iTurismo: Simplex+, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje Atilio Forte comenta as medidas do Simplex+ para o turismo e o desafio lançado pela secretária de Estado do Turismo para que este seja um tempo de preparação da próxima década turística. O acordo entre o Governo e a Atlantic Gateway, o papel da moda no turismo e a abertura de mega hotéis no Japão já a pensar nas Olimpíadas são os “Tópicos da Semana”. Já “O + da Semana” versa sobre os “smart shoes”.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Um céu mais azul (?): O acordo firmado há poucos dias entre o Governo e a Atlantic Gateway parece colocar a TAP à beira de uma nova etapa. Todos, principalmente aqueles que estão ligados ao turismo, assim o esperam e desejam. Num processo em que a esmagadora maioria dos intervenientes tem defendido interesses que nada têm a ver com os da companhia e do turismo, chegou a hora em que se comprovará se, afinal, o azul mais não é do que o preto dos optimistas…

 

  • A moda no turismo: Como não nos temos cansado de sublinhar, a agregação de valor é algo cada vez mais determinante para se ter sucesso, sobretudo no turismo. Por isso, vários dos maiores estilistas mundiais – Fendi, Christian Lacroix, Diane von Furstenberg, Todd Oldham, entre outros – já saltaram a “barreira” da moda para o campo da hotelaria, oferecendo propostas extremamente aliciantes e únicas.

 

  • Japão antecipa olimpíadas: Devido à organização, em 2020, dos Jogos Olímpicos de Verão, em Tóquio, o desenvolvimento do sector hoteleiro japonês vem registando, por antecipação, grande “azáfama”. A comprová-lo temos, já a partir do próximo mês de Julho, a abertura das primeiras unidades concebidas a pensar nesse megaevento, direccionadas para os segmentos de luxo e spas.

 

Comentário

 

Turisver.com – O Governo apresentou na passada quinta-feira o Programa Simplex+ com o objectivo de simplificar procedimentos administrativos e legislativos. Entre as 255 medidas, a executar até Maio de 2017, há várias que respeitam directamente ao turismo, nomeadamente no que toca à facilitação do investimento e à simplificação do licenciamento. No seu entender era destas medidas que a actividade económica do turismo necessitava ou há ainda mais que pode ser feito?

 

Atilio Forte Em pleno século XXI, com a tecnologia a desempenhar um papel de destaque no quotidiano, não se entende que as relações entre os cidadãos e as empresas, de um lado, e o Estado, do outro, sejam difíceis, complexas e morosas. Por esta razão tudo o que as possa simplificar é de saudar. Não apenas porque torna a vivência entre as pessoas singulares e colectivas e a Administração Pública mais simples e fácil, como também porque faz com que Portugal “ganhe tempo”, que pode ser dedicado à realização de muitas outras tarefas.

E, como bem sabemos, “tempo é dinheiro”, ou seja, a simplificação da relação que as diferentes entidades têm com o Estado, tal como a que os diferentes organismos da Administração Pública têm entre si, acabará sempre por desaguar naquilo que, numa linguagem mais economicista, comummente se designa por “ganhos de produtividade”.

Quem, como nós, já “anda” no turismo há alguns anos, sabe bem a luta titânica e quase diária que as empresas dos diferentes sectores têm com a burocracia, a qual só é igualada pelo autêntico calvário que aqueles que pretendem investir na actividade têm que percorrer.

Por tudo isto, somos de opinião que este Programa Simplex+ merece ser elogiado e enaltecido, tal como também merece um escrutínio construtivo de modo a que possa ser melhorado (na linha do que aconteceu com o seu antecessor, o “Simplex”).

Impõe-se, agora, recordar as oito medidas que mais directamente irão afectar a actividade turística: “Licenciamentos + Simples” para os empreendimentos turísticos; “Projectos de Investimento (através) do Turismo de Portugal”, pela melhoria da estrutura tecnológica que interage com os investidores; “Gabinete(s) do Investidor” geograficamente mais próximos dos investidores, com atendimento personalizado; “Portal do Turismo +”, disponibilizando mais e melhor informação aos diversos agentes turísticos; “Utilidade Turística + Simples” pela redução do volume de documentos solicitados; “Abrir um Restaurante”, guia para a instalação e exploração de estabelecimentos de restauração e bebidas; “Agenda Digital (do) Empresário Turístico”, pela disponibilização de um calendário com as obrigações dos empresários perante o Estado; e, “Fichas Técnicas de Fiscalização” para o alojamento local e estabelecimentos de restauração e bebidas, normalizando a intervenção dos organismos fiscalizadores.

Enunciadas as medidas, acreditamos que o maior desafio que se coloca, principalmente à Administração Pública, é pô-las a funcionar, o que, sinceramente, não se nos afigura como uma tarefa nada (mesmo nada) fácil. Portanto, mais do que analisarmos se as mesmas resolvem tudo ou se podiam ser mais, o que verdadeiramente está em causa e mais nos deve interessar é se no curto espaço de tempo antecipado pelo Governo – cerca de um ano, excepto para a “Agenda Digital” (prevista para finais de 2017) – tudo estará pronto e em utilização corrente.

E é aqui que residirá o maior dos obstáculos, uma vez que tal implicará (pelo menos no que ao turismo respeita) uma cooperação sem precedentes entre os diversos organismos da Administração Pública central, regional e local e, tão ou mais importante, a “perda” de (pequenos) poderes profundamente enraizados e instalados na “máquina do Estado”.

Em conclusão, alterar a “mentalidade das quintinhas”, respaldada nalguns casos (felizmente em larguíssima minoria) onde existiram incumprimentos (normalmente à vista de todos) e, por esse motivo, alicerçada numa desconfiança crónica em que tanto os empresários, quanto os investidores são, por regra, olhados de soslaio, onde o “proibir” é mais visto como “prevenir” e o “embargar” ou “fechar” são sinónimos de “proteger” ou “defender”, é o grande desafio a vencer, que exigirá de todos – públicos e privados – muita cooperação, empenho e pedagogia.         

  

Turisver.com – O turismo é feito de ciclos e sempre se disse (mas muitas vezes não se fez) que os ciclos bons deveriam ser aproveitados para preparar esta actividade económica de forma que os ciclos maus não tivessem nela um impacto demasiado negativo. Agora a Secretária de Estado do Turismo afirma que “Temos de fazer o trabalho de casa e preparar a nova década”. Na sua opinião estamos a aprender com os erros e a assistir ao dealbar de uma nova mentalidade?

 

Atilio Forte – Como os nossos leitores bem sabem a nossa postura relativamente ao futuro tem sido sempre optimista, razão pela qual encaramos com fundada esperança a expressão desta vontade política por parte do Governo.

É verdade que no passado, mais ou menos distante, idênticos desafios foram lançados e não apenas pelos Governos. E, quando existiram, as respostas ficaram quase sempre muito aquém da expectativa inicial.

Talvez por isso valha a pena repetir que o turismo é, não apenas a maior actividade económica do Mundo, mas a única em que, nas próximas décadas, se perspectivam taxas de crescimento superiores às da economia mundial. Por isso, faz todo o sentido que Portugal – como grande destino turístico que já é – se empenhe em planear o futuro da actividade e se prepare para captar a maior “fatia” possível desse aumento anunciado de fluxos (e receitas) turísticos.

No fundo, esta expressão do Governo vem corporizar algo que há muito (também aqui) vimos defendendo: é fundamental delinearmos uma estratégia de médio e longo prazo, que mobilize, envolva e responsabilize todos os agentes turísticos, independentemente da sua natureza pública ou privada.

Assim, mais importante do que discutir os erros do passado – que acreditamos são por e de todos (re)conhecidos, embora nem sempre publicamente assumidos -, é ter objectivos e criar compromissos em relação ao futuro.

Contudo, não basta que exista vontade política. É uma ajuda, mas não chega. O turismo é uma actividade económica eminentemente privada, portanto as empresas terão (mal estaríamos se o não tivessem) uma palavra – para não dizer “a palavra” – mais importante em todo este processo.

Tendo em consideração a actual conjuntura por que passa o turismo português, este é o momento, esta é a oportunidade para levar a cabo esta reflexão, para pensar prospectivamente a actividade e definir, de uma vez por todas, qual o seu âmbito, ou seja, quais os sectores que a integram (como é o caso, por exemplo, da Aviação), qual deverá ser a tipologia da nossa oferta, se queremos apostar na conquista de mais turistas ou na melhoria da receita média, qual o papel que queremos que o turismo venha a desempenhar na economia nacional (estratégico ou não), assumir (ou não) sem tibiezas a multidimensionalidade (transversalidade) da actividade, como ganharmos massa crítica (empresarial e enquanto destino), etc., etc., etc..

O tempo é o certo e o desafio está aí! A responsabilidade é de todos.

 

O + da Semana:

É do domínio comum que a tecnologia assume um papel cada vez mais predominante na actividade turística, não apenas pelo acesso fácil e rápido à informação que disponibiliza aos consumidores mas, também, pelas infinitas possibilidades que proporciona para que estes vivam, com crescente simplicidade, experiências cada vez mais intensas. Neste capítulo, a companhia de baixo custo easyJet acaba de lançar a última grande (e revolucionária) novidade: os ténis inteligentes ou “Sneakairs”. Estes “smart shoes”, dignos de um qualquer filme de ficção científica, foram apresentados em “versão teste”, em Barcelona, e permitem a completa eliminação da utilização de mapas por parte dos turistas garantindo, simultaneamente, que ninguém se perca durante a “exploração” de uma cidade ou, até, que encontre com facilidade o caminho de volta para o hotel onde está instalado. Como? É simples. As sapatilhas conectam-se via Bluetooth a uma App (da própria companhia, está claro!), que utiliza o GPS do (nosso) telemóvel e que identifica o local onde nos encontramos. Ah! E não se preocupe, pois se sair da rota certa, se tiver que mudar de direcção ou quando chegar ao destino, um conjunto de pequenos sensores de vibração incorporados nos seus “novos” ténis dar-lhe-ão o alerta. Embora ainda em fase de protótipo, na easyJet já se começam a fazer contas às possíveis vendas deste inovador produto, junto dos 70 milhões de passageiros que anualmente transporta.