iTurismo: Quem Cala Consente, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte tece comentários sobre duas propostas inscritas no programa eleitoral do PAN (Partido Pessoas – Animais – Natureza) relacionadas com o turismo, concretamente o aumento da taxa de IVA sobre o alojamento hoteleiro e a suspensão da construção do Aeroporto do Montijo apostando em Beja como alternativa. A aprovação da candidatura da Serra da Estrela a Geopark pela UNESCO, no Conselho de Geoparks Mundiais, é outro dos temas em  análise.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Proveitos do turismo inclusivo/acessível em franco crescimento: Num momento que Portugal acaba de receber da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) o prémio (atribuído pela primeira vez) de “Destino Turístico Acessível 2019” convém recordar que, de acordo com a grande maioria dos especialistas, o segmento de consumidores com alguma incapacidade está a ver aumentar de forma significativa a sua importância económica e, naturalmente, também turística. Para atestar esta afirmação basta ter presente que só na Europa existem 90 milhões de pessoas com este tipo de especificidade e que o total mundial de gastos turísticos efectuados anualmente por quem é portador(a) de deficiência já ascende a 17,3 mil milhões de dólares, valor que duplica – para 34,6 mil milhões de dólares – se tivermos em consideração o montante despendido por quem os acompanha. E mais, estes são valores que respeitam ao ano de 2015…

 

  • Bom wi-fi nos hotéis é crucial para quem queira apostar no segmento das viagens de negócios: Um recente inquérito realizado pela agência de viagens multinacional CWT – Carlson Wagonlit Travel junto de 660 turistas, originários de 9 países e que habitualmente viajam em negócios, apurou que 84% qualificam como sendo da maior importância o acesso e a qualidade da rede wi-fi dos hotéis onde ficam alojados. Complementarmente, o preço do quarto, a distância relativa ao local de trabalho ou de reunião e a qualidade do pequeno-almoço são os factores imediatamente mais valorizados. Para além destes aspectos, uma análise mais detalhada às respostas obtidas diz-nos ainda que os hotéis de gama média e alta são os que mais atraem esta tipologia de viajantes, com excepção dos australianos e indianos que optam, quase sempre, por unidades de luxo.

 

  • Inovar para evitar pagar excesso de bagagem nem sempre compensa: Pelo menos foi o que aconteceu a um turista escocês que no início de Julho viajou para o Sul de França (Nice) e, no momento do regresso, constatando que tinha efectuado “umas compras a mais” que lhe custariam o pagamento de excesso de bagagem, pensou que conseguiria contornar essa despesa vestindo 15 (!!!!) camadas de roupa antes de despachar a sua mala. Se bem o pensou, melhor o fez! O problema foi quando chegou ao controlo de segurança já que os guardas vendo-o com um ar tão pouco natural e muito suado, mandaram-no retirar grande parte da indumentária para se certificarem que não transportava qualquer objecto perigoso ou proibido, o que fez com que este turista acabasse por ter de levar ao colo, durante o voo de regresso a casa, muita da roupa que intencionalmente tinha vestido.

 

Comentário

 

Turisver.com – O Partido Pessoas – Animais – Natureza (PAN), surpreendeu ao colocar no seu programa eleitoral o aumento do IVA no alojamento hoteleiro para 13%, a fim de reforçar o orçamento da cultura. Por outro lado, pretende também “suspender a construção do aeroporto do Montijo, até que seja assegurada a elaboração da Avaliação Ambiental Estratégica” e “apostar no aeroporto de Beja como alternativa aeroportuária à solução Portela + Montijo”. Atentos aos possíveis impactos destas medidas no turismo, vários leitores solicitaram o seu comentário sobre as mesmas.  

 

Atilio Forte – Em anteriores análises e comentários que temos vindo a fazer onde, mais directa ou indirectamente, abordámos temáticas que envolvessem as próximas Eleições Legislativas de 6 de Outubro, de certo modo já tínhamos antecipado que, no que estaria relacionado com os Programas Eleitorais dos diferentes Partidos Políticos, não iriam aparecer grandes novidades no que respeita à actividade turística onde, como sempre, também incluímos o sector da aviação.

Assim, o âmago da nossa mensagem foi transmitir que as várias “forças” partidárias iriam tentar “cavalgar a onda” de bons resultados turísticos que o país tem vindo a alcançar e procurar que todas as suas propostas apontassem para a continuidade desse “estado de graça” do nosso turismo, mantendo a postura de “gestão diária e corrente” que se tem vindo a praticar e a revelar tão do agrado da generalidade dos diferentes agentes turísticos, sejam eles públicos, semipúblicos ou privados.

No fundo, esta atitude corporiza de alguma forma a velha máxima “em equipa que ganha não se mexe” e, portanto, o melhor é prosseguir sem grandes sobressaltos, rasgos ou disrupções, não olhando para as nuvens cinzentas (algumas bem carregadas) que se vislumbram no horizonte, porque ao não as (querer) avistar deixam de existir razões para antecipar qualquer tipo de preocupação.

Apesar de não nos identificarmos com esta atitude, entendemos que ela é legítima e merece que lhe seja dado o benefício da dúvida, pois tem provado pelo desempenho… por isto não se entendam as nossas palavras como uma crítica, mas antes como uma discordância ou, melhor, um outro entendimento dos caminhos que o turismo português deveria percorrer.

Propositadamente fizemos este enquadramento para referir que, no que se refere ao turismo, as propostas eleitorais mais emblemáticas do Partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN), nomeadamente as duas que estão contidas na questão que nos é colocada, de alguma forma traduzem a visão (crescente) que os Partidos Políticos têm da actividade turística, ou seja, que ela “anda por si”, mas é predatória dos recursos públicos e que, por isso, deve ser penalizada e encarada como uma fonte adicional de receita para o Estado (Central, Regional e Local).

Basta olharmos para a evolução das denominadas “taxas turísticas” para percebermos que o turismo acabou (também) por ser vítima do seu próprio sucesso, originando o aparecimento de um discurso populista que agita a bandeira da turismofobia, o qual o aponta como a (quase) única causa de um sem número de problemas quotidianos – desde os da habitação, à sujidade das ruas, passando pela lotação dos transportes públicos, para só darmos alguns exemplos –, branqueando as incapacidades de gestão e de governação dos políticos que, assim, viram na turistificação a “espada” ideal para brandir em autodefesa.

Os benefícios económicos e sociais, a criação de emprego, riqueza e prosperidade, a recuperação e requalificação urbana e habitacional, a preservação monumental, cultural e ambiental, a atenuação das assimetrias entre o interior e o litoral e mais um sem número de vantagens e benefícios resultantes do desenvolvimento do turismo, rapidamente passaram a ser convenientemente desvalorizados, omitidos ou escamoteados, por não serem convenientes, quanto mais não seja porque os turistas não votam.

Por esta ordem de razões não podemos dizer que ficámos propriamente surpreendidos com a “lógica” apresentada pelo PAN que, em nosso entendimento foi, porventura, mais franco e corajoso que outros…

Contudo, se não existiu surpresa, certamente houve (e há!) uma grande estranheza relativamente ao teor destas propostas e, mais grave, ao desconhecimento – a roçar o absurdo – que o PAN revela sobre a actividade turística, pois num momento como o presente passar o IVA aplicado à hotelaria da taxa reduzida, onde desde sempre se situou (6% no continente), para a taxa intermédia (13% no continente), com o propósito de aumentar o orçamento da cultura, é não fazer a mais pequena ideia do que é a concorrência internacional pelos fluxos turísticos – e não estamos apenas a falar de admitir uma pequena quebra por esse agravamento como o próprio Partido proponente avançou –, de qual a fiscalidade aplicada ao turismo quer nos países do Sul da Europa, mormente os que integram a União Europeia, quer nos demais da Bacia Mediterrânica, nem sequer dos reflexos que a medida teria na nossa oferta, uma vez que a subida de preços que tal provocaria ainda exporia mais as fragilidades que começam a acentuar-se na relação custo/qualidade/benefício que oferecemos. E nem sequer referimos os efeitos perversos que uma decisão desta natureza implicaria na capacidade competitiva das empresas e, consequentemente, nos seus resultados económicos e no volume de emprego.

Para além disso demonstram que aquele Partido Político não estará a par do que o turismo já contribui das mais diversas formas para a cultura, concretamente através dos 2,5% do total do IEJ – Imposto Especial de Jogo arrecadado pelo Estado junto das empresas concessionárias de zonas de jogo (vulgo, Casinos) que vão directamente para os cofres do Fundo de Fomento Cultural, e que constituem o exemplo mais emblemático dos vários tipos de “financiamento pecuniário” que, neste capítulo, são suportados pela actividade turística.

Já quanto à utilização do aeroporto de Beja como alternativa ao Montijo, embora não seja propriamente uma ideia inovadora – recordamo-nos que aquando da construção e inauguração daquela infra-estrutura (2009, curiosamente ano da fundação do PAN) muitos responsáveis políticos de então defenderam publicamente a mesma solução –, ela é, em nossa opinião, desprovida de fundamento pois, por um lado, manifesta um total desconhecimento das possibilidades técnicas, operacionais e de equipamentos que ali estão instaladas ou que o podem vir a ser e, por outro lado, esquece que aquela cidade do Baixo Alentejo não tem qualquer capacidade intermodal, particularmente acessibilidades rodoferroviárias que a liguem ao resto do país que, mesmo a serem feitas e partindo do princípio que os consumidores aceitariam fazer “uma viagem” de algumas horas “antes da viagem”, originariam um aumento do fluxo automóvel, facto que iria colidir com as demais medidas de política defendidas pelo PAN – nomeadamente as de descarbonização da economia – que acaba, deste modo, por se contradizer.

Ora sabendo-se que o resultado obtido nas últimas Eleições Europeias (Maio deste ano) deixa antever sérias possibilidades do Partido Pessoas-Animais-Natureza vir a alargar a sua representação parlamentar na próxima Legislatura e, portanto, ficar em posição de a todo o momento poder colocar em “cima da mesa negocial” qualquer um dos compromissos com que se apresentou ao eleitorado, o silêncio total (quase ensurdecedor!) com que estas propostas foram recebidas por parte dos diversos agentes turísticos deixa-nos apreensivos e, porque não dizê-lo, algo estupefactos.

Temos para nós que é fundamental que alguém explique ao PAN o que é o turismo, quais as suas valências, virtudes e defeitos (que também os tem); a sua transversalidade e pluridisciplinaridade com outras áreas da nossa vida política, económica, social, cultural e religiosa; as dezenas de milhares de postos de trabalho que foram criados fruto da baixa do denominado “IVA da restauração” (de 23% para 13%); a importância e os contributos inestimáveis que pode dar para temas que a todos nos são tão caros e imprescindíveis para o desenvolvimento sustentável – presente e futuro – do próprio país, como o ambiente, a qualidade de vida, a educação, a inclusão e a igualdade; e, caso não seja pedir muito, aproveitar o período de campanha eleitoral para proporcionar uma oportunidade pública e clarificadora de debate entre aquele Partido Político e os actores turísticos.

É que hoje, tal como no passado, muitas destas ideias podem até não vingar, mas se não forem esclarecidas e desmontadas logo à nascença podem vir a germinar e, num momento de desatenção ou maior fraqueza da actividade – voltamos a dar o exemplo do sucedido com as taxas turísticas, mas muitos outros existem – serem implementadas, independentemente das consequências que tragam para o país, em geral, e para o turismo, em particular. E, finalmente, mas não menos importante porque, como bem diz o povo na sua infinita sabedoria, quem cala consente!

 

Turisver.com – A Serra da Estrela viu aprovada a sua candidatura a Geopark pela UNESCO, no Conselho de Geoparks Mundiais, decorrido recentemente em Gili, na Indonésia. Na sua opinião esta distinção é um reconhecimento do turismo no interior do país também em termos ambientais?

 

Atilio Forte – Em primeiro lugar é da mais inteira justiça que aqui registemos uma palavra de apreço dirigida a todos quantos estiveram envolvidos e contribuíram para esta candidatura ao longo dos últimos quatro anos e, simultaneamente, lhes enderecemos as nossas felicitações por terem conseguido que a Serra da Estrela possa vir a tornar-se no quinto Geopark (marca gerida pela UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) de Portugal – para além de Terras de Cavaleiros, Naturtejo, Arouca e Açores – caso o Conselho Executivo da UNESCO ratifique o parecer favorável obtido do Conselho de Geoparks Mundiais, como tudo indica que o venha a fazer.

Para que se tenha total noção da dimensão geográfica da zona abrangida, vale a pena referir que ela inclui todo o Parque Natural da Serra da Estrela, compreendendo nove municípios de três distritos (Guarda, Castelo Branco e Coimbra) e englobando cerca de 170.000 habitantes.

Num momento em que o turismo de natureza, ecológico e ambiental regista os mais elevados índices de preferência junto dos consumidores e, consequentemente, de procura, os quais são indissociáveis da autenticidade, da genuinidade e da sustentabilidade que a oferta turística actual deve possuir obrigatoriamente, é muito importante constatar que o nosso país tem demonstrado capacidade em se afirmar internacionalmente neste domínio.

Situação que ganha ainda maior fôlego quando acontece no interior, pois todos sabemos bem que para a sua vivificação é imperioso que sejam introduzidos factores de dinamização das economias locais que, sobretudo e como acontece com o caso do turismo, consigam gerar e induzir elevados efeitos multiplicadores nas demais áreas, pois só desta forma se consegue valorizar e promover o território, os seus produtos endógenos, o seu património natural e cultural e, escusado é dizer, fixar as populações.

A tudo o que acabámos de referir, deve ainda acrescer-se que a qualificação como “Geopark” e a consequente integração nessa rede mundial da UNESCO tem potenciado um aumento de cerca de 60% na capacidade de atracção de turistas para as áreas que passam a estar classificadas no âmbito daquela marca.

Para concluir resta também sublinhar que, pela sua localização ser no Centro de Portugal, tal significará uma mais-valia adicional para a região e um “novo” motivo para a visitar e explorar turisticamente.

 

O + da Semana:

O mais recente relatório do World Economic Forum, intitulado “The Travel & Tourism Competitiveness Report 2019”, é portador de excelentes notícias para Portugal, conforme já foi amplamente noticiado mas que, ainda assim, julgamos justificar e merecer plenamente o destaque desta semana, uma vez que classifica o nosso país como sendo o 12º mais competitivo do Mundo no que à actividade turística respeita. Deve referir-se que este estudo analisa 140 países segundo um vasto conjunto de indicadores relacionados com os factores e as políticas que permitem o desenvolvimento sustentável do turismo e na forma como o mesmo acaba por repercutir-se na prosperidade e na competitividade de cada Estado. No lugar mais cimeiro desta hierarquia mantém-se a Espanha (pelo terceiro ano consecutivo), seguida da França e da Alemanha. Deve também sublinhar-se que atingimos a liderança na categoria da qualidade das infra-estruturas directamente ligadas ao produto e ao serviço turístico – que inclui todas as instalações e serviços necessários para o (bom) acolhimento aos turistas (alojamento, restauração, museus, atracções turísticas, informações, etc.) e exclui as acessibilidades (aeroportos, portos e redes rodo e ferroviárias) –, o que atesta bem e merecidamente premeia o excelente trabalho que tem vindo a ser feito, sobretudo pelos nossos empresários e profissionais de turismo.