iTurismo: Recuperar o Tempo Perdido, por Atilio Forte

A relativa “tranquilidade” do movimento associativo em ano de Eleições Legislativas é o principal tema abordado no iTurismo de hoje, com Atilio Forte a defender que “até meados de Julho” as entidades associativas deverão apresentar as suas propostas no sentido de Portugal manter o caminho do progresso turístico e, assim, “(re)colocar o turismo no centro do debate político”. Em análise está também o anúncio da construção de um oleoduto para abastecimento do Aeroporto de Lisboa.

 

Tópicos da Semana:

     

    O turismo está pronto para a revolução tecnológica: Pelo menos é esta a ideia que os líderes dos principais conglomerados turísticos mundiais pretendem passar. Embora reconheçam que a actividade ainda não está a tirar todo o proveito possível da tecnologia existente, defendem que as megafusões que têm ocorrido, a par da disrupção provocada pelas grandes plataformas digitais de congregação e distribuição da oferta, estão a “forçar” a inovação. Tal significará que nos tempos mais próximos assistiremos: a mais discussão sobre a personalização e a unificação dos sistemas; à generalização dos comandos por voz; à introdução de tecnologia 3D e realidade aumentada nos processos de reserva; e, claro está, a um ilimitado acesso aos produtos e serviços turísticos, através de dispositivos móveis.

 

    Mónaco atento ao desenvolvimento do turismo “verde” de luxo: Os empresários turísticos do “Principado” estão empenhados em aproveitar a crescente atenção que os consumidores dão aos destinos sustentáveis, transformando esta tendência em novas oportunidades de negócio através de uma cirúrgica optimização da sua oferta, com o objectivo de melhorarem a pegada ecológica de Monte Carlo. De entre as medidas adoptadas destacam-se: a primazia na utilização de produtos locais na confecção de refeições; o privilegiar das energias renováveis; uma maior atenção aos desperdícios e ao tratamento dos resíduos; a erradicação das palhinhas de plástico; e, uma maior oferta de automóveis eléctricos ou híbridos para os turistas que participam nos inúmeros eventos de caridade que ali (constantemente) ocorrem.

 

    Chile propõe-se eclipsar a concorrência… durante o eclipse: Como é sabido, a faculdade de presenciar alguns fenómenos naturais em condições ideais tem vindo a conquistar um crescente número de adeptos. Certamente por isso, a comunidade turística chilena está a apostar forte na captação de turistas que pretendam assistir ao eclipse solar total do próximo dia 2 de Julho, propondo um vasto leque de ofertas, tanto para antes como para depois da Lua tapar o Sol, sem esquecer de relembrar as excelentes condições de escuridão/visibilidade que o país possibilita.

 

Comentário

 

Turisver.com – Num ano que não promete grandes alterações face ao anterior e em que parece não acontecer nada de muito importante na actividade turística, o movimento associativo tem estado também relativamente tranquilo, principalmente tendo em conta que estamos à beira de Eleições Legislativas. Na sua perspectiva, esta situação parece-lhe normal ou, pelo contrário, estamos a desperdiçar um tempo que deveria ser bem aproveitado para marcar posições?

 

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta propriamente dita à questão que nos é colocada consideramos ser da maior importância aqui fazermos uma declaração de interesses e registarmos algumas notas prévias, tanto no que respeita ao associativismo empresarial em geral, como ao do turismo em particular.

Começando pela declaração de interesses, impõe-se que mencionemos que durante uma parte do nosso percurso profissional estivemos profundamente envolvidos no movimento associativo e, certamente por isso, somos dos que nele vêem mais vantagens do que inconvenientes, para além de continuarmos a ser seus acérrimos defensores. Todavia, e como sempre nos esforçamos por fazer, procuraremos que este aspecto não influencie a nossa análise para que a mesma se mantenha o mais isenta e objectiva possível.

Quanto às notas prévias, convirá desde logo sublinhar que, no nosso entendimento, o associativismo empresarial é uma das mais nobres formas de manifestação da denominada “Sociedade Civil” pois tem como principal missão congregar a visão, os anseios, as vontades, os constrangimentos e, desejavelmente, as propostas e as soluções preconizadas por um determinado sector ou área de actividade económica, dando-lhes sistematização, coerência e expressão através da busca de mínimos ou máximos denominadores comuns, apresentando-as posteriormente e de forma coerente quer à opinião pública, quer ao Estado (Central, Regional e Local), quer ainda a entidades terceiras, dando cumprimento à capacidade representativa de que se encontra investido e para a qual (quase sempre) está devidamente mandatado.

Depois, deve também mencionar-se que este tipo de movimento associativo (empresarial) tem a árdua tarefa de buscar incessantemente a consensualização das posições de actores de várias dimensões e diferentes bases de implantação geográfica que por vezes não coincidem (nalguns casos chegam a conflituar!) e, simultaneamente, a responsabilidade de avançar com as mais correctas sugestões e medidas que sirvam os interesses das suas associadas, uma vez que, melhor do que ninguém, tem a obrigação de conhecer e identificar os problemas, os desafios e/ou os caminhos futuros do sector ou da actividade que representa.

E não podíamos terminar este breve enquadramento sem referir que a dinâmica em torno das estruturas associativas e, consequentemente, a capacidade destas se assumirem enquanto interlocutores privilegiados é, de um modo geral, inversamente proporcional ao desempenho económico por que passa o respectivo sector ou actividade, ou seja, em tempos de bonança a tendência é para haver um afastamento (para não dizer desinteresse) por parte das associadas e, ao invés, em momentos de ameaça ou de contracção económica o normal é que exista um “cerrar fileiras” e uma maior unidade em torno das mesmas.

Ora, apesar da actividade económica do turismo ter, como tantas e tantas vezes aqui o temos sublinhado, especificidades próprias e características que a distinguem das demais, o estado do seu movimento associativo não difere muito deste quadro mais genérico que acabámos de traçar, quanto mais não seja porque temos vindo a atravessar anos de franco crescimento turístico e, também por este motivo, muitos dos problemas, das preocupações e da preparação do futuro acabam ofuscados e relegados para segundo plano, atentos os bons resultados obtidos no presente.

Não espanta assim que, tal como é mencionado na pergunta, as estruturas associativas representativas do turismo nacional atravessem um momento de maior tranquilidade, sem apresentarem grandes rasgos, causas, “cadernos de encargos” ou propostas, pois estão parcialmente quartadas da sua grande fonte de energia vital, isto é, a pouca participação e um menor grau de exigência daqueles que são o fundamento da sua existência: os associados.

A isto acresce uma gestão positiva do dia-a-dia que tem vindo a ser feita pelo Estado, sobretudo pelo Governo, caucionada pela expansão que a actividade vem demonstrando e pela implementação de uma agenda sólida, embora sempre “com a costa à vista” e, por essa razão, sem grandes “aventuras”, sem estimular debates profundos ou a apresentação de propostas estruturantes, nem enveredar por temas que possam originar controvérsia ou, quando a mesma existe, fazendo de conta que nada se passa.

A construção do novo aeroporto (complementar) de Lisboa, o assumir que a aviação é parte integrante e peça fundamental da actividade turística, a exigência de reformulação do sistema educativo e formativo, tanto ao nível da escolaridade obrigatória, como do ensino técnico-profissional e superior para responderem às necessidades de mão-de-obra qualificada do turismo (presentes e futuras), a falta de competitividade fiscal de alguns sectores turísticos, particularmente o golfe e a atracção de grandes eventos de dimensão global, o lançamento dos concursos públicos internacionais respeitantes às concessões das zonas de jogo (que são a grande fonte de financiamento da actividade através das acções desenvolvidas pelo Turismo de Portugal), a sustentabilidade do destino, principalmente a ecológica e ambiental, ou a revisão do actual modelo de promoção turística externa são, entre muitos, exemplos paradigmáticos do actual estado de coisas e da ausência de uma visão prospectiva para o turismo português.

Em face desta situação é natural, embora não totalmente compreensível, que as associações empresariais demonstrem alguma inércia pois, por um lado, não têm a garantia de poderem contar com “as suas tropas” e, por outro lado, receiam poder ficar malvistas aos olhos da opinião pública, que tem no seu subconsciente a ideia de que tudo vai bem no turismo nacional.

Perante isto é legítimo que se pergunte: então o que fazer? Como deixar de estar prisioneiro nesta teia? Ou como tapar os ouvidos a estes “inebriantes cantos da(s) sereia(s)”?

Em nossa opinião, e já que algures no tempo a iniciativa de marcação da agenda turística do país por parte do movimento associativo foi perdida, há que, com inteligência, saber aproveitar as (poucas) oportunidades que vão aparecendo, para tomar posição, para alertar que o futuro é mais do que apenas o “dia de amanhã”, que o turismo português para prosseguir na senda do sucesso não só tem de vencer novos desafios, como é fundamental que esteja no centro das prioridades políticas de qualquer Governo que queira estimular a criação de riqueza, emprego, coesão territorial e, em geral, bem-estar para os cidadãos, no e do país.

Seguindo esta linha de raciocínio, parece-nos que melhor ensejo do que as Eleições Legislativas de Outubro próximo não poderá existir. Assim sendo, afigura-se-nos da maior urgência que, até meados de Julho – depois já será tarde, porque às férias segue-se a campanha eleitoral –, o movimento associativo empresarial do turismo (leia-se as entidades/empresas que dele fazem parte integrando as respectivas estruturas associativas) ponha “em cima da mesa” as suas ideias e sugestões, diga o que em sua opinião deverá ser feito para que Portugal se mantenha na senda do progresso turístico e qual a sua visão para que se faça do turismo uma verdadeira prioridade nacional.

E tal não tem de corresponder a qualquer crítica. Muito menos em ir contra seja quem for. Antes pelo contrário. Significa dizer-se pela positiva o que se quer. Significa explicar-se à opinião pública, com total clareza e transparência, o que se propõe e porque é que se o faz. Significa assumir-se total independência e equidistância. Significa que a única ideologia presente é (tem de ser! só pode ser!) a defesa do turismo, respaldada e alicerçada em quem, melhor do que ninguém, conhece a actividade, os seus constrangimentos, desafios e oportunidades, colocando todos os Partidos Políticos perante propostas sólidas e a necessidade de assumirem compromissos públicos sobre o que se propõem fazer caso venham a ter representantes eleitos no “novo” Parlamento ou a formar Governo. Em suma, significa (re)colocar o turismo no centro do debate político e assim recuperar o tempo perdido.

 

Turisver.com – O iTurismo já tinha alertado para o problema do abastecimento do Aeroporto de Lisboa. Na passada semana, o Ministério do Ambiente e da Transição Energética anunciou que vai avançar com a construção de um oleoduto para facilitar a chegada de combustível àquela infra-estrutura aeroportuária. Embora a obra apenas deva estar concluída no final do primeiro semestre de 2021, esta é uma boa notícia?

 

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que o anúncio do abastecimento de combustível ao Aeroporto Humberto Delgado poder vir a ser feito através de um oleoduto é uma excelente notícia, não apenas para a actividade turística, mas também para o país, já que reforça a segurança e a defesa nacionais e garante a retirada diária das estradas de muitos camiões cisterna de transporte de matérias perigosas que actualmente fazem o percurso entre Aveiras de Cima – onde fica localizado o Parque da CLC – Companhia Logística de Combustíveis, S. A. – e aquele equipamento, conforme aqui havíamos alertado há cerca de um mês (cf., https://www.turisver.com/iturismo-sobressalto-turistico-por-atilio-forte/ ).

De acordo com a informação prestada à Assembleia da República pelo Governo, a ideia é aproveitar, até à rotunda de Moscavide (Lisboa), a conduta do Alviela da EPAL – Empresa Pública das Águas Livres, S. A. que já se encontra em processo de desactivação (espera-se a conclusão dos trabalhos até finais de 2020) e que passa paredes meias com o referido Parque da CLC, de modo a assegurar que de 2021 em diante o aeroporto de Lisboa volte a ser abastecido de forma directa.

Não obstante, devemos salientar que (apenas) estamos perante um anúncio que mais não demonstra do que uma intenção, uma vez que terão de ocorrer negociações entre a EPAL, a CLC e a ANA – Aeroportos de Portugal. E basta atentarmos no que se tem passado com a questão da construção do novo aeroporto (complementar) de Lisboa para refrearmos os nossos ânimos e sermos prudentes na análise, mais a mais porque se o futuro oleoduto for considerado um meio de distribuição de combustível e não do seu transporte, tal obrigará à realização de um concurso público internacional.

Portanto, resta-nos aguardar por um rápido desenrolar do processo, mantendo a esperança que, pelo menos a médio prazo, idêntica solução seja encontrada para a segunda maior infra-estrutura aeroportuária do país (Faro) pois, como se sabe, o Aeroporto Francisco Sá Carneiro (Porto) já é abastecido por essa via (oleoduto).

 

O + da Semana:

 

A KLM – Royal Dutch Airlines, a SKYNRG que é a maior empresa de produção de combustível aeronáutico sustentável (SAF – Sustainable Aeronautical Fuel) e a SHV Energy que, por sua vez, é a maior empresa de distribuição de GPL – Gás de Petróleo Liquefeito, anunciaram a construção da primeira fábrica a nível mundial de produção deste tipo de carburante mais amigo do ambiente e direccionado exclusivamente para a aviação (SAF), que ficará localizada perto da cidade holandesa de Delfzijl, sendo que também elaborarão bio GPL e nafta. Esta unidade fabril, com inauguração prevista para 2022, terá como fonte energética o hidrogénio sustentável, produzido a partir de água e energia eólica, e o novo tipo de combustível será feito com recurso à utilização de desperdícios e ao reaproveitamento de resíduos como, por exemplo, óleo alimentar usado (de cozinha). De acordo com os promotores deste projecto, que naturalmente se saúda, estima-se que as emissões de dióxido de carbono resultantes do uso deste carburante, se comparadas com as actuais – que têm origem fóssil –, podem ser reduzidas em valores superiores a 85%. Por forma a assegurar o sucesso do investimento, a companhia aérea holandesa já se comprometeu em adquirir, em cada um dos anos da primeira década de produção, 75.000 das 100.000 toneladas anuais de combustível de aviação sustentável que ali serão fabricadas e, fruto dessa acção, tem a expectativa de vir a tornar-se líder do sector (aviação) no que respeita às emissões poluentes.