iTurismo: Sobressalto Turístico, por Atilio Forte

O iTurismo desta semana centra-se na greve que (quase) fez parar Portugal, com Atilio Forte a interligar este episódio com a fragilidade da actividade económica do turismo, dado a sua transversalidade. O impacto do trágico acidente decorrido na Ilha da Madeira na semana passada é outro tema em análise.

 

Tópicos da Semana:

  • Com 45 metros de profundidade supera todas as piscinas… até ao momento: Já imaginou quartos de hotel, salas para eventos e reuniões e ginásios com vista subaquática? Pois é exactamente isso que a partir do próximo Outono terá ao seu dispor em Mszczonów, uma cidade situada a sudoeste de Varsóvia (Polónia), onde será inaugurada a piscina mais profunda do Mundo (45 metros) baptizada com o apropriado nome de “Deepspot”. Na sua construção serão utilizadas cerca de 1.100 toneladas de aço e, quando cheia, levará em média 27 vezes mais água do que uma piscina (dita) normal. Contudo, este recorde poderá não durar muito já que, para o próximo ano, está prevista a abertura na Grã-Bretanha de uma outra que chegará aos 50 metros de profundidade e dará pelo nome de “Blue Abyss”.

 

  • Análise de dados ajuda a desenvolver a fidelização: Muitos são os analistas que afirmam que a ciência de dados vai ser essencial para que, doravante, as grandes empresas e marcas turísticas consigam intensificar a fidelização dos clientes pois, de acordo com os diagnósticos realizados, a fidelidade não está “tão morta” quanto se julga. A título de ilustração refira-se que o que passa a ser verdadeiramente importante é saber-se, a qualquer momento, quem é que está no quarto 123, porque é que lá se encontra, onde é que ficou antes da sua chegada e para onde irá após a partida.

 

  • Desenvolvimento turístico “aquece” República Dominicana: De acordo com a empresa multinacional de análise e estudos de mercado STR a República Dominicana está a tornar-se no “ponto mais quente” do investimento turístico nas Caraíbas, dado actualmente ter em construção mais de 6.200 novos quartos de hotel.

 

Comentário

 

Turisver.com – A greve dos camionistas de transporte de matérias perigosas, veio colocar a nu certas debilidades do país, entre as quais a falta de autonomia energética de alguns dos nossos aeroportos. Na sua opinião, os governantes deverão tirar ilações desta situação e avançar com uma solução de abastecimento de combustível para estas infra-estruturas?

Atilio Forte – Infelizmente, há assuntos e situações acerca das quais a maioria da opinião pública apenas se apercebe quando é colocada perante o seu funcionamento deficiente, falha temporária ou, por vezes, total privação e até falência, já que existe a tendência quotidiana para nem sempre valorizar o que se tem, tal como para não ter em consideração o que se podia ou devia ter, desde que tudo vá funcionando e não perturbe a velocidade (e voracidade) alucinante do ritmo de vida diário que levamos, o conforto e a comodidade a que nos habituámos e não seja alvo de destaque mediático.

A par disto, convém também referir (e repetir!) a enorme fragilidade da actividade económica do turismo, atentas as múltiplas interdependências que manifesta em resultado das suas transversalidade e pluridisciplinaridade, como há décadas vimos sublinhando. E a greve dos motoristas de veículos de transporte de matérias perigosas, que abalou Portugal na passada semana, foi apenas mais um dos episódios que veio provar que, no que ao turismo respeita, nada pode ser dado por adquirido. Queira-se ou não – sem pretender julgar e muito menos pôr em causa as razões que conduziram ao exercício desse direito constitucional por parte daqueles trabalhadores – o facto é que, nos dias que antecederam o fim-de-semana prolongado motivado pela Páscoa, o “país turístico” esteve muitíssimo preocupado e em estado de grande ansiedade, uma vez que a falta de combustíveis [gasolina, gasóleo, “jet fuel” (usado pelos aviões), etc.] poderia ter arruinado um dos picos anuais da procura turística e, por essa razão, afectado os resultados de milhares de empresas, dado os seus clientes (quase) ficarem sem alternativa para se deslocarem e usufruírem dos curtos dias de descanso que a Quadra permite e, consequentemente, prejudicado a nossa economia.

Simultaneamente, grande parte dos(as) portugueses(as) também se apercebeu que os aeroportos são muito mais do que meras “estações” de tomada e largada de passageiros, mas antes infra-estruturas estratégicas e vitais para qualquer Estado, seja no domínio turístico, seja no que respeita às demais áreas da economia (trânsito, exportação e importação de bens e mercadorias), isto para nem sequer referir a sua importância no que se refere à defesa e soberania nacionais. Não é em vão que sempre que acontece uma qualquer altercação política ou catástrofe o controlo ou o assegurar do normal funcionamento destes equipamentos aparece sempre no topo da lista de prioridades a garantir…

Mas o mais estranho (para não usar outro adjectivo mais contundente) de tudo o que acabámos de dizer, é o total alheamento e falta de sensibilidade – tanto por inacção, como por ignorância – dos sucessivos Governos para esta situação, a que se soma a completa desvalorização da actividade turística (por muito que constantemente afirmem o contrário!), uma vez que dos três principais aeroportos localizados em Portugal continental, neste momento apenas o do Porto é abastecido (desde Matosinhos) directamente por oleoduto, enquanto os de Lisboa e Faro o são por via rodoviária, com todas as desvantagens (como se viu!) e perigos que tal acarreta.

Recorde-se que a antiga Portela (agora Humberto Delgado) recebeu combustível durante muitos anos através de um oleoduto que o ligava à Matinha (Cabo Ruivo), o qual foi desactivado aquando da intervenção e recuperação daquela área da capital para a realização da Expo ’98. A partir daí o seu abastecimento processa-se desde Aveiras de Cima com recurso a camiões cisterna, o que o torna no único grande aeroporto europeu (?!) com este tipo de procedimento, impróprio para um país que foi considerado em dois anos consecutivos como “Melhor Destino Turístico do Mundo”.

A fazer fé no que tem vindo a público a construção de um oleoduto que ligue o Parque da CLC – Companhia Logística de Combustíveis, S. A., sito em Aveiras de Cima, ao aeroporto de Lisboa rondará os 10 milhões de Euros, valor irrisório se comparado com os benefícios que daí poderão resultar, mais a mais quando está perfeitamente claro que aquela infra-estrutura (com ou sem Montijo) continuará em actividade durante largos anos. Já para a segunda plataforma aeroportuária mais importante do país (Faro) uma idêntica solução afigura-se mais complexa e onerosa, dado que, aparentemente, a melhor possibilidade é efectuar uma ligação entre aquele equipamento e a refinaria de Sines… o que, convenhamos, é sempre melhor, mais seguro e eficaz do que o uso da rodovia.

Em suma, e agora que a toada mediática se esbateu, será bom que o Estado não tenha “memória curta”, nem se escude no endosso de responsabilidades exclusivamente para as empresas petrolíferas, mas que retire as devidas ilações do nervosismo vivido durante a semana passada (parecia que tínhamos recuado à década de 80 do século passado), protegendo o turismo e a economia portuguesa, salvaguardando a soberania nacional e acautelando que para o exterior não volte a passar a imagem de um país refém da sua inacção e em sobressalto turístico!

 

Turisver.com – O trágico acidente na ilha da Madeira que causou a morte a quase três dezenas de turistas alemães teve impacto a nível internacional e isso não pode ser escamoteado pelos efeitos negativos que pode ter no turismo português. No seu entender, teremos de estar mais preparados  para tentar evitar situações de risco como também para lidar com elas?

Atilio Forte – Antes de mais impõe-nos a nossa consciência que aqui registemos uma palavra de conforto e de solidariedade para com as famílias enlutadas das vítimas deste terrível acidente, bem como votos de uma rápida e plena recuperação a todos quantos nele ficaram feridos.

Depois deve sublinhar-se que, quer queiramos quer não, os desastres acontecem, sendo de natureza imprevisível e, por essa razão, ninguém pode afirmar ou garantir que está a salvo do que, inusitadamente, lhe possa suceder. No entanto, e neste caso em particular, deve enaltecer-se quer a pronta intervenção das forças de socorro e de prestação de cuidados de saúde – lamentavelmente para muitos de nada serviu –, quer a actuação das autoridades políticas tanto continentais como insulares, facto, aliás, imediatamente reconhecido – e ao mais alto nível – pelo Governo Alemão.

Quanto aos motivos que estiveram na origem desta tragédia e como é sempre nosso timbre, entendemos não dever especular e, por isso, somos de opinião que a atitude mais prudente é aguardar que a investigação em curso produza as suas conclusões as quais, então sim, deverão ser objecto de profunda análise e pronta actuação para, se possível, impedir que algo semelhante volte a repetir-se, seja em que ponto do país for.

Apesar disto vale a pena referir que os percursos e itinerários turísticos, independentemente da sua natureza, devem ser objecto de redobrada atenção e permanente fiscalização e vistoria preventiva por parte das autoridades mas, também, dos diversos agentes turísticos, já que no caso de acontecer um qualquer acidente, o mesmo acaba invariavelmente por ter uma maior repercussão internacional e, consequentemente, penalizar o destino e o país.

Igualmente, devem ser tidos em atenção os tempos de trabalho e a capacitação dos profissionais envolvidos na prestação do serviço turístico, tal como os meios de transporte ou qualquer outro tipo de bens manuseados ou equipamentos utilizados (caso existam) pelos turistas, através da realização de acções inspectivas, bem como o respeito integral pelo cumprimento das regras de segurança por parte de todos os intervenientes (turistas incluídos), de modo a minorar a possibilidade de ocorrência de uma qualquer falha, tanto humana como técnica.

Para terminar, e no que respeita ao impacto turístico que o ocorrido possa vir a ter, acreditamos que o mesmo será diminuto – para não dizer nulo –, apesar de ter tido lugar na Madeira e envolver turistas alemães que, como aqui vimos na semana passada na análise que efectuámos aos resultados turísticos alcançados por Portugal nos dois primeiros meses do ano, coincide com a região do país que regista maior descida de turistas estrangeiros (Madeira) e com o mercado emissor (alemão) que mais quebra homóloga apresenta (- 7% em Janeiro e Fevereiro de 2019).

 

O + da Semana:

Longe vão os tempos em que no sector do Alojamento Local a dimensão dos negócios entre empresas era reduzida, quase feita à escala pessoal, isto é, proporcional à capacidade económico-financeira dos proprietários. Com o aparecimento das grandes plataformas digitais, congregadoras da esmagadora maioria do produto disponível no mercado, tudo isso mudou. E mais se alterou quando a oferta passou a “móvel”, ou seja, a estar à disposição dos consumidores num qualquer equipamento portátil, bastando para o efeito descarregar a respectiva aplicação (“App”). E maior escala foi obtida quando outros tipos de alojamento também passaram a aí estar disponíveis, entre os quais… os hotéis. Assim, de passo em passo – ou melhor dizendo, de salto em salto – algumas dessas “Apps”/empresas/plataformas/consolidadores tornaram-se autênticos gigantes e, por esse motivo, incontornáveis no turismo dos nossos dias. E isso significou que, tal como vinha acontecendo no sector do alojamento mais tradicional (hotelaria), esses conglomerados começaram a demonstrar apetência por adquirir outros mais pequenos para assim ganharem (ainda mais) dimensão e, consequentemente, valorizarem-se tanto aos olhos dos consumidores como, igualmente, aos dos seus (potenciais) investidores. Por tudo isto não deve estranhar-se que em vésperas de lançar o seu IPO – Initial Public Offering (Oferta Pública Inicial, que simplisticamente pode traduzir-se por abertura de capital ao mercado ou como a primeira vez em que os proprietários de uma empresa renunciam a uma parte das suas quotas/acções em favor do público em geral, que as passa a poder adquirir), previsto para meados de 2019, a Airbnb tenha anunciado a sua maior “compra” até à data, a HotelTonight, uma aplicação especializada em reservas hoteleiras de última hora. Embora nenhuma das partes tenha revelado o valor da transacção, muitos são os rumores que garantem que o mesmo terá ultrapassado os 400 milhões de dólares, o que não deixará de ser tomado em consideração tanto por quem vende, como por quem compra, mal a empresa abra o seu capital.