iTurismo: Sazonalidade Não É Uma Fatalidade!, por Atilio Forte

A sazonalidade turística é o tema principal do iTurismo de hoje, com Atilio Forte a sublinhar que no que toca a este tema “ainda temos muito trabalho pela frente” e que ele “tem de ser feito por todos”, e a defender que “sazonalidade não é uma fatalidade”. Outro dos temas abordados no habitual comentário tem a ver com a necessária adaptação da oferta turística às “crianças-turistas”.

 

Tópicos da Semana:

  • Se chover, não paga: Na Ilha de Elba (Itália) os diversos agentes turísticos em colaboração com as autoridades de turismo locais decidiram levar a cabo uma agressiva campanha de marketing tendo em vista contrariar as previsões meteorológicas, uma vez que, quando as mesmas indicam que os fins-de-semana serão chuvosos, tal repercute-se numa quebra de 20% nas reservas para aquele destino. Assim, doravante é garantido aos turistas que se chover muito durante as suas estadas os mesmos não pagarão as respectivas contas dos hotéis.

 

  • Cadeias hoteleiras investem na internacionalização: Muitas das mais conhecidas cadeias hoteleiras do Mundo têm vindo crescentemente a apostar numa maior presença em diferentes mercados. A prová-lo estão os recentes anúncios de novas aberturas feitos pela Hard Rock (Barcelona), pela Hyatt (Portugal) e pela Kimpton (Escócia).

 

  • Logótipos dos hotéis de luxo apostam na cor para projectar estilo e confiança: Na opinião de muitos especialistas a esmagadora maioria das unidades e marcas hoteleiras dirigidas ao segmento de luxo optam com maior frequência por introduzir cores clássicas nos seus símbolos, como o preto, o dourado e o azul, de modo a transmitirem aos seus potenciais clientes uma impressão de maturidade, honestidade e sofisticação.

 

Comentário

 

Turisver.com – Nos últimos anos, Portugal tem apresentado bons índices de crescimento no turismo. No entanto, a sazonalidade turística – um dos maiores problemas que afecta a actividade –, embora um pouco mitigada, está longe de estar resolvida. Na sua perspectiva esta é uma batalha perdida ou ainda poderemos melhorar significativamente?

Atilio Forte – Já é quase uma “tradição” sermos confrontados nesta época do ano – final da “estação baixa” e início da “alta” – com questões ligadas à sazonalidade, o que prova que esta continua a ser uma matéria latente e, por isso, que marca presença constante no espírito de todos os agentes turísticos, mormente no daqueles que mais directamente estão ligados às regiões onde o seu efeito é maior, como acontece com a do Algarve.

Naturalmente, e devemos começar por referi-lo, o crescimento da actividade económica do turismo a par de um vasto conjunto de acções que os diferentes actores turísticos, tanto públicos, como privados, têm vindo a desenvolver nos últimos anos, vem contribuindo para atenuar, ainda que parcialmente, os efeitos provocados por um fenómeno que, é bom recordar, pode ser diminuído, mas nunca erradicado, uma vez que algumas das principais razões que estão na sua origem – como o ciclo das Estações do Ano, os calendários escolares e laborais e a preponderância do produto Sol & Mar no conjunto da nossa oferta turística – dificilmente serão alteradas.

Não obstante esta realidade (incontornável), tal não significa que nos resignemos, que baixemos os braços e que consideremos que não há muito mais a fazer. Longe disso! Temos para nós que enquanto existirem empresas que encerrem em determinados momentos do ano por falta de clientes, sobretudo nos meses de Inverno, tudo deve ser feito para o evitar, pois só desse modo se continuará a criar riqueza e emprego, a dinamizar as economias locais e regionais, a vivificar o território e, claro está, a progredir no plano turístico.

Mas então, perguntar-se-á legitimamente, o que poderemos ou deveremos fazer? Sem termos a pretensão de esgotar o tema por um lado, tendo plena consciência que esta é uma tarefa que a todos deve envolver por outro lado, e ainda que estamos perante um problema concreto que já foi objecto dos mais diversos estudos, somos de opinião que a atenuação da sazonalidade deve fazer-se através de uma acção, conjugada e simultânea, em redor de três grandes eixos: o das acessibilidades; o da atractividade; e, o da competitividade. Queremos com isto dizer que, atentas as relações de interdependência entre eles, nenhuma actuação ou intervenção a realizar poderá respeitar apenas a um ou a dois deles, já que se o for algo ficará sempre a faltar ou por colmatar.

Quanto às acessibilidades, assume particular destaque quer a urgente construção do novo aeroporto (complementar) de Lisboa, de modo a garantir para o país maior capacidade de captação de companhias aéreas que para cá possam voar ao longo de todo o ano, permitindo-lhes aumentar a rentabilidade das suas operações, quer a imperiosa necessidade de melhorar a nossa ferrovia. Uma e outra situação permitir-nos-iam receber um maior número de turistas e tirar um mais eficaz proveito da nossa exígua dimensão territorial, aproximando as diferentes regiões, ao mesmo tempo que garantíamos facilidade de deslocação interna dos fluxos turísticos, aspecto que proporcionaria um melhor acesso à nossa diversidade turística através de um meio de transporte mais “amigo” do ambiente, logo mais de acordo com as preocupações e os padrões dos consumidores actuais.

No que se refere à atractividade deveríamos, em primeiro lugar, criar condições para vivificar algumas regiões, cidades, vilas e aldeias, mormente do interior e do litoral Sul, para que as mesmas se tornem apelativas para quem aí pretenda residir, já que ninguém – e muito menos os turistas de hoje – gosta de visitar locais desprovidos (ou próximo disso) de presença humana, acção que, obrigatoriamente, teria de ser complementada com a valorização, estruturação e divulgação de factores essenciais de entre os quais deveriam sobressair os ligados à nossa História, cultura, tradições, usos e costumes, património natural, edificado e monumental, gastronomia e vinhos, saúde e bem-estar e, dependendo da localização, das actividades ligadas ao mar, que só agora começamos a descobrir e a colocar no perímetro da nossa atenção.

Finalmente, no que se relaciona com a competitividade, uma maior capacitação e qualificação – a todos os níveis – dos recursos humanos, com o objectivo de elevar a qualidade dos serviços prestados, e um alinhamento da carga fiscal aplicada a alguns produtos, de forma a torná-la mais consentânea com a praticada pela nossa concorrência, sobretudo nos mercados intracomunitários, concretamente no que tem a ver com a dedutibilidade do IVA nas despesas profissionais de transporte, alojamento e recepção e no fazer regressar o denominado “IVA do golfe” à taxa mínima, seriam medidas que, sem sombra para dúvidas, dariam “uma nova vida” ao turismo nacional, pois ajudariam não apenas a melhorar a relação preço/qualidade de toda a nossa oferta turística, como estimulariam sobremaneira a actividade nos meses de menor intensidade, já que permitiriam que ganhássemos outros argumentos quer no segmento das reuniões, incentivos, congressos e eventos internacionais, quer junto dos adeptos do golfe.

No fim de contas, o que na sazonalidade está verdadeiramente em causa é, como gostamos de exemplificar, a nossa capacidade (e adaptabilidade) de transformarmos, com sucesso, o carrinho dos gelados que vendemos no Verão, num carrinho de castanhas assadas para vendermos no Inverno. O carrinho é o mesmo. A sua função e o produto vendido é que são diferentes!

Em suma, no que a esta temática respeita ainda temos muito trabalho pela frente. Trabalho esse que tem de ser feito por todos. Com conjugação de esforços, com criatividade e muita, mesmo muita, tenacidade. É que a sazonalidade não é (nem tem de ser) uma fatalidade!

 

Turisver.com – As crianças são uma das preocupações quando se pensa em férias, quando se escolhe o hotel e o destino. No seu entender, está o nosso turismo preparado e com opções para as “crianças-turistas”?

Atilio Forte – Antes de mais convirá dizer que, embora colhendo pouca atenção, este é um tema de grande pertinência e actualidade pois envolve, por um lado, um dos principais subsegmentos de consumidores tipo resultantes da sociedade-mosaico – o das famílias jovens com filhos – e, por outro lado, devido ao facto de daqui a escassos dois dias (1 de Junho) celebrar-se o Dia Mundial da Criança, justificando-se assim plenamente a oportunidade do assunto.

É que, tal como referido na pergunta que nos é colocada, a existência de uma criança – dos recém-nascidos, até aos pré-adolescentes – condiciona, e muito, a escolha do destino e dos produtos e serviços turísticos que ele oferece, atentas as características, os cuidados e as necessidades que o(s) progenitor(es) deve(m) acautelar tanto para o(s) seu(s) descendente(s) como para si próprio(s), mais a mais se tivermos em atenção que estamos perante idades em que um ou dois anos fazem uma enorme diferença, seja pelos vários graus de dependência da criança, seja pelo seu ganho de autonomia e capacidade de socialização, seja ainda pela “liberdade” que tal condição permite (ou não) à restante família.

Dito isto, e olhando em detalhe para o “caso português”, podemos afirmar que, globalmente, a nossa oferta turística tem registado um enorme progresso nos últimos anos, conseguindo encontrar as respostas mais adequadas para este tipo de solicitações, cujos expoentes mais visíveis são a grande expansão do “tudo incluído” – muito procurado pelos clientes que se encontram nesta situação, já que obvia o transtorno da deslocação e atenua, entre muitas outras, as manifestações de impaciência dos mais pequenos à hora das refeições –, a tremenda evolução que os clubes de crianças (vulgo, “kids club”) registaram no sector do alojamento, particularmente, no domínio da animação e do entretenimento, e o grande desenvolvimento das actividades aquáticas e jogos na praia, os quais no seu conjunto asseguram a tranquilidade e dão maior liberdade aos “adultos” e, simultaneamente, fazem as delícias dos mais novos.

No entanto, esta é uma área onde muito mais e melhor pode e deve ser feito, sobretudo para corresponder “à faixa” de quem pode decidir vir de férias a Portugal com “rebentos” abaixo dos três anos, pois a disponibilização de berçários na hotelaria ainda se encontra num estado relativamente incipiente, o que constitui aquela que, em nossa opinião, é a maior lacuna da oferta turística nacional no que a este subsegmento respeita mas que, acreditamos, não tardará a ser corrigida.

 

O + da Semana:

Desde que iniciámos estes nossos comentários e análises que temos enfatizado as questões ligadas ao ambiente, ao aquecimento global, à preservação dos ecossistemas, à poluição, à utilização de energias “limpas”, à reciclagem e a um vastíssimo conjunto de medidas e gestos, mais ou menos quotidianos, que podem contribuir para o que comummente se designa por “sustentabilidade” da Terra, dos destinos, dos países e das regiões. E temo-lo feito colocando sempre o turismo na “linha da frente”, como actividade económica que entende, como nenhuma outra que, por um lado, não há um Planeta “B” (como agora é moda dizer-se) e, por outro lado, que esta é uma preocupação que, de forma crescente, vem ganhando raízes na nossa consciência individual e colectiva e que encontra perfeita tradução nos gostos e atitudes de quem consome. Se dúvidas existissem, os recentes resultados das Eleições Europeias encarregaram-se de as dissipar, com a significativa subida da votação nos Partidos Políticos de inspiração ecológica e ambiental. Acontece que estes eleitores, que em grande parte já são quem hoje viaja – estamos a falar de cidadãos europeus, mas não será difícil extrapolarmos para o resto do Mundo –, seguramente constituirão a quase totalidade dos turistas do futuro e irão, cada vez mais, interferir na definição e composição da oferta turística, pois darão preferência – para não dizer, exigirão – aos produtos e serviços mais “amigos” do ambiente, mais naturais e genuínos, no fundo, mais sustentáveis. Por isso, será bom que todos os agentes turísticos, independentemente da sua localização, dimensão ou especialização, prossigam e aprofundem o respeito, a compreensão e a defesa do meio ambiente, mantendo no topo das suas prioridades a salvaguarda e a preservação do Planeta Azul. Para além de a Humanidade lhes agradecer serão, por certo, recompensados pela escolha dos consumidores.