de Lisboa, do Plano Estratégico de Turismo para a Região de Lisboa 2020-2024 que, no essencial, tem por objectivo potenciar a actividade dentro das suas fronteiras geográficas através da criação de 12 pólos turísticos e de produtos transversais a todo o destino, sublinhando-se o “novo” protagonismo que é dado ao Rio Tejo e, muito em concreto, à margem Sul, aspecto que há muito defendemos e que, por isso, já aqui havíamos recentemente elogiado a propósito do anúncio da criação da Rede Cais do Tejo, uma vez que consideramos vital que o “turismo salte para a outra banda” (margem Sul) para que a região se possa continuar a expandir de forma sustentável, inovadora e diferenciadora e a actividade consiga contribuir com todo o seu dinamismo para o progresso mais homogéneo, principalmente ao nível económico e social, de todos os municípios que compõem este destino turístico de excelência.

Sem pretender de alguma forma retirar mérito a esta iniciativa e à valia dos seus objectivos temos, contudo, de confessar que a ausência de qualquer referência ao “Ocean Campus”, apresentado pelo Governo com pompa e circunstância e sob o rótulo de “nova Expo”, em Julho do ano transacto, projecto a desenrolar-se em três fases entre 2019 e 2030 que, entre outros pontos positivos, visa requalificar toda a frente ribeirinha ocidental da capital (de Lisboa a Oeiras), é uma pergunta que o Plano agora apresentado deixa sem resposta!

 

Como último destaque da semana passada salientamos a realização do XIV Congresso da CGTP – IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional) que para além da eleição de um novo quadro de dirigentes, entre os quais uma nova Secretária-Geral, aprovou ainda vários documentos programáticos.

Por razões diversas, há quase uma década e meia que o diálogo construtivo que era suposto existir entre todos os Parceiros Sociais tem “deixado de lado” esta Confederação Sindical, umas vezes por sua auto-exclusão, outras por ostracização – mesmo quando não deliberada – dos demais Membros da CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social.

Dito isto, espera-se que esta seja uma oportunidade a aproveitar por todos os representantes de trabalhadores e empregadores para relançarem o Diálogo Social e, inclusivamente, o papel da CPCS, nomeadamente por parte das Confederações Empresariais, onde o turismo, pela juventude da própria actividade e consequente ausência de dogmas ou posições historicamente ortodoxas, que têm feito perdurar antagonismos tantas vezes ocos, pode desempenhar um papel fundamental, para que muitos dos problemas e das perguntas que afectam o escorreito desenvolvimento económico e social do país não continuem sem resposta.

 

Nota da Redacção: Em virtude da próxima terça-feira ser Carnaval, informamos que o iTurismo será excepcionalmente publicado na quarta-feira, dia 26 de Fevereiro.

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).