iTurismo: Por Uma Universidade de Turismo, por Atilio Forte

As distinções que têm incidido sobre a qualidade do ensino do turismo em Portugal, que já valem a pugnação pela criação de uma Universidade de Turismo, e a fixação pelo Governo, do salário mínimo nacional para o sector privado em 600 euros, bem como o seu impacto na capacidade económica das empresas do turismo, merecem destaque do iTurismo desta semana.

 

Tópicos da Semana:

  • Reino Unido assiste a uma expansão na hotelaria de luxo: Uma análise conduzida pela reputada firma Boodle Hatfield, que se dedica ao aconselhamento jurídico a clientes “abastados”, revela que o número de hotéis de luxo existentes no Reino Unido aumentou significativamente nos últimos anos, enquanto os de categoria inferior tem vindo a diminuir, muito por força da presença de investidores estrangeiros que, sobretudo, têm apostado neste segmento (luxo).

 

  • África é a resposta a quem procura autenticidade: Na opinião da maior parte dos especialistas o destino África está a tornar-se “obrigatório” para os turistas desejosos de substituir a ostentação e o luxo pelo autêntico. É que, de acordo com as pesquisas efectuadas, viajar com um propósito, de forma sustentável, consciente e com a possibilidade de viver uma experiência palpável e única é exactamente o que procuram os viajantes actuais.

 

  • Hoteleira japonesa tem a geração do milénio em mira: As novas propostas do sector hoteleiro japonês têm um alvo bem definido, a geração “Y” ou do milénio. Nesse sentido, os mais recentes projectos contemplam, ao nível do design, uma clara tendência para disponibilizarem quartos elegantes e sofisticados e amplos “lobbies” que permitam a socialização entre os hóspedes.

 

Comentário: 

Turisver – O Turismo em Portugal está nas bocas do mundo, não apenas pelos recentes prémios arrecadados na final dos World Travel Awards que premiaram a excelência do Destino e de vários dos seus empreendimentos hoteleiros e empresas, mas também por várias distinções que têm incidido sobre a qualidade do ensino do turismo em Portugal. A este nível, é de realçar a posição de relevo conquistada pela Universidade do Algarve (UAlg) no Shanghai Ranking’s Global Ranking of Academic Subjects que coloca em destaque o desempenho desta instituição de ensino na produção científica e na qualidade de investigação em Hospitality & Tourism Management. Na sua perspectiva, pelo elevado know-how que temos em termos de turismo, faz sentido que Portugal venha a ter uma Universidade de Turismo?

 

Atilio Forte – Esta é, em nossa opinião, uma excelente questão que os nossos leitores nos colocam pois, para além de “fora da caixa”, sem dúvida alguma que estamos perante um dos temas que deveria merecer mais atenção pela parte de toda a comunidade turística nacional, por um vastíssimo conjunto de razões de entre as quais destacamos:

Desde logo porque o conhecimento é, actualmente, o maior e mais valioso activo intangível que existe no Mundo. Por isso quem o detém e dele sabe tirar o devido proveito está em vantagem face a terceiros – seja no plano individual seja no colectivo – e, consequentemente, mais perto de alcançar o sucesso.

Em segundo lugar porque apesar do turismo ser hoje uma das actividades que lideram a economia mundial, não deixa de ser uma área relativamente jovem – a sua grande expansão deu-se nos últimos 70 anos – motivo pelo qual ainda está (ou é) pouco estudada pela comunidade científica.

Além destes aspectos, deve também considerar-se um terceiro que decorre da complexidade do turismo ser enorme já que, por um lado, o seu crescimento e desenvolvimento (quase) exponenciais tornaram-no na primeira actividade económica verdadeiramente global, mesmo antes de existir uma definição ou conceito de globalização o que, como se sabe, só aconteceu em finais do século passado e, por outro lado, porque está sujeito à interacção que tem com praticamente todos os domínios da nossa vida política, económica, social, ambiental, cultural e religiosa e de como qualquer um deles o pode influenciar positiva ou negativamente.

Em quarto lugar convirá destacar o facto de estarmos perante uma área de mão-de-obra intensiva, para a qual se projectam continuados aumentos anuais ao longo das próximas décadas, o que quer dizer que será nela que cada vez mais pessoas irão encontrar a sua vocação profissional ou escolherão como percurso (natural) para a sua vida activa.

E, finalmente, porque todos estes argumentos conduzirão (obrigarão!) a uma crescente especialização do “saber turístico” e, necessariamente, à aquisição de conhecimento de base científica tanto para a inserção no mercado de trabalho, como para o exercício das diferentes profissões turísticas, como ainda para uma melhor apreensão e compreensão do próprio turismo e do modo como poderá garantir-se que o seu progresso, das suas empresas e organizações, seja sustentável e sustentado.

Perante este quadro – presente e futuro – e sendo hoje-em-dia Portugal uma “potência” à escala global e um país com elevada (e reconhecida) reputação turística, mais do que fazer sentido, impõe-se que saiba tirar o devido partido desta sua condição e investir na criação de um centro de excelência de conhecimento e de investigação científica no turismo que, simultaneamente, lhe permita manter-se na vanguarda da inovação na/da actividade, melhor preparar-se para os constantes desafios que irá enfrentar resultantes, entre outros, do aumento da concorrência e da digitalização, capacitar o seu tecido empresarial com quadros e profissionais com maiores competências, aproveitar a experiência e o saber que o conduziram ao êxito ensinando-os e transmitindo-os às novas gerações e lançar os alicerces que o cimentem como pólo de nomeada, capaz de atrair estudantes universitários de todo o Mundo que busquem por qualificação académica ou especialização técnico-científica superior e de incontestável qualidade, neste domínio.

Aproveitamos para aqui abrir um parêntesis e referir que, salvo raríssimas excepções, não existem muitas Universidades de Turismo “de topo” a nível internacional – sendo este um mercado/negócio (ainda) por explorar – e que a criação de uma não poria em causa, muito pelo contrário, as instituições de ensino superior (públicas e privadas) que possuem cursos de turismo e que já exercem a sua actividade entre nós com assinalável sucesso, bem atestado pela elevadíssima taxa de empregabilidade que os seus alunos registam. Estamos em crer que a existência de uma Universidade de Turismo acabaria, a todos os níveis, por dar um contributo positivo para o desenvolvimento e maior afirmação de todas elas, dos seus docentes e discentes.

Feito este à parte, somos de opinião que ainda há um outro factor a considerar, o qual está relacionado com este último aspecto e que legitima a pergunta: se já temos instituições de ensino superior que leccionam com grande qualidade cursos de turismo, será mesmo necessária a criação de uma Universidade de Turismo?

No nosso modesto entendimento, sim. Desde logo porque a existência de umas, não invalida a outra. E, bem mais importante, porque uma coisa é termos cursos de turismo integrados em Faculdades de Universidades ou ministrados por Estabelecimentos Públicos de Ensino Superior Politécnico, mesmo que estes estejam exclusivamente devotados ao ensino superior no/do turismo e outra, completamente diferente, é termos uma Academia que responda, na totalidade, à crescente necessidade de especialização que esta actividade económica vem denotando. É que hoje em dia há mais turismo para além da Gestão Hoteleira ou de Empresas Turísticas, da Animação ou da Informação Turística ou da (genérica) Licenciatura em Turismo, para só darmos alguns exemplos.

Como a nível universitário deve haver mais turismo do que aquele que é ministrado nos diferentes cursos, uma vez que quase todos os dias há novas e mais específicas exigências de “saberes” na actividade, que muitas das vezes evoluem para profissões ou funções turísticas que carecem de adequada formação académica.

A isto acresce a componente da investigação científica, da inteligência empresarial (vulgo, “business intelligence”), da consultoria e da assessoria a empresas, organismos e ao próprio Estado (Central, Regional e Local), seja a nível nacional, seja a nível internacional, áreas que podem e devem ser consideradas e que, no final, também constituem uma fonte de receita adicional a explorar pela Universidade.

Em conclusão, apesar de reconhecermos que muito mais haveria a dizer sobre esta matéria e embora admitamos que ela possa não ser uma temática merecedora de pleno consenso, acreditamos firmemente que no plano da Academia, Portugal poderia e deveria aproveitar esta oportunidade para (re)tirar mais partido do saber (tantas vezes de experiência feito) e do conhecimento que ao longo dos anos tem vindo a acumular no que respeita à actividade turística e colocar-se numa posição cimeira – e porque não de liderança? – no que toca ao ensino, difusão, investigação e desenvolvimento das melhores e mais actuais práticas aplicadas ao turismo, tanto no presente, como no futuro.

Por todas estas razões cremos valer a pena que o pleno dos actores turísticos pugne pela criação de uma Universidade de Turismo!

 

Turisver – O Governo fixou o salário mínimo nacional, para o sector privado, em 600€. Na sua opinião este montante ajusta-se à capacidade económica das empresas do turismo?

 

Atilio Forte – Considerando o desempenho registado pelas empresas turísticas nos anos mais recentes e olhando estritamente para o valor em causa (600 Euros) não temos reservas em afirmar que, infelizmente, o Salário Mínimo Nacional (SMN) continua com um valor muito abaixo do desejável e, mesmo, do necessário, no nosso país. Basta fazer-se o exercício do que se pode adquirir mensalmente com um vencimento deste montante para facilmente percebermos que muitos dos nossos concidadãos vivem com extremas dificuldades (e ainda há os que nem isso auferem…), facto que a todos nos deve envergonhar. E nem sequer trazemos à discussão a comparação com outros países da União Europeia ou da Zona Euro…

Como já tivemos oportunidade de referir em anteriores comentários não temos dúvidas que tanto em geral, como na actividade turística em particular, as empresas gostariam que o tecto do SMN fosse mais elevado. O problema é a brutal carga fiscal que incide sobre o “factor trabalho” que, no “final do dia”, incrementa significativamente os custos com o pessoal, situação que acaba por impedir muitos agentes económicos de pagarem aquilo que (verdadeiramente) desejariam, ao que devem adicionar-se os encargos inerentes aos demais escalões salariais, uma vez que as entidades empregadoras acabam, por vontade própria ou (quase) por obrigação, por terem de reflectir o incremento do SMN nas várias categorias profissionais, de modo a manterem as proporcionalidades remuneratórias que atribuem às diferentes funções o que, como se compreende, gera um maior acréscimo de responsabilidades.

Para além destes aspectos e no que respeita especialmente ao turismo, a inexistência de uma legislação laboral que contemple as especificidades das diversas profissões turísticas e/ou que tenha em conta as necessidades (flutuações) operacionais das empresas em virtude dos “ciclos da actividade”, por um lado, e a diminuta qualificação profissional de uma grande parte dos trabalhadores, por outro lado, vem ainda dificultar mais (leia-se, criar mais custos salariais) a latitude de quem emprega em ter possibilidade de “pagar melhor”, pois a esse aumento de encargos na operação que decorre do cumprimento dos (desadequados) preceitos legais, há que somar os que resultam da formação a ministrar, mesmo quando ela é feita em contexto de trabalho.

No entanto, e voltando a frisar que 600 Euros continuam a ser um valor bastante exíguo para o SMN, acreditamos que em 2019 a generalidade das empresas, e particularmente as do turismo, vão ter um desafio acrescido em virtude dos continuados bons resultados que a actividade tem vindo a obter e, sobretudo, pelo incremento que o Governo se propõe implementar para a Função Pública ao nível da remuneração mínima mensal, que passará para 635 Euros.

Se nos abstrairmos dos valores, verificamos que esta foi uma forma hábil do Executivo manter a estratégia (eleitoralista) que já tinha consubstanciado no Orçamento de Estado para o ano que vem e, ao mesmo tempo, fazer com que o SMN acordado em sede de Concertação Social para o tecido empresarial privado, sofra uma grande pressão para ficar situado acima dos 600 Euros pois, como é usual, os aumentos praticados pelo Estado acabam sempre por servir como referencial “universal”.

Assim, será curioso acompanhar a evolução desta matéria e avaliar as repercussões que ela irá ter ao longo de 2019, nomeadamente no que se refere “à paz social” e aos custos salariais a suportar pelo sector privado.

 

O + da Semana:

Segundo dados divulgados pela AHP – Associação da Hotelaria de Portugal ao longo do próximo ano irão abrir portas 65 novos hotéis, maioritariamente de 4 e 5 estrelas, o que demonstra o “bom clima” que a actividade turística atravessa actualmente no nosso país o qual, naturalmente, reflecte-se em mais confiança que, por sua vez, se materializa em mais investimento. Ainda de acordo com aquela estrutura associativa, 23 das novas aberturas previstas para 2019 ocorrerão na área metropolitana de Lisboa e 17 na região Norte. É ainda digno de destaque o facto de grande parte das unidades a abrir em Lisboa e no Porto serem projectos que privilegiam a reabilitação urbana. É claro que a atracção de investimento para estas duas regiões não é alheia ao facto de ambas, a par da do Algarve, serem das que mais têm vindo a crescer em número de dormidas, despertando por isso o interesse dos investidores que, desse modo, antecipam um retorno mais rápido dos seus capitais. Vale a pena acrescentar que também contribuem para o total de aberturas em 2019 os Açores com 3 novos hotéis, a Madeira com 6, o Alentejo com 5, o Algarve com 4 e o Centro com 7 e que estes números não contemplam as 10 remodelações que estarão concluídas ou serão levadas a cabo no decurso do ano que vem.