iTurismo: Táxis Vs TVDE, por Atilio Forte

A exposição permanente das obras de Miró na Casa de Serralves é “O + da Semana” escolhido por Atilio Forte para o iTurismo de hoje, em que se fala do regime jurídico das plataformas electrónicas (TVDE) e da Serra da Estrela. O Forte de Peniche, o “Grupo de Hotéis de Luxo” criado na Croácia e as grandes marcas hoteleiras são os “Tópicos da Semana”.

 

Tópicos da Semana:

  • A polémica do Forte de Peniche: Na última semana este foi um tema que dividiu a sociedade portuguesa. De um lado ficaram os que defendem a sua exploração hoteleira e, do outro, os que entendem que tão importante símbolo da luta antifascista não deve ser alienado. Contudo, todos concordam na necessidade urgente da sua recuperação. Sem pretendermos ser salomónicos, sempre valerá a pena referir que, para o turismo (leia-se turistas), tão importante é ter “onde ficar?”, como ter “o que fazer?”. Assim, em casos como este, o que mais (nos) interessa é que se recupere o património e preserve a história “por ele contada”. Antes que se percam ambos!

 

  • O (bom) exemplo da Croácia: A Câmara de Comércio e Indústria da Croácia criou um “Grupo de Hotéis de Luxo”, para conquistar mais turistas americanos e britânicos para o país. Pondo de lado a segmentação e os mercados escolhidos, este é, sem dúvida alguma, um excelente exemplo pois: coloca os hotéis participantes debaixo de uma mesma marca; faz com que adoptem critérios específicos e padrões uniformes; e, promove-os em conjunto. Trata-se de uma excelente solução para unidades independentes ou pequenas cadeias melhor se posicionarem no mercado global!

 

  • Grandes marcas hoteleiras: O “Luxury Institute” publicou recentemente um índice com as principais marcas de hotéis de luxo, tendo em consideração a sua notoriedade junto dos consumidores, do qual constam a Four Seasons, a Grand Hyatt, a InterContinental, a JW Marriott e a Ritz-Carlton como as mais populares do planeta.

 

Comentário

 

Turisver.com – São milhões os turistas que durante a sua estadia em Portugal utilizam o táxi e, mais recentemente, serviços de transporte como a Uber. O Governo vai criar o regime jurídico das plataformas electrónicas que organizam o transporte e definir os requisitos de acesso à actividade que se vai chamar TVDE. É justificada a contestação dos proprietários dos táxis, face a esta iniciativa?

Atilio Forte – O serviço de transporte em veículos descaracterizados (TVDE) tem sido um dos sectores que, ao longo dos últimos tempos, maiores tensões tem provocado no nosso país, opondo as empresas que detêm e operam táxis, às proprietárias de aplicações tecnológicas que, por essa via, disponibilizam digitalmente idêntico serviço aos consumidores, nomeadamente a Uber e, mais recentemente, a Cabify, que mais não fazem do que, de forma simples e eficaz, porem em contacto prestadores de serviços e consumidores, remunerando-se por esse acto.

A sua origem advém da eclosão da chamada “economia de partilha”, profundamente ancorada na evolução tecnológica, que permitiu um surto de novas áreas de negócio ou alterações substanciais noutras, aproveitando quer a oportunidade criada por esta tendência quer, também, a pronta adesão – e entusiasmo – com que os consumidores acolheram, de forma geral, estes novos serviços.

No caso do turismo – porventura uma das actividades económicas em que a evolução tecnológica mais se tem feito sentir – são inúmeros os exemplos de sucesso conhecidos, sendo o da Airbnb talvez o de maior notoriedade.

Tal como aquando do aparecimento das companhias aéreas de baixo custo (vulgo low cost), que dessacralizaram a necessidade de “pagar um bilhete” para viajar de avião, estas empresas vieram, nalguns casos, pôr em causa os fundamentos de muitos sectores e actividades.

Ora, na questão dos táxis foi exactamente isso que aconteceu, passando o mercado, quase de um momento para o outro, a dispor de alternativa(s) aparentemente mais económicas, mais simples e eficazes, na óptica do consumidor com uma percepção superior da qualidade oferecida e … à distância de um(a) “clique/tecla”.

Compreende-se, assim, que tal tenha provocado reacções enérgicas por parte dos que viram as suas empresas afectadas com tamanha “revolução”. Não podemos esquecer-nos que, no limite, está em causa a sua sobrevivência, já que têm de lidar com uma realidade para a qual não estavam, de todo, preparados. Daí a contestação a que vimos assistindo.

Quanto a nós esta atitude de rejeição (e resistência) à evolução, apesar de legítima, tem um triplo significado: de um lado, demonstra o quão “confortáveis” – para não dizer adormecidas – se sentiam as empresas que operavam táxis, que pararam de evoluir e inovar e, com essa atitude, expuseram-se à mudança; de outro lado, não compreenderam que, há muito, o paradigma da oferta e da procura se tinha alterado, sendo que hoje é esta última (a procura, leia-se os consumidores) quem dita as “regras do jogo”, ao invés do sucedido ao longo de décadas (em que era a oferta quem condicionava a procura); e, finalmente, porque quando confrontadas com uma nova realidade, não souberam adaptar-se, abraçando-a e usando-a em seu favor.

Acresce a tudo isto, que estas plataformas tecnológicas facilmente ganharam adesão internacional, podendo ser utilizadas por qualquer consumidor em todos os locais ou países onde estejam presentes, o que significa, no caso do turismo, que aqueles que se deslocam ao nosso país e que já aderiram a um destes prestadores de serviços, o podem facilmente usar em Portugal, potenciando o negócio de uns e comprometendo o de outros (já nem falamos da deficiente qualidade oferecida pelos táxis a habitantes e a turistas, às vezes até com abusos, que ocorreu ao longo de anos).

Todavia, não se julgue que por todo este enquadramento só existem responsabilidades por parte das empresas proprietárias ou exploradoras de táxis. Muito pelo contrário. O Estado, a quem cabe o insubstituível papel de regulador e, consequentemente, de fiscalizador, também não foi célere na acção, deixando que a situação se arrastasse por demasiado tempo, por ausência de legislação que tanto enquadrasse esta nova actividade, como garantisse a igualdade de oportunidades no acesso ao mercado a todos os agentes económicos que operam no sector.

Este vazio jurídico – que, tanto quanto parece, apenas será colmatado no final do ano – em nada contribui(u) para a “paz social” nestas actividades. E, mais, ao anunciar que vai legislar, o Estado ainda não garantiu tratamento idêntico – responsabilidades, obrigações, requisitos de acesso, etc. – a ambos os lados, o que veio aumentar o sentimento de injustiça por parte dos táxis, já que actualmente têm que cumprir e suportar um conjunto de normas e encargos que ainda não se sabe se também abrangerão os veículos e proprietários que operam ao abrigo destas “novas” plataformas.

Concluindo, as empresas detentoras e exploradoras de táxis têm que arcar com a responsabilidade de terem cristalizado o seu negócio e agora, em desespero, tentam impossibilitar o aparecimento de concorrência – como quem tenta, com a própria mão, impedir que as águas de um rio sigam o seu curso –, mas têm toda a legitimidade para exigir do Estado um tratamento igual para todos os actores que operem, ou venham a operar, no sector.

 

Turisver.com – A Turistrela acaba de concluir um anteprojecto para a instalação de três telecabinas na Serra da Estrela para transportar pessoas até à Torre. Trata-se de um investimento de cerca de 35 milhões de euros que visa minimizar os problemas de tráfego e de corte de estradas. Que lhe parece esta ideia que deverá agora ser analisada pela Secretaria de Estado do Ordenamento do Território?

Atilio Forte – Mesmo considerando que Portugal não é um país em que o produto turístico “neve” seja dos mais procurados, acreditamos que se a Turistrela anunciou a sua vontade em avançar com um projecto desta natureza, sobretudo tendo em conta o montante do investimento (embora esteja previsto o seu faseamento), certamente que terá feito os devidos estudos quanto à sua viabilidade económica.

Para além de permitir uma alternativa no acesso à Torre, quando as estradas estão cortadas pela neve ou quando o mesmo se torna muito difícil pelo congestionamento dessa via, sabemos ser ainda objectivo da empresa “retirar” carga poluente da Serra da Estrela, através da aposta na diminuição dos cerca de 290.000 veículos que anualmente a atravessam, o que é uma medida que, naturalmente, deve ser saudada.

Pretende-se que as telecabinas fiquem instaladas em três locais distintos – uma na zona do Covão do Ferro (perto da Nave de Santo António), outra na área da Lagoa Comprida e outra em Alvoco da Serra –, que tenham uma lotação de 8 pessoas cada e que suportem ventos até 60 Kms/hora.

Embora não conheçamos em detalhe este projecto, e por isso apenas possamos fazer fé no que tem sido divulgado e, como atrás referimos, nos estudos efectuados – tanto os de índole económica e financeira, como os relativos à segurança –, acreditamos que se este equipamento avançar poderá trazer uma nova vida à Serra da Estrela, uma vez que nada obsta à sua utilização durante todo o ano, possibilitando a todos quantos a visitem uma outra visão (com e sem neve) das magníficas paisagens que a região tem para oferecer e, consequentemente, funcionando como mais um estímulo ao desenvolvimento da economia local.

 

O + da Semana:

Os nossos leitores mais assíduos estarão por certo recordados do que aqui dissemos, em Fevereiro de 2014, acerca da famosa colecção das obras de Miró e do destino a dar a esse importante património cultural no pós colapso do Banco Português de Negócios/Sociedade Lusa de Negócios (BPN/SLN). Recordamos que, na altura, sugerimos que a mesma fosse aproveitada como factor de enriquecimento e valorização cultural e turística “do” e “no” nosso país. Quase três anos volvidos, com muitas peripécias pelo meio – entre as quais um “quase” leilão internacional -, eis que, finalmente, se tomou uma decisão: expô-las em permanência na Casa de Serralves, no Porto. É uma solução que se saúda já que, por um lado, permite manter em terras lusas tão importante espólio e, por outro lado, transforma-o num pólo de atracção turística tanto para o mercado interno, como para o nosso principal mercado externo (o espanhol, de onde o artista é oriundo), sem descurar que também se constituirá como mais uma importante motivação para todos quantos, vindos de outras paragens, visitem o Porto. Por estas razões, aqueles que estiveram envolvidos neste processo decisório – do(s) Governo(s), à Câmara Municipal do Porto – merecem uma palavra de apreço pelo seu contributo para a melhoria da nossa oferta turística!