iTurismo: Transportes Aéreos Portugueses

A crise por que passa a aviação civil em todo o mundo e a necessidade de os países socorrerem as companhias de aviação, como já acontece nos EUA e no Médio Oriente, é o ponto de partida para o comentário de Atilio Forte que versa sobre a ajuda pedida ao Estado pela TAP e a hipótese de (re)nacionalização (ou não) da empresa de que tanto se tem vindo a falar.

 

Se alguma lição pode ser extraída da presente crise de saúde pública com que o Mundo se debate, é que sem mobilidade, sem capacidade de deslocação, não há Turismo! E tal prova, como temos vindo insistentemente a dizer e a defender nas últimas duas décadas e meia, que a aviação (leia-se transporte aéreo, infra-estruturas aeroportuárias, controlo, navegação, segurança e regulação aéreas) é parte integrante e peça fundamental da actividade turística e que, por essa razão, não faz qualquer sentido continuar-se a tentar “tapar o Sol com a peneira”, tutelando e tratando um dos sectores mais cruciais para a sua existência, de forma separada e diferenciada dos demais.

Para além disto, tal também significa que para voltarmos a viajar com rapidez, segurança e a preço acessível, para que os hotéis, os restaurantes, as praias, os golfes, os museus, as cidades e as ruas, enfim, os destinos, voltem a ter turistas (estrangeiros não-residentes), vai ser crítico que os diferentes países socorram as empresas do sector da aviação, nomeadamente, as companhias aéreas – como já está a acontecer nos Estados Unidos da América e no Médio Oriente –, pondo de lado os entraves legais às ajudas públicas, em particular no seio da União Europeia, interiorizando (e de uma vez por todas percebendo) que um dos muitos fenómenos da globalização foi a extinção, por evolução dos modelos de negócio, das denominadas “companhias de bandeira” na última década do século passado e actuando de maneira semelhante ao que, por exemplo, foi e tem sido feito com o sector financeiro (bancos), para que os fluxos turísticos possam, paulatinamente, ir retomando à medida que forem levantadas as obrigações de confinamento, e o sector continue “vivo” e apto para dar o salto em frente e ajudar os seus pares do Turismo, tão rápido quanto a descoberta de um tratamento ou vacina o permitam.

 

Fizemos esta breve introdução para referir que, com o anúncio da formalização do pedido de auxílio ao Estado feito na semana passada, a TAP – e o seu futuro – voltou a estar na ordem do dia, pois aos resultados de gestão menos conseguidos de que aqui já tínhamos falado no final de Fevereiro (cf. https://www.turisver.com/iturismo-por-os-pontos-nos-ii/) soma-se, agora, a quase total suspensão da actividade da companhia motivada pela pandemia que nos vai assolando, aliás em plena consonância com o que acontece, um pouco por toda a parte, com os demais sectores que integram a constelação turística.

Ora, sendo a TAP um dos temas (recorrentes) predilectos dos portugueses, em geral, e da classe política, em particular, escusado será dizer que vamos “ter pano para mangas” nos tempos mais próximos, sobretudo em torno da questão da (re)nacionalização (ou não) da empresa assunto que, antecipamos, assumirá maior relevância do que o da recapitalização propriamente dita, reabilitando-se soluções que no passado mais ou menos distante (e até no presente) provaram ser desastrosas – de que as nomeações políticas para altos cargos da sua Administração são o exemplo mais paradigmático –, desvalorizando-se a importância da estrutura accionista para o seu desenvolvimento futuro, aceitando-se “vender” parte ou a totalidade da transportadora a quem aparecer primeiro, e não a quem possua, para além de capacidade financeira, “know how”, “curriculum” imaculado e ofereça acréscimo de valor e complementaridade às suas operações ou nem sequer se aperceba que o seu mercado base (Portugal) é de reduzida dimensão sendo, por isso, imperioso possuir uma estratégia que garanta compensar essa lacuna através da “marcação de presença” noutras paragens, e poderíamos continuar…

A tudo isto acrescerá que, seguindo as práticas habituais, o “dossier TAP” terá uma enorme probabilidade de ser dado a tratar a alguém, dentro ou fora do Governo, que de aviação pouco ou quase nada saberá, para além de afirmar convictamente que a companhia é estratégica para o país e justificar essa qualificação com a realização de voos para o repatriamento de portugueses ou para o transporte de equipamento de médico em situações de emergência como a que atravessamos, conforme ainda recentemente foi possível termos oportunidade de testemunhar, ignorando que tal é algo que todos os dias é feito por outras transportadoras aéreas privadas, inclusivamente portuguesas.

 

Perante este pano de fundo é lícito que ponhamos a mão na consciência e nos interroguemos sobre se é isto que verdadeiramente queremos? Se é este o “filme” que desejamos voltar a ver, pois já sabemos de cor e salteado o seu final? Ou se é desta que aproveitamos a situação e, por fim, fazemos as coisas como devem ser? Se essa for a opção tomada, entre muitos outros aspectos deverão ter-se em consideração:

Que embora a necessidade de salvar a TAP consiga, em nossa opinião, reunir um amplo consenso nacional há, no entanto, que ter consciência que, presentemente, isso só pode ser alcançado através da intervenção do Estado, seja por uma qualquer forma que permita a injecção directa de capital na empresa, seja pelas garantias que o mesmo possa prestar e que possibilitem, como contrapartida, que a companhia vá ao mercado e consiga obter os respectivos financiamentos bancários de que necessita pois, de um ou de outro modo, serão sempre os nossos impostos que acabarão por responder.

Depois, deve definir-se com clareza quais são os parceiros com que se vai (e quer!) prosseguir, uma vez que, por um lado, alguns dos actuais já antes da disseminação do novo coronavírus tinham manifestado disponibilidade para vender a participação que detêm e, por outro lado, ser este o momento próprio para se fazer uma reflexão profunda sobre a actual estrutura accionista tomando em consideração os resultados alcançados nos anos mais recentes, com particular ênfase para a forma como foram levados a cabo os investimentos na renovação da frota, na expansão da empresa e abertura de novas rotas, nos canais de distribuição adoptados/privilegiados e nos prejuízos acumulados.

Paralelamente, convirá pôr-se de lado a discussão ideológica, embora estéril, da gestão pública Vs gestão privada, já que a única diferença que nesse plano existe é entre a boa e a má gestão! E, aqui sim, ser tremendamente exigente com as capacidades e os conhecimentos do negócio por parte de accionistas e gestores, actuais ou futuros, e das mais-valias que eles possam trazer para a empresa, tanto ao nível técnico, como da inovação, como ainda do aumento de dimensão e penetração nos mercados que proporcionem, em virtude do que isso poderá contribuir para o desenvolvimento da economia nacional e, muito em particular, do turismo português, sem esquecer uma presença mais acentuada no “mundo” lusófono.

 

Finalmente, ter bem presente a excelência dos profissionais com que a TAP conta em todos os domínios e, não menos importante, que a actual conjuntura, no meio de tanta tristeza, infelicidade e obstáculos que nos tem criado, neste caso faz com que o tempo “jogue” a nosso favor, permitindo uma grande serenidade e um profundo conhecimento na tomada de decisões, até por não ser plausível o aparecimento a curto prazo de potenciais interessados em integrar a estrutura accionista da companhia, considerando as dificuldades que o sector atravessa, e seguramente irá continuar a passar, a nível global. E se os houver devem escrutinar-se bem quais os motivos de um interesse tão súbito, em virtude de muitos “lobos se apresentarem em pele de cordeiro”, podendo mesmo disponibilizar facilidades no acesso a financiamentos imediatos que, mais tarde, possam ser convertidos numa posição determinante no capital da empresa que venha a ser avessa ao caminho de progresso económico e turístico definido pelo e para o nosso país.

Em suma e por tudo o que acabámos de dizer, apesar do muito que ficou omisso, acreditamos ter demonstrado que o tema “TAP” representa muito mais do que apenas a empresa em si mesma e merece – tem obrigação! – ser tratado por quem verdadeiramente sabe do assunto e não por um qualquer curioso “de confiança”, dado respeitar a todo a sector da aviação nacional, que é parte integrante e peça fundamental da actividade económica do turismo, o qual está há muito órfão de uma estratégia. Por isso este é o tempo de mostrarmos ter aprendido com os erros do passado e sabermos tirar partido do infortúnio do presente. Para que não voltemos a errar no futuro que podemos (re)construir para os (nossos) Transportes Aéreos Portugueses!

 

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).