iTurismo: Pôr os Pontos nos ii

Os “números” da TAP respeitantes ao ano de 2019, que se somam aos prejuízos de 2018, anos para os quais estavam previstos lucros, servem de mote ao comentário de Atlio Forte. Além deste tema, o comentador aborda também  os dados ainda preliminares publicados pelo INE sobre o desempenho da actividade turística no ano que passou.

 

Soube-se na semana passada que o Grupo TAP irá apresentar cerca de 105 milhões de Euros de prejuízo respeitantes ao exercício de 2019. Apesar da grandeza do valor, convirá ter presente que no “mundo” da aviação – mesmo quando se trata de uma transportadora de média dimensão, como é o caso – estes números não são (totalmente) absurdos. Embora pertencendo a “outro campeonato” veja-se que o Grupo Air France – KLM veio recentemente anunciar que, só no primeiro trimestre de 2020, apresentará qualquer coisa como 150 a 200 milhões de Euros de resultados negativos, por causa dos impactos provocados pelo surto do coronavírus. Ora, tendo em consideração a grande renovação de frota efectuada ao longo do ano passado, que terá custado à companhia qualquer coisa como 55 milhões de Euros, bem como a abertura de novas rotas – muitas de longo curso – e o reforço de outras e, ainda, a contratação de mais pessoal de voo, sinceramente não vemos qualquer “drama” nesta situação.

O problema é que não estamos apenas a falar de 2019, uma vez que em 2018 o Grupo TAP também já tinha registado prejuízos a rondar os 118 milhões de Euros. E, bem mais importante, deve recordar-se que o “Projecto Estratégico” para a companhia apresentado e aprovado em 2017 previa lucros, respectivamente, de 84 e 75 milhões de Euros, nesses mesmos anos (2018 e 2019).

Paralelamente, e não obstante estes resultados negativos, o Governo mostrou-se sobretudo indignado com a possibilidade da TAP poder vir a pagar prémios a alguns dos seus trabalhadores, tal como sucedeu no ano transacto. Esta posição “popularucha” e “para consumo (voto) interno” não só retira o foco daquilo que é verdadeiramente importante – a sucessão de maus resultados da TAP –, como demonstra o desconhecimento do que é o “mundo real” e os actos de gestão que muitas empresas, por vezes, necessitam praticar para atenuar ou contrariar tendências e projecções extremamente deficitárias (se perante um cenário catastrófico em que, imagine-se, se prevê perder “10”, conseguir-se atenuar essa perspectiva para apenas “5”, fruto de um incentivo pecuniário que selectivamente se estabeleceu com algumas áreas/trabalhadores, de modo a compensar o seu “sobre esforço”, ou pretender premiá-lo a posteriori como reconhecimento pela sua influência na melhoria do balanço anual da empresa, uma vez que o desempenho dos demais jamais alteraria o resultado final da mesma em tão grande nível, existe legitimidade e fundamento para assumir essa decisão, apesar da mesma poder ser qualificada como discutível ou, até, injusta).

Pior, com esta postura o Governo faz “tábua rasa” do que se passa na sua própria “casa”, já que também recorre ao pagamento pecuniário de prémios para distinguir trabalhadores de vários sectores da função pública, de entre os quais sobressaem os da AT – Autoridade Tributária, pelos esforços que fazem ao nível das cobranças coercivas, o que inevitavelmente também acaba por criar diferenças entre eles. E, que se saiba, nos últimos decénios o Estado sempre teve contas deficitárias…

Perante este quadro, o que devia importar era dar resposta à grande questão de fundo: sabe o Estado – sim, porque estamos muito para além da mera actuação dos Governos – o que está a fazer na e com a TAP? Ou alguma vez o soube? Senão vejamos:

Foi ou não o Estado quem durante décadas geriu a TAP, acumulando sucessivos prejuízos e nomeando, salvo raríssimas excepções, Administrações “políticas” que de aviação comercial pouco ou nada sabiam? Foi ou não o Estado quem decidiu escolher o(s) parceiro(s) com quem negociou a privatização da companhia? Foi ou não o Estado quem decidiu reverter a privatização de modo a ficar em posse de 50% do capital da empresa (2015) e, consequentemente, deter a maioria de lugares no seu Conselho de Administração (CA)? Foi ou não o Estado quem decidiu, num incompreensível acto de revivalismo, nomear para seus representantes naquele Órgão pessoas que, embora com provas dadas noutras áreas, de transporte aéreo pouco ou nada sabiam? E podíamos continuar…

A comprovar tudo isto está o facto do Estado, embora maioritário no CA, ter aceitado que a gestão da companhia fosse 100% privada, assumindo as suas incapacidades e ignorância e colocando a defesa dos seus interesses nas mãos de terceiros, por acaso nomeados pelo accionista minoritário e, escusado será dizer, detentores de amplo conhecimento sobre o funcionamento do negócio. Em face deste cenário podemos perguntar-nos: então porquê ter revertido a privatização? Afinal, o Estado continua a não ter controlo sobre as decisões tomadas!

Aqueles que ao longo dos anos acompanham esta nossa rubrica sabem que sempre defendemos a TAP e todos quantos nela trabalham, por mérito e por competência e não por indicação política, por ser uma grande empresa, uma excelente marca e, por último mas não menos importante, por as suas operações serem vitais para a sustentabilidade e para o desenvolvimento do turismo nacional.

Por tudo isto, mais decisivo do que a discussão “para português ver” sobre dar ou não dar prémios, é ter resposta para as questões que aqui colocámos. É “varrer” a lista de “pré-candidatos espontâneos” a (futuro) Membro do seu CA (e mesmo seus Presidentes) que já se perfilam nos vários quadrantes políticos e (inclusive) nalgumas áreas da sociedade civil. É preocupar-se sobre e com a evolução futura da estrutura accionista da empresa. É analisar com propriedade e saber os investimentos que foram e são feitos. Em suma, e de uma vez por todas, é “pôr os pontos nos ii”!

 

Outro acontecimento marcante da semana passada foi a disponibilização por parte do INE – Instituto Nacional de Estatística dos resultados preliminares da actividade turística respeitantes a 2019 os quais, vale a pena referi-lo, são muito positivos, quer em número de turistas, quer em receitas, como seguramente daqui a uns meses irão comprovar os dados da CST – Conta Satélite do Turismo, também coligidos por aquele organismo público.

Sem entrarmos em grandes análises aos mesmos julgamos, no entanto, ser oportuno fazer duas clarificações, ou se se quiser, igualmente pôr os pontos nos ii no que se refere a dois aspectos. Um em razão da confusão gerada, sobretudo nalguma comunicação social mais generalista, relativa à distinção entre hóspedes e turistas. O outro relacionado com a importância do mercado interno. Mas, vamos por partes:

Após aquela divulgação feita pelo INE de imediato se começou a ver e a ler que Portugal teria acolhido em 2019 qualquer coisa como 27 milhões de turistas, o que não corresponde à verdade, já que esse foi o número de hóspedes registado na totalidade dos estabelecimentos hoteleiros (26.985.500). Significa isto que, por exemplo, se um turista pernoitou num hotel no Algarve, noutro em Lisboa e ainda noutro no Funchal, acabou por ser 3 vezes contabilizado como hóspede, embora enquanto turista (vivendo ou não em Portugal) seja sempre contado como 1.

Já quanto ao mercado interno, tantas vezes subvalorizado como nunca nos cansaremos de destacar, deve salientar-se que no ano passado o mesmo foi responsável por quase 40% dos hóspedes (“indivíduos que efectuaram pelo menos uma dormida num estabelecimento de alojamento turístico”) e 30% das dormidas (“permanência de um indivíduo num estabelecimento que fornece alojamento, por um período entre as 12 horas de um dia e as 12 horas do dia seguinte”).

Se compararmos estes elementos com os apurados em 2018 e com os relativos aos dos não residentes (leia-se, provenientes de mercados externos), o seu significado ainda se torna mais impressivo, já que a taxa de variação homóloga (2018/2019) regista um crescimento de 7,5% para os que residem no nosso país, enquanto que a dos que vivem no estrangeiro não vai além dos + 7,1%. Mas é nas dormidas que a diferença mais se acentua, já que em 2019 as realizadas pelo mercado interno cresceram 6,2%, ficando as provenientes dos mercados externos em cerca de metade (+ 3,3%) desse valor.

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).