iTurismo: Turismo, “Grupo de Risco”

Com o turismo a continuar “em modo de pausa” e a necessitar, como nunca antes, de medidas de auxílio, Atilio Forte analisa, uma vez mais, a questão dos apoios do Estado ao Turismo, antecipando que estes devem contemplar verbas a fundo perdido. Refere, também, a necessidade de ajudas por parte da U.E., e traça uma analogia entre a curva da crise da saúde e a da economia.

 

Mais uma semana se passou e a triste realidade é que o Mundo continua a assistir a uma escalada do número de infectados com o novo coronavírus e, consequentemente, a um impressionante aumento de vítimas fatais, numa quase diária e dantesca sucessão de “quebra” de recordes. Infelizmente, toda a Europa e América do Norte estão agora transformadas no epicentro da pandemia, sendo que quer a América Central e do Sul, quer África (pelo enorme aumento de casos nos últimos dias), estão a escassas semanas de também entrarem no denominado “período de mitigação”, ou seja, na fase em que o CoViD-19 andará “à solta” na comunidade, sendo impossível determinar quais as respectivas cadeias de transmissão. É bom ter-se noção que, presentemente, 1/3 da população mundial está em isolamento social voluntário ou a cumprir quarentena, situação que ilustra na perfeição a magnitude do desafio com que a Humanidade se depara.

Só que este estado de coisas se nos confronta com aquele que, porventura, poderá em breve vir a ser considerado como o maior problema de saúde pública dos últimos 100 anos, igualmente nos coloca no meio de uma avalanche económica na qual, a cada dia que passa, vemos a “bola de neve” da crise aumentar quase exponencialmente e com ela a dimensão da recessão que se aproxima a passos largos. Quanto ao Turismo, e não obstante a consistência dos sinais positivos que nos continuam a chegar dos mercados asiáticos, os mesmos ainda são ténues e, por esse motivo, a actividade permanece, genericamente, em “modo de pausa”.

É por isso mais do que natural e imprescindível que, um pouco por todo o lado, os Governos vão lançando programas de apoio à sobrevivência das empresas, à subsistência do emprego e à tranquilização do sistema e mercados financeiros, de que são exemplos marcantes os aprovados na semana passada tanto pelos Estados Unidos da América (o maior da sua história), como pelo BCE – Banco Central Europeu, malgrado alguns Estados-Membro da União Europeia (UE) persistirem em resistir à emissão de títulos de dívida pública comum dos 27, frequentemente denominados “eurobonds” ou mais recentemente “coronabonds”, no caso de se destinarem especificamente a fazer face ao actual cenário gerado pela pandemia.

 

Por cá, o Governo Português voltou a rever na última quinta-feira, em maior profundidade e amplitude, o quadro de auxílio económico ao tecido empresarial, com especial destaque para o turístico, aliás na esteira do que aqui havíamos avançado que aconteceria no comentário da semana passada (https://www.turisver.com/iturismo-para-salvar-o-turismo/). Contudo, e não obstante o genuíno e inquestionável empenho posto na correcção, clarificação e ou expansão das medidas já apresentadas e do inegável esforço colocado na criação de outras com alcance mais abrangente, somos de opinião que muito em breve as mesmas voltarão inevitavelmente a terem de ser alteradas, sobretudo as que respeitam ao Turismo, dado persistirem em, por um lado, não (querer) entender alguns dos fundamentos da actividade – como o de não poder criar “stocks” – e, por isso, manterem a dilação de prazos para o cumprimento de determinadas obrigações (como as fiscais) ou o recurso a linhas de crédito bancário que, posteriormente e em ambas as situações, será preciso liquidar, e que de pouco servirão aos seus agentes económicos, pois não mais serão do que pequenos “balões de oxigénio”, totalmente insuficientes para contribuírem para a resolução do problema de fundo e, por outro lado, em não considerar que a (quase) generalidade das empresas estão sem qualquer receita mas que, para além dos salários (no seu todo ou em parte), têm ainda de suportar muitos outros custos, como sejam os de manutenção e segurança (para darmos apenas dois exemplos), de modo a impedirem a deterioração do produto (no caso do alojamento e da aviação tal é gritante), isto para nem sequer referir a ausência de liquidez das suas tesourarias que, a não ser acautelada, acabará por contaminar toda a cadeia de valor, endógena e exógena ao Turismo.

Em nossa opinião, e por muito que tal nos custe admitir, até porque foi algo com que nunca concordámos (e combatemos), qualquer ajuda ao tecido empresarial da constelação turística, constituído esmagadoramente – é bom não o esquecer! – por micro, pequenas e médias empresas, só será efectivo se contemplar verbas a fundo perdido, por exemplo para o pagamento de salários (desejavelmente com o valor a ser remetido directamente aos trabalhadores), e isenções generalizadas de cumprimento das obrigações fiscais (IVA, IRC, TSU, etc.). Apenas deste modo será possível mantermos vivas as empresas e os empregos, salvaguardarmos grande parte dos activos turísticos e estarmos prontos, com plena capacidade, para a retoma que, passada esta “tormenta”, inexoravelmente chegará.

Obviamente que o Governo tem plena consciência deste estado de coisas. Pensar o contrário seria desvalorizar as suas capacidades e as daqueles que o integram. Perguntar-se-á, então porque é que não atalha caminho e não adopta já algumas destas medidas para o Turismo, sabendo-se que ele é, não só uma actividade económica chave para a nossa economia, como uma das que mais rapidamente poderá reagir no pós-crise, nem que seja apenas a nível do mercado interno, considerando que as restrições às viagens ao estrangeiro só serão levantadas de forma mais gradual?

Desde logo deve dizer-se que neste quadro não há decisões fáceis ou tomadas de ânimo leve. Depois, não devemos desligar a questão da crise económica da razão que esteve na sua origem, o grave problema de saúde pública ou, se se quiser, a pandemia do novo coronavírus. É que, queira-se ou não, em ambas as vertentes a prudência aconselha a que se vá fazendo a gestão da situação. Não é preciso ser-se perito em saúde para perceber que se não se conseguir abrandar a velocidade de contaminação do vírus na comunidade, naturalmente isso irá provocar uma explosão de infectados e, consequentemente, uma sobrecarga do SNS – Serviço Nacional de Saúde à qual será impossível dar resposta e, portanto, que descambará, tornando-se incontrolável. Dito de outra forma, é o que todos os dias ouvimos da parte das autoridades, quando enfatizam que temos de seguir algumas regras e conselhos: ficar em casa, lavar as mãos, etc., etc.. E porquê? Para tentar que o menor número de pessoas sejam contaminadas num curto espaço de tempo, mitigando assim a possibilidade de existência de um “pico”, embora sabendo de antemão que isso fará com que a presença do vírus se prolongue entre nós. É este o significado do que nos tem sido transmitido quando se fala da necessidade de “aplanar a curva” de contágio!

 

Ora, do ponto de vista das medidas de apoio económico concedidas ao tecido empresarial, algo de muito semelhante está a acontecer, apesar de a mensagem não ser tão explícita. Como não possuímos meios próprios – seja porque somos uma economia de pequena dimensão, seja porque (já) estamos extremamente endividados –, temos de esperar por ajuda externa, nomeadamente por um pacote de auxílio vindo da UE – é por isto que as “coronabonds” são vitais! – tendo de, até lá, ir gerindo o problema, literalmente “comprando tempo”, e tudo fazendo para manter o tecido empresarial “a curar-se em casa”, recorrendo o menos possível ao “SNS”, leia-se erário, daí que se adoptem paliativos como prorrogar compromissos, comparticipar no pagamento de salários, facilitar o acesso ao crédito bancário ou aliviar os encargos das famílias para que estas mantenham algum poder aquisitivo. Como facilmente se depreende, também aqui, está a procurar-se “aplanar a curva”.

Em conclusão, se há algo que estas “duas crises” – a da saúde e a da economia – têm em comum é o que podemos designar por uma analogia das curvas! O único “senão” desta estratégia é que na da saúde desde cedo se identificou, com uma clareza cristalina, que os idosos eram o principal “grupo de risco” e que, por esse motivo, deveriam ser alvo de uma protecção mais especial; ao invés, na da economia, têm-se tratado todas as áreas de actividade por igual, sem identificar que no que respeita ao Turismo, pelas suas especificidades, sobretudo por não poder criar “stocks”, nem existir sem deslocação, por utilizar intensivamente mão-de-obra, por poder ter um efeito económico sistémico nas demais actividades, dado ser extremamente simbiótico e transversal, por ter de continuar a suportar um vasto conjunto de custos mesmo sem estar a operar e por, presentemente, não ter (quase) capacidade de gerar quaisquer receitas, carece de salvaguardas específicas dado que encarna, na perfeição, o papel de protagonista dos “grupos de maior risco da economia”!

 

Não podemos terminar este comentário sem aqui destacar que desde a semana transacta também o Turismo passou a contar nas suas fileiras com trabalhadores e empresários “heróis”, em virtude do país ter passado a dispor de unidades hoteleiras que (re)abriram para acolher profissionais de saúde, hospitais de campanha que começaram a ser equipados com a ajuda de empresas turísticas, restaurantes que passaram a oferecer refeições a quem está na “linha da frente” a arriscar a sua vida para tratar de nós ou a muitas pessoas a quem os canais habituais de ajuda não estavam a conseguir chegar, e mais um sem número de situações. Todos, sem excepção, são credores do nosso reconhecimento!

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).