iTurismo: Reacção em Cadeia(s), por Atilio Forte

Os indicadores positivos que Portugal tem conseguido na área do turismo, e que têm levado a que investidores estrangeiros mostrem interesse em que as suas marcas estejam presentes no nosso País, bem como a estreia da BTL Cultural na BTL 2019, e oportunidade de o turismo cultural poder afirmar-se de forma decisiva em Portugal, são temas comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Restaurante do Texas inspira-se na cozinha portuguesa e goesa: Sensivelmente daqui a três meses, a zona leste da cidade de Austin (Estado do Texas) verá o “boutique” hotel Arrive East Austin abrir portas. Até aqui nada de novo. Só que o principal restaurante daquela unidade, denominado “Vixen’s Wedding”, irá oferecer uma ementa de inspiração portuguesa e goesa, levando até esta região americana uma amostra dos “sabores” de Portugal.

 

  • Paralisação do Governo americano afectou o turismo da capital: As empresas turísticas que exercem actividade em Washington foram extremamente afectadas pela recente paralisação recorde do Governo dos Estados Unidos da América (EUA), já que sofreram tanto pelos cancelamentos ou adiamentos dos múltiplos eventos habitualmente organizados pelos vários departamentos governamentais, como por um incontável número de idênticas situações verificadas com quem aí tinha previsto deslocar-se para tratar de assuntos ou negócios com organismos federais.

 

  • Hotel japonês “despede” robôs: Localizado em Nagasaki, o hotel Henn-na decidiu pôr fim à utilização dos mais de 100 robôs que possuía e que tinham por função substituir trabalhadores humanos. As duas grandes ordens de razões que estiveram na base desta “radical” decisão foram, por um lado, o facto da maior parte destes equipamentos ter começado a fazer mais trabalho para os demais empregados do que para os hóspedes e, por outro lado, por terem um custo de substituição muito elevado.

 

Comentário: 

 

Turisver – Os indicadores extremamente positivos que Portugal tem conseguido nos últimos anos, na área do turismo, têm levado a que investidores estrangeiros mostrem interesse em que as suas marcas estejam presentes no nosso País, em especial na hotelaria. No seu entender, esta é uma tendência da qual poderemos vir a colher frutos no futuro?

 

Atilio Forte – Importa começar a resposta a esta pergunta recordando que a nossa evolução enquanto destino turístico de dimensão mundial está intimamente ligada ao investimento das grandes cadeias hoteleiras internacionais e, consequentemente, à presença crescente que têm vindo a estabelecer em território nacional, a qual teve o seu início há décadas nas principais regiões turísticas portuguesas – Algarve, Lisboa e Madeira – mas que, paulatinamente, tem vindo a alargar-se às demais.

Contudo, não se pense que com esta afirmação/constatação estamos de alguma forma a desvalorizar o esforço e o arrojo levados a cabo pelos empresários portugueses. Nada mais errado. Sem eles, sem a sua coragem, sem os seus capitais, sem a sua determinação, sem a sua visão, jamais Portugal teria almejado alcançar o elevadíssimo patamar de desenvolvimento turístico em que actualmente se encontra. Eles foram – e serão sempre – os pioneiros! E o seu sucesso foi – e é! – uma das grandes razões pela qual muitas marcas de projecção planetária decidiram “olhar” para o nosso país e optaram por aqui marcar presença.

Paralelamente, também é justo que se refira que, sobretudo a partir da década de ’80 do século passado, os sucessivos Governos sempre procuraram “acarinhar” o investimento estrangeiro, particularmente o “mais pesado”, como é o caso da hotelaria, independentemente da prioridade política – ou falta dela – que davam ao turismo.

Se a estes dois aspectos adicionarmos as nossas ímpares belezas naturais, a renomada hospitalidade do(as) portugueses(as), o património histórico, cultural e monumental de que dispomos, a excelência da nossa gastronomia e do nosso clima, a gradual melhoria das acessibilidades (nomeadamente aéreas) e mais um sem número de valências que possuímos e que nos dispensamos de aqui elencar, facilmente constatamos os motivos que nos tornaram um destino de grande potencial turístico onde valia (vale) a pena investir.

Escusado será dizer que a “onda de bons resultados turísticos” alcançados nos últimos anos, mesmo sabendo que, parcialmente, tiveram por trás uma conjuntura internacional favorável, e o facto de Portugal ter passado a estar “na moda”, ainda mais impulsionou este estado de coisas ou, se se quiser, esta necessidade em marcar presença num dos “destinos do momento”.

E isso foi e é algo excelente, que devemos prezar e estimular. Como tantas vezes dizemos o turismo é, porventura, a mais simbiótica das actividades económicas que existem, onde todos dependem de todos, dos maiores aos mais pequenos, dos mais especializados aos mais generalistas.

De entre as inúmeras vantagens de termos entre nós uma cada vez maior presença das grandes cadeias hoteleiras internacionais, merecem ser destacadas as seguintes:

Desde logo a captação do investimento em si mesmo. Se houve e há algo que a nossa economia sempre padeceu (e padece) foi de quem quisesse investir no país e, mais importante, de forma continuada.

Acontece que, por exemplo, quando alguém estrangeiro investe na construção ou aquisição de uma unidade hoteleira, essa atitude tem variadíssimas repercussões, já que: significa que quer estabelecer um compromisso a longo prazo com o país, dado que, como se sabe, por um lado, o período de amortização dos investimentos no turismo, nomeadamente na hotelaria, só tem retorno em sensivelmente o dobro do tempo dos efectuados em qualquer outra área de actividade económica e, por outro lado, porque tem consciência que a oferta turística, isto é os activos que a compõem, não são deslocalizáveis; tratando-se de investimentos de capital intensivo, ou seja, que exigem um constante esforço financeiro para manter, melhorar, inovar, remodelar, actualizar, promover, etc., indiciam claramente que quem investe está disponível para estabelecer parcerias com empresas locais, seja para construir o hotel, seja para a sua manutenção, seja ainda para a sua operação diária o que, directa ou indirectamente, acaba por criar valor noutros sectores da economia nacional.

Depois, porque sendo o turismo uma actividade económica de grande volume de mão-de-obra – a hotelaria é disso exemplo –,tal enfatiza a crença do investidor nos trabalhadores nacionais, predispondo-se tanto a criar emprego, como a apostar incessantemente na formação e qualificação de quem contrata, para assim poder garantir níveis e qualidade de serviço idênticos aos que pratica nas demais paragens onde marca presença, situação que também contribui, de um modo geral, para elevar os índices de capacitação profissional dos nossos recursos humanos, de acordo com as melhores práticas e valências internacionais.

Em terceiro lugar, porque as grandes cadeias internacionais trazem consigo uma visão holística “do mundo turístico”, da evolução, tendências e comportamento dos consumidores, dos factores de inovação e desenvolvimento que influenciam um melhor desempenho das unidades e atraem mais hóspedes, de processos de gestão e operação testados e postos à prova nos mais diversos mercados e junto de diferentes públicos, enfim, uma vastíssima paleta de “conhecimentos” e “saberes” com a qual não só muito se pode aprender, mas que também contribui para que se estabeleça um padrão de permanente superação por parte das empresas nacionais, facto que influencia e aumenta a sua competitividade e a excelência dos serviços por elas prestados.

Finalmente, e para não sermos exaustivos, porque tal permite que a unidade “cá” detida ou gerida entre na “máquina promocional e de marketing” da respectiva cadeia, já que a mesma necessita de hóspedes (ocupação) o que, inevitavelmente, faz com que o país seja beneficiado, atendendo que o seu “nome”, bem como o da região onde a mesma está localizada, chegam ou chegarão ao mercado global (leia-se consumidores) como um todo, dado que hoje-em-dia não basta promover e enaltecer as características dos hotéis, sendo obrigatório complementar a divulgação dos mesmo sem conjugação com a demais oferta turística (local, regional e nacional).

Isto para nem sequer referirmos a segmentação que muitas grandes cadeias fazem através de marcas direccionadas para determinados perfis de consumidores ou especializadas em determinado tipo de produto/oferta o que se, considerarmos a enorme diversidade turística que temos num território relativamente exíguo, acaba por “puxar” globalmente pelo destino.

Para além do que já referimos, não podemos esquecer-nos que nos últimos anos este tem sido um dos sectores que tem proporcionado alguns dos maiores negócios do Planeta no que respeita a fusões e aquisições, fruto das quais tudo isto ganha maior relevância e uma importância acrescida, a que devemos estar (bem) atentos.

Dito isto, quantas mais cadeias internacionais estiverem a operar no nosso país, maior será o efeito multiplicador que retiraremos destas e de muitas outras vantagens que aqui não enunciámos.

Em jeito de conclusão, e como cremos ter demonstrado, podemos afirmar que a presença em Portugal dos grandes nomes da hotelaria internacional, a par das empresas portuguesas, é uma autêntica “reacção em cadeia” de boas notícias para o nosso turismo, para a nossa economia e para o nosso país. Assim continuem elas a sentir-se atraídas e a quererem e terem condições para investir em Portugal…

 

Turisver – Um dos grandes destaques da próxima edição da Bolsa de Turismo de Lisboa, que se vai realizar em Março, é a BTL Cultural. Na sua opinião, este enfoque num produto como a cultura é uma oportunidade para que o turismo cultural se possa afirmar de forma decisiva?

 

Atilio Forte – Num momento em que a actividade turística é marcada pela busca do único, do diferente e do exclusivo e, em simultâneo, pela vontade dos turistas interagirem com as comunidades locais, a cultura é um poderoso elo de ligação – e de atractividade – que pode adicionar propostas de altíssimo valor acrescentado à nossa oferta, por um lado, e que potencia uma melhor compreensão e o estreitar da cooperação entre os diversos agentes turísticos e culturais por outro lado, com ganhos notórios tanto para uns, quanto para outros mas, acima de tudo, para o país.

A esta constatação acresce o facto dos vários activos e iniciativas da área da cultura terem capacidade para “alimentar” o turismo com conteúdos essenciais para a prossecução de todos estes objectivos e, em troca, receberem a exposição e a divulgação de que carecem, na esmagadora maioria dos casos.

Por estes motivos, somos de opinião que a BTL Cultural deverá ser encarada quer como um espaço de aprendizagem recíproca entre as duas comunidades (do turismo e da cultura), de troca de conhecimentos e de informação, quer como uma oportunidade para estabelecer uma estratégia de “vasos comunicantes” entre estas áreas, que permita um melhor aproveitamento das valências que cada uma tem para oferecer à outra, quer ainda como instrumento de divulgação e promoção turística e cultural, de modo a que ambas consigam – pela conjugação de esforços – atrair e captar novos públicos, tanto no mercado interno, como nos externos.

Assim, mais do que um momento de afirmação do denominado “Turismo Cultural” – que também o será, sem qualquer dúvida –, esta nova iniciativa da BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa ao reunir, numa das principais manifestações turísticas que anualmente se realizam em Portugal e num espaço próprio para o efeito, 16 das mais importantes instituições culturais que marcam presença no nosso país, possibilitando-lhes um contacto privilegiado com os diferentes agentes do turismo nacional e internacional que participarão no certame e criando uma agenda especial que enfatize a troca de impressões e a divulgação do muito que Portugal tem para oferecer em matéria cultural, será certamente um evento marcante que poderá rasgar novos horizontes e abrir outras possibilidades num futuro próximo, seja para a BTL, seja para o turismo nacional.

Em suma, estamos perante uma iniciativa em que todos os intervenientes ganham e, por essa razão, somos de opinião que ela merece ser saudada e (bem) aproveitada, por ambas as partes.

 

O + da Semana:

 

Nestes comentários recorrentemente procuramos enfatizar a importância crescente que as temáticas ligadas à denominada “economia verde” vêm conquistando, não apenas enquanto introdução de práticas económicas que visem reduzir os riscos ambientais, a escassez ecológica e o desenvolvimento sustentável sem agressão ao meio-ambiente mas, também, como factor (cada vez mais) crítico e, por isso, com maior preponderância e influência, na escolha dos consumidores. Esta é a razão que originou que nesta semana aqui destaquemos a recente decisão dos Paradores Nacionales de Turismo – cadeia hoteleira espanhola de alta qualidade detida e gerida pelo Estado – em apostarem exclusivamente em fontes de energia “verde” e, desse modo, assumirem-se como um exemplo para o restante tecido empresarial, nomeadamente no sector do alojamento. Para tal vão proceder à instalação de painéis solares e à utilização de biomassa (matéria orgânica de origem vegetal ou animal, usada na produção de energia) em todas as suas unidades, com o ambicioso objectivo desta ser a sua única fonte energética, a médio prazo. Claro está que o facto de dois terços do total de turistas registado em 2018 afirmar que prefere alojar-se em unidades “amigas do ambiente” é um argumento que, seguramente, influenciou e “pesou” nesta opção, a qual, esperemos, possa encontrar o pretendido eco nos demais agentes da actividade turística.