iTurismo: Somos Bons, Mas…, por Atilio Forte

A evolução do turismo, em parte conseguida pela incorporação de novas tendências e tecnologias e o modo como o turismo português tem acompanhado esta mesma evolução é o tema em destaque no iTurismo de hoje, em que Atilio Forte deixa claro que “de um modo geral temos encontrado os caminhos certos” mas é conveniente reconhecermos “onde temos estado menos bem e, por essa razão, onde podemos melhorar”.

 

Tópicos da Semana:

  • Concursos para as Concessões de Zonas de Jogo: Na passada semana o Governo veio esclarecer através de um comunicado não existir qualquer atraso no lançamento dos concursos públicos para as Concessões das Zonas de Jogo do Estoril (Casinos Estoril e Lisboa) e da Figueira da Foz (Casino da Figueira) que terminam no final do próximo ano (31 de Dezembro de 2020) pois, embora sendo de cariz internacional, os ditos terão prevista uma duração de 6 meses, julgando desta forma iludir a grande questão (por nós já aqui várias vezes abordada) que tem a ver com as impugnações, contestações e reclamações judiciais de que os mesmos normalmente são alvo… basta ver o que tem sucedido com o tradicional “stand” do Turismo de Portugal nas feiras nacionais e internacionais – proibição de participação em resultado de uma impugnação do concurso público internacional realizado para o efeito – para se perceber (na perfeição) que as coisas, infelizmente, não são exactamente assim!

 

  • Honolulu (também) está a pensar limitar o alojamento local: A capital de um dos destinos de férias mais famosos do Mundo, o Havaí (EUA), está a ponderar “apertar” os critérios regulatórios que regem o sector do alojamento local, de modo a diminuir a voracidade dos investidores imobiliários neste tipo de produto, em virtude de nos últimos anos terem aparecido milhares de habitações no mercado com esse propósito, enquanto apenas cerca de 1.000 novos quartos de hotel foram construídos/criados em igual espaço de tempo em todo o Estado, de acordo com informação revelada pela Hawaii Tourism Authority.

 

  • Resorts” de golfe cada vez mais criativos: As unidades hoteleiras que englobam na sua oferta o produto golfe tudo estão a fazer para conseguir sobressair junto do mercado, em geral, e dos seus potenciais clientes, em particular. Assim, não deve estranhar-se que no seu portfólio comecem a aparecer propostas que vão desde a inclusão de simuladores para atrair/iniciar novos praticantes naquele desporto, até sugestões de campos com iluminação artificial que permitem jogar após o pôr-do-sol.

 

Comentário

 

Turisver.com – O turismo é considerado como uma actividade económica recente quando comparada com outras. Talvez por isso tem evoluído de forma constante, absorvido novas tendências e incorporado bem as novas tecnologias. Na sua perspectiva, o turismo português tem acompanhado a evolução que a actividade tem tido no Mundo?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que o turismo, a par das novas tecnologias de informação e comunicação, tem sido das aéreas de actividade económica que mais contribuiu para moldar a face do Mundo em que actualmente vivemos, aproximando povos, culturas e religiões, promovendo a paz e a compreensão entre países, estimulando o desenvolvimento económico e a criação de emprego, preservando o património – material e imaterial –, o ambiente e o ordenamento do território, contribuindo diariamente para educar, animar, entreter e, sobretudo, melhorar as condições de vida do Ser Humano independentemente do lugar onde o mesmo se encontra.

E, pasme-se, conseguiu fazer tudo isto em apenas sete décadas, uma vez que o seu grande desenvolvimento só teve início após a II Guerra Mundial. Para tal, a introdução dos motores a jacto na aviação comercial e a melhoria das condições socioeconómicas da grande maioria da população internacional a partir da década de ’50, não só estiveram na origem do crescimento exponencial da actividade – transformando-a de luxo em bem essencial – como, igualmente, motivaram com que o turismo antecipasse o fenómeno que viria a ficar conhecido para a História por “Globalização”, ao que deve somar-se a entrada da internet no nosso quotidiano, na derradeira década do século XX, factores que determinaram que a actividade chegasse ao final do milénio numa posição de liderança da economia mundial.

Nessa altura, quando muitos já vaticinavam limites ao seu crescimento, eis que em pouco mais de década e meia (nos primeiros 15 anos do século XXI) mais do que duplicaram o número de chegadas internacionais de turistas e triplicaram as receitas por eles geradas, antecipando em dois anos as perspectivas (mais optimistas) feitas pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) em 2010, que previam que em 2020 a actividade fosse responsável por gerar 1,4 biliões de turistas, número que acabou por ser alcançado em 2018!

Tais resultados e tão grande sucesso só foram possíveis porque o turismo soube sempre estar na linha da frente da inovação, seja dos produtos e serviços prestados e disponibilizados aos consumidores, seja na adopção e incorporação de novas tecnologias (dos propulsores a jacto, ao digital) seja, ainda e principalmente, na compreensão e adaptação ao mercado, isto é aos desejos e vontade da procura, nunca hesitando em aceitar os riscos que estar na vanguarda implica e, por isso, recolhendo os benefícios e demonstrando uma assinalável resiliência, mesmo quando as conjunturas – políticas e económicas – não lhe eram favoráveis.

Note-se que presentemente a actividade turística é quem lidera o número de transacções comerciais electrónicas feitas à escala planetária, está em primeiro lugar no combate à poluição e ao aquecimento global, na preservação dos ecossistemas e na erradicação do plástico não reciclável, na exploração de “novas fronteiras” como o espaço ou o mundo subaquático, para apenas citar alguns exemplos que ilustram na perfeição a indomável vontade de querer fazer sempre mais, melhor e bem, em simultâneo com a protecção e a sustentabilidade da Terra.

A tudo isto há que acrescentar (e salientar!) o facto de o turismo ser actualmente responsável por empregar, a nível directo e indirecto, cerca de 10% da população activa mundial, situação que lhe confere uma tremenda responsabilidade social como, do mesmo modo, o torna imprescindível para as demais áreas da economia, não só pelos efeitos indutores que nelas gera, como por as colocar em situação de parcial dependência do poder de compra daqueles que nele trabalham, de forma a alimentarem a sua própria dinâmica.

Muito e bem mais podia seguramente ser dito acerca da evolução que o turismo tem tido no Mundo, bem como da sua importância presente e futura nos diferentes domínios da nossa vida. Mas acreditamos que o quadro traçado já é suficientemente vívido…

Porém, se existissem “leis” que regessem ou definissem a actividade turística uma delas seria, certamente, esta: aquilo que uns não fizerem está, nesse preciso momento, a ser levado a cabo por outros, mesmo que se localizem do outro lado do Mundo.

Queremos com isto dizer que, felizmente para nós, ao longo do tempo o turismo português tem sabido estar à altura deste constante progresso, enorme dinamismo e insaciável busca por novas, mais atractivas e sustentáveis propostas de produtos e serviços turísticos, o que tem motivado com que, de uma forma geral, a nossa oferta tenha sabido evoluir, umas vezes estando na “primeira linha”, noutras correndo para “acompanhar o passo” mas, no essencial, mantendo-se a par de tudo o que de mais importante vai acontecendo na actividade.

E os resultados estão (bem) à vista de todos! Com maior ou menor dificuldade, com maiores ou menores constrangimentos internos, a verdade é que um país de exígua dimensão territorial e populacional se tem vindo a assumir como “potência turística mundial” e, por vezes, como exemplo a seguir (ou copiar) por parte dos seus/nossos concorrentes. Este é, seguramente, o melhor elogio que pode ser feito a todos os agentes e actores turísticos nacionais e o prémio mais saboroso que poderemos algum dia conquistar nesta actividade económica fascinante, complexa e de extrema concorrência que é o turismo.

No entanto, para sermos coerentes (e conscientes) com este discurso (quase) triunfalista, que só podemos fazer graças a todos quantos dedicaram e dedicam em Portugal a sua vida à actividade económica do turismo, também devemos ter noção das nossas fraquezas e do que estamos a fazer para nos conseguirmos manter na posição a que chegámos ou, dito de outro modo, para proporcionarmos que o nosso país se mantenha na “crista” desta gigantesca “onda turística” que atravessa o Planeta e que, de acordo com todos os estudos conhecidos, continuará a crescer (pelo menos) nas próximas três décadas.

Ora, se como vimos, de um modo geral temos encontrado os caminhos certos, também convirá que reconheçamos onde temos estado menos bem e, por essa razão, onde podemos melhorar. E, neste particular, existem alguns aspectos que clamam pela nossa atenção, de entre os quais escolhemos três que, em nossa opinião, exemplificam correctamente o quadro de mudança que devemos assumir.

Em primeiro lugar deparamo-nos com a questão das infra-estruturas, nomeadamente as aeroportuárias, vitais para um país (turístico) com o nosso posicionamento geográfico. Andar há mais de 50 anos a discutir, a estudar e a avaliar, algo que sabemos ser imprescindível para que possamos continuar a crescer e a ser competitivos, como acontece com o caso de um novo aeroporto que sirva a região de Lisboa e Portugal, não é de todo aceitável, muito menos compreensível.

Em segundo lugar, devemos dar mais atenção à qualidade e qualificação dos serviços turísticos prestados, o que passa pela capacitação académica, técnica e profissional e, ainda, pela valorização daqueles que trabalham ou pensam vir a trabalhar na actividade, que como se sabe é uma área de mão-de-obra intensiva, sendo igualmente este um problema que se vem arrastando no tempo, mas que actualmente começa a ganhar maior visibilidade face à concorrência acrescida que vamos sentindo, mormente dos destinos europeus e mediterrânicos, pois se uns têm conseguido superar este constrangimento através do pagamento de melhores salários, conseguindo assim manter e reter a sua força laboral e, paralelamente, exigir maior especialização e conhecimento a quem pretende “abraçar” uma profissão turística, elevando por esta via o nível qualitativo da sua oferta, outros apostam declaradamente por competir no campo do “preço” desvalorizando, claramente, os demais factores.

Portanto, é urgente que resolvamos este dilema em que nos deixámos enredar: ou optamos por ser um destino de reconhecida qualificação, com todos os custos – incluindo os salariais – inerentes a essa decisão; ou, inexoravelmente, teremos de reposicionar a nossa oferta, fazendo diminuir a sua proposta e percepção de valor, de modo a conseguirmos inserir-nos num outro segmento diferente daquele onde estamos. Qualquer das estratégias é legítima e defensável. Ficar, como até aqui, no meio-termo é o que não pode suceder, sob pena de, a médio prazo, virmos a ser severamente “castigados” pelos consumidores.

Finalmente, sendo hoje inquestionável a nossa vocação turística o país, e por maioria de razão a classe política, deve acarinhar e dar expressão à importância que a actividade económica do turismo, por mérito próprio, soube conquistar em Portugal, desde a criação nos “curricula” escolares de disciplinas e programas que estimulem o gosto e a compreensão pelo fenómeno turístico, ao aumento e diversificação dos cursos técnico-profissionais que possibilitem uma maior especialização e estejam mais de acordo com as necessidades do mercado de trabalho, a uma maior ligação entre o ensino superior e a Academia no seu todo e o tecido empresarial e os diferentes organismos públicos e privados que operam no turismo, não só para aumentar o saber e o conhecimento científico sobre a actividade como, também, para tornar Portugal num verdadeiro centro de excelência e de competências de renome internacional, no que à actividade respeita.

Isto para nem sequer falar, no plano político, na criação de um Ministério do Turismo que englobe o sector da aviação que, como se sabe, é cada vez mais determinante para garantir a existência e a continuidade dos fluxos turísticos e terminar com esta “birra” (perdoem-nos a expressão) de manter separado do turismo algo que lhe é vital e que dele faz parte integrante.

Se assim não for continuaremos como até aqui, a viver, a pensar e a trabalhar tendo como horizonte o dia-a-dia, a tratar tudo “pela rama”, a alimentar o nosso ego com os sucessos e os prémios que vamos obtendo, até ao momento em que formos ultrapassados por terceiros e, principalmente, constatarmos que a “culpa” foi (exclusivamente) nossa. Por isso todos temos a responsabilidade, a obrigação e o dever de nunca nos colocarmos na situação em que, pondo a mão na consciência, tenhamos de admitir: Somos bons, mas… Porque, como atrás dissemos, de acordo com uma das “leis” do turismo, se esse tempo chegar, não “somos”, “já fomos”!

 

Turisver.com – Quando existem grandes eventos que juntam milhares de pessoas, as questões ligadas à segurança voltam à ordem do dia e Portugal não é excepção. Na sua opinião, a segurança no nosso país é de molde a dar-nos tranquilidade?

Atilio Forte – O primeiro aspecto que devemos salientar é que, considerando todos os relatórios internacionais que têm sido elaborados sobre o tema, Portugal é, de facto, um dos países mais seguros do Mundo. E isso é algo que tem um enorme valor e que é, obviamente, tido em consideração pelos consumidores quando se encontram em processo decisório de escolha do destino para as suas férias.

Não obstante este dado objectivo, é importante considerarmos que a inexistência, ou melhor, a diminuta existência de probabilidades de Portugal ser alvo de um qualquer acto tresloucado como os que têm ocorrido em inúmeros locais do Mundo nos últimos tempos, não esgota o tema. A propósito dos sucessivos anos de grandes incêndios ou do colapso de uma estrada no Alentejo, já por várias vezes tivemos oportunidade de aqui alertar que esse tipo de acontecimentos, por colocarem em risco pessoas e bens, também passa para o estrangeiro uma imagem de vulnerabilidade do nosso país à qual, naturalmente, os turistas não se querem expor.

Portanto, é bom ter-se presente que a segurança é um assunto de largo espectro e, por isso, não pode, nem deve, circunscrever-se a uma ou outra área mas, antes sim, à globalidade de Portugal e ao que por cá acontece.

Para além disso, e embora admitindo que haja quem connosco não concorde, temos para nós a máxima que “a segurança não se promove, garante-se”! E isso significa que não devemos propalar uma mensagem pacífica e de tranquilidade já que, actualmente, isso corresponde a algo que ninguém pode (verdadeiramente) assegurar. Assim, o ideal é continuar a desenvolver um trabalho silencioso, discreto e preventivo, mas eficaz, para que continuemos a aparecer aos olhos da comunidade internacional como um destino seguro e, simultaneamente, para que todos nós, que cá vivemos, igualmente nos sintamos protegidos. Ir além disto, é desafiar a própria segurança e pôr em jogo o nosso bem-estar!

 

O + da Semana:

A escassez de mão-de-obra, em geral, e qualificada, em particular, tem sido um dos maiores problemas com que o turismo nacional se vem debatendo nos últimos anos, e que se tem feito sentir sobretudo nos sectores do alojamento e dos estabelecimentos de restauração e bebidas, a par de algumas das regiões que maior “peso” têm no total da actividade turística no nosso país, como é o caso da do Algarve onde, por esta razão, a degradação da qualidade dos serviços prestados mais se tem vindo a verificar, como por diversas vezes já aqui tivemos oportunidade de salientar. Por isto, é merecedora de destaque a recente iniciativa anunciada pela ERT – Entidade Regional de Turismo do Algarve que, em parceria com o IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, tem por objectivo a promoção de oportunidades de emprego junto de jovens com mais de 16 anos, que se encontrem a estudar, e que pretendam trabalhar durante a pausa lectiva de Verão permitindo, em simultâneo, que os mesmos adquiram qualificações em ambiente de trabalho e experiência e saber que, mais tarde, possam ser-lhes úteis aquando da sua entrada na vida activa – onde grande parte das possibilidades de emprego lhes surgirão nos sectores que integram a constelação turística – e atenuar as necessidades sentidas pelas empresas neste domínio, principalmente na época do ano de maior procura.