iTurismo: Sustentabilidade ou Sobrevivência

A 5ª Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, a decorrer em Madrid, é um dos temas do comentário de Atilio Forte que se debruça, também, sobre a certificação dos Açores como destino sustentável. Outro tema analisado é a decisão dos ministros dos Transportes da Europa de actualizarem o regulamento do Céu Único Europeu.

 

Desde o passado dia 2 e até ao próximo dia 13 está a decorrer em Madrid a COP25, isto é, a 25ª Conferência das Nações Unidas (ONU) sobre as Mudanças Climáticas , onde se tem vindo a sublinhar a emergência em salvar a Terra, afinal a nossa (única) casa comum. Têm sido inúmeras as mensagens de alerta que (d)aí têm ecoado, de entre as quais tem sobressaído a de que “não existe um Planeta B” e a de que estamos a escassos 10 anos de atingir o ponto de não retorno, ou seja, dos danos que temos infligido ao exclusivo (até ao momento) habitat que acolhe um vasto conjunto de espécies (em progressivo declínio) vegetais e animais, entre as quais se encontra a humana, tornarem-se irreparáveis e, por consequência, irreversíveis.

Se é verdade que muito se tem falado em diminuir os níveis de poluição com que despudoradamente contaminamos os solos, os rios, os mares e a atmosfera, em reduzir as emissões de gases que provocam o aumento da temperatura por via do efeito de estufa que criam, ou em atenuar a voracidade com que delapidamos os recursos que a Natureza tão generosamente colocou à nossa disposição, não menos verdade é que a Humanidade está cada vez mais desperta para a periclitante situação em que se encontra tornando-se, por isso, bem mais exigente para com os seus líderes, não obstante alguns deles persistirem em fazer “ouvidos de mercador” aos apelos que recebem, apesar dos mesmos resultarem de mais do que comprovadas evidências.

Se este é, grosso modo, o quadro que temos diante de nós, contra o qual nos insurgimos e que vem crescentemente encontrando espaço nos órgãos de comunicação social e, também, nas nossas preocupações quotidianas, a ponto da palavra “sustentabilidade” se ter tornado “obrigatória” a propósito de (quase) tudo, o facto é que talvez ainda não tenhamos interiorizado (todos) que o que está verdadeiramente em causa não é só exigirmos soluções mais “amigas” do meio-ambiente, mas antes, interrogarmo-nos sobre o que cada um de nós está disposto a fazer pelo Planeta Azul, ou seja, por si e pelas gerações futuras? É perceber que o tempo da sustentabilidade já passou. Agora, estamos a lutar pela sobrevivência! Nossa e das demais espécies que connosco coabitam a Terra.

E para tal devemos questionar-nos acerca do que estamos disponíveis para abdicar? Sim, se pararmos por um minuto e pensarmos tanto nos pequenos gestos que fazemos, como no conforto em que vivemos e a que nos habituámos, a tudo o que nos rodeia, facilmente constatamos que muito pouco, quase nada, é sustentável ou, dito de outro modo, que muito do que consideramos essencial para o nosso dia-a-dia está na origem e de alguma forma contribui para agravar o período de emergência ambiental em que nos encontramos.

Estaremos nós, todos nós, jovens e menos jovens, dispostos a privar-nos das nossas comodidades, a alterarmos hábitos de vida, de consumo, de vestuário, de alimentação, etc., para deixarmos que a Natureza faça o seu trabalho e recupere o que paulatina e metodicamente temos destruído? Esta é a grande questão e a legítima dúvida que nos deve sobressaltar. Seremos capazes de (querer mesmo) sobreviver?!

 

Uma vez que esta foi a temática que dominou a semana que findou, é importante que aqui enfatizemos as enormes responsabilidades que a actividade económica do turismo também tem na preservação ecológica e ambiental e no muito que pode (e deve!) contribuir para a sustentabilidade do nosso Planeta, razão principal para que os bons exemplos sejam enaltecidos e replicados, sempre que possível, principalmente quando percepcionamos que uma das maiores tendências turísticas que se começa a fazer sentir é a apetência dos turistas por viajarem para locais de menor nomeada e/ou mais recônditos.

Vem isto a propósito dos Açores serem o primeiro Arquipélago do Mundo a receber a certificação da EarthCheck como destino sustentável , juntando-se desta forma a um restrito “clube” de 13 regiões, localizadas em 8 países diferentes, e culminando um processo iniciado há cerca de dois anos, que já aqui havíamos comentado.

Assim, ao título recebido (pelo terceiro ano consecutivo) de Melhor Destino Turístico do Mundo Portugal pode adicionar mais este, que decorre dos rigorosos critérios definidos pelo GSTC – Global Sustainable Tourism Council, entidade que enfatiza que a actividade turística só é benéfica para os locais se, acima de tudo, tiver reflexos positivos nas comunidades aí residentes e na preservação patrimonial, cultural e natural dos mesmos.

 

Como derradeiro destaque da última semana, salientamos a reunião dos Ministros dos Transportes da União Europeia, realizada no passado dia 2 – coincidência ou não com o início dos trabalhos da COP25 –, onde foi acordado levar por diante uma actualização ao Regulamento do “Céu Único Europeu” (Single European Sky, proposto em 1999 e aprovado em 2004), que estava bloqueada desde 2013. Vale a pena referir que este documento tem por objectivo tratar o espaço aéreo europeu como um todo (e não país a país) permitindo, entre outros, restringir os atrasos, melhorar os aspectos respeitantes à segurança e à eficiência de voo, reduzir os custos relacionados com a prestação de serviços e diminuir a pegada ambiental da aviação .

Não é demais referir e sublinhar este último factor, já que, de acordo com os mais recentes estudos, prevê-se que o tráfego aéreo à escala mundial duplique até 2037, o que está a colocar enormes desafios ecológicos ao sector aos quais, seguramente, haverá que dar a única resposta actualmente possível (e aceitável): inovar para despoluir. Não espanta pois que novas aeronaves já estejam a ser projectadas, utilizando propulsores alimentados por outros tipos de combustíveis não fósseis (como a electricidade ou o hidrogénio) mas, igualmente, novos carburantes (SAF – Sustainable Aeronautical Fuel) se encontrem em desenvolvimento, nomeadamente, os obtidos a partir da reciclagem de resíduos diversos (como o óleo alimentar usado).

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor dos(as) nossos(as) leitores(as).