iTurismo: Turismo a Mais ou Economia a Menos

O Turismo é uma das actividades em que mais se estão a fazer sentir, de forma directa, os impactos negativos da propagação do novo coronavírus. Esta situação é comentada por Atilio Forte, que aborda também os efeitos económicos como um todo e a possibilidade de encerramento de fronteiras, terminando com uma palavra de esperança: o crescimento da actividade turística na China ao longo da última semana.

 

Com a rápida propagação do novo coronavírus CoViD-19 quer na Europa, quer em Portugal, um dos muitos temas que ao longo da semana passada saltou para a linha da frente dos impactos económicos que se registam, em consequência da actual pandemia, foi o relacionado com o “peso” que o turismo detém na economia mundial, europeia e nacional, acima de tudo porque ao não serem recomendáveis as deslocações – nalguns casos mesmo, proibidas – ficou visível que a travagem súbita da actividade não só se fez sentir em todos os sectores que a integram, num primeiro momento com efeitos mais tangíveis nos dos cruzeiros e da aviação, os quais rapidamente alastraram aos restantes, a começar pelo da hotelaria como, indirectamente, afectou e prejudicou todas as demais áreas da economia, atenta a enorme transversalidade que a caracteriza.

Contudo, se de uma maneira geral tanto o Mundo, como a Europa aparentam aceitar esta “liderança” do turismo, apesar de terem consciência que se trata de uma actividade jovem – cujo desenvolvimento só se manifestou a partir da segunda metade do século XX, passando de luxo a bem essencial, e que nas duas primeiras décadas do presente milénio praticamente duplicou –, no nosso país rapidamente apareceram dedos acusatórios, recordando que Portugal é o Estado da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico em que o turismo maior percentagem detém de toda a riqueza gerada (PIB – Produto Interno Bruto), cerca de 14%, que é quem mais mão-de-obra emprega, etc., etc., num autêntico rol de indicadores que a todos nos deviam deixar orgulhosos mas que, ao invés, são manipulados e apresentados de forma a fazerem total tábua rasa do papel decisivo que a actividade teve para a regeneração da economia nacional e para que mais rapidamente saíssemos do período da crise económica mundial que eclodiu no Verão de 2008, ao qual se seguiu “o da troika”, em resultado do pedido de assistência financeira internacional que tivemos necessidade de fazer, em 2011. Grosso modo, e em abono da verdade, podia afirmar-se que (pelo menos!) 14% da nossa actual qualidade de vida diária deve-se ao turismo!

É pois com total ligeireza que muitas “eminências pardas” desfiam e destilam o seu ódio de estimação ao turismo e aos turistas, afinal aqueles que consideram como os grandes responsáveis por “alimentarem uma actividade predatória” dos recursos locais, regionais e nacionais, que subverte a prosperidade das comunidades e corrompe o seu bem-estar sem, por um único momento, pararem um pouco e pensarem, séria e verdadeiramente, sobre a situação.

O mais fácil seria que aqui agora fizéssemos uma espécie de auto laudatório do turismo, enfatizando todos quantos dele usufruem e beneficiam. Mas sabemos não ser preciso, porque a esmagadora maioria da sociedade portuguesa entende e sente bem a sua importância. Por isso optámos, por um outro tipo de abordagem que, de forma simples, pode ser expressa na seguinte questão: então porque é que não temos mais áreas de actividade económica como a do turismo? Não seria isso bom para Portugal?

A resposta é mais do que óbvia. Claro que sim! Só que, excepção feita a casos muito pontuais – como a cortiça, para dar um exemplo – e por mais que as nossas agricultura, pecuária, pesca, indústria, comércio, serviços financeiros, tecnologias de informação e comunicação, etc., tenham incorporado novas dinâmicas, tenham apostado na inovação e no desenvolvimento, na (re)criação de produtos, na qualificação dos recursos humanos, na abertura e conquista de novos mercados – a começar pelo digital –, o facto é que ainda estão longe da pujança turística revelada pelo e no nosso país.

Aliás, vale a pena sublinhar que o próprio turismo só teria (e só tem!) a ganhar com o crescimento de outros sectores e grandes áreas de actividade económica, pois para além dos fluxos que certamente atrairiam a Portugal, o seu êxito inevitavelmente reflectir-se-ia num melhor desempenho e evolução das entidades, sobretudo as empresas, e dos produtos que compõem a nossa oferta turística, para nem sequer mencionar o quanto tal robusteceria a nossa economia, desde logo porque a diversificava.

Isto quer dizer que não pode responsabilizar-se o turismo e todos os seus agentes pelo sucesso alcançado. Fazê-lo, não só é mesquinho, como demonstra uma tremenda ignorância. Se algum erro há na actual equação económica nacional não é termos turismo a mais. Muito pelo contrário. É termos economia a menos!

 

A prova que estamos a viver momentos de excepção é, nesta última semana, a discussão sobre a manutenção da abertura de fronteiras ter entrado de supetão na agenda dos vários Estados de diferentes Continentes, tendo até alguns decidido pelo seu encerramento, mesmo sem consulta prévia à contraparte ou à organização/espaço internacional a que pertencem, atitudes bem ilustradas tanto no caso da suspensão das ligações aéreas com a Europa levado a cabo pelos Estados Unidos da América, como no da Dinamarca que passou a impedir a entrada a não-residentes e que, como se sabe, integra quer a União Europeia, quer o Espaço Schengen.

Embora potencialmente perigoso, este justificável “erguer de muros” à disseminação do CoViD-19 que, acreditamos, irá alargar-se a muitos mais Estados – para não dizer a todos – nos tempos (leia-se dias) mais próximos, não só “arruma” por completo a actividade turística (o tradicional “pico” da Páscoa já se foi), como diminui significativamente todas as outras, incluindo as produtoras de bens essenciais.

Presentemente, qualquer tentativa de medição dos impactos, nomeadamente na actividade económica e no emprego, para nem sequer falar nas questões de soberania dos Estados e nas liberdades individuais pós-pandemia, é um gesto da mais pura leviandade. No entanto, de uma coisa devemos ter consciência, é que este grave problema de saúde pública arrasta consigo, desde já, um outro que se traduz em menos, muito menos economia.

 

Mas a semana passada também nos trouxe esperança! Esperança que a infecção será superada e que as nossas vidas voltarão à normalidade, apesar das marcas que, a vários níveis e por mais ou menos tempo, incontornavelmente perdurarão. E, igualmente, esperança no que respeita à actividade turística. E foi justamente do local do epicentro inicial do então “mero surto” de CoViD-19 – a China – que essa esperança nos chegou, a fazer fé nas informações divulgadas e que vamos recolhendo.

Assim, ficámos a saber que na primeira semana de Março no mercado chinês as reservas hoteleiras aumentaram 40%, comparativamente com a última semana de Fevereiro, as reservas de voos domésticos cresceram 230% em igual período e as para o mês de Junho ascenderam a +250%, sendo que as companhias aéreas chinesas reintroduziram no mercado, durante a segunda semana do mês (a que acaba de terminar), cerca de 3 milhões de lugares de avião, apesar de quase todos serem para destinos domésticos. Por seu turno, e embora ainda sem números, idênticas notícias de retoma da actividade turística também nos chegam da Coreia do Sul.

Em suma, à medida que o vírus vai sendo controlado e que os casos infecciosos vão diminuindo, a actividade económica vai dando sinais de retoma e, desde logo, vemos que há mais, muito mais turismo!

 

Não podíamos terminar o comentário desta semana sem juntar a nossa voz a milhões de outras em singelo, mas sincero, gesto de agradecimento a todos quantos, nomeadamente nas áreas da saúde e da segurança, estão na linha da frente deste combate sem precedentes, arriscando as suas próprias vidas para nos tratarem e protegerem, e apelar aos nossos concidadãos para que respeitem as instruções das autoridades competentes, particularmente, lavar as mãos com frequência, reduzir as deslocações ao indispensável, não ceder ao pânico, nem acreditar no que lêem ou ouvem que não tenha origem em fonte credível ou oficial. Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo! Todos não somos demais!!!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).