iTurismo: Turismo Rural: A Oportunidade, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana, e a propósito da realização em Portugal, pela primeira vez, do VI Congresso Europeu de Turismo Rural, Atilio Forte tece comentários sobre a situação do Turismo Rural em Portugal e a oportunidade que representa o seu desenvolvimento quando, cada vez mais, os turistas buscam a genuinidade e autenticidade. Outro tema em análise é a possibilidade de aprofundamento de parcerias entre a escola e o sector privado, na área do turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Mais férias em família e menor duração das viagens em 2019: Um recente inquérito realizado pela plataforma digital de reservas turísticas “Booking.com” concluiu que entre as maiores tendências para o ano em curso estão: o aumento do número de famílias a viajarem em/como um grupo; a diminuição dos dias em viagem; um acentuar da utilização combinada de hospedagem em hotéis e alojamento local; e um crescimento das viagens responsáveis/sustentáveis.

 

  • Hotelaria americana enfrenta ventos contrários: De acordo com uma análise levada a cabo pela consultora internacional de estudos de mercado STR, o aparecimento de nova oferta e o abrandamento da economia dos Estados Unidos da América (EUA) ameaçam pôr um ponto final ao ciclo ininterrupto de crescimento que a hotelaria daquele país tem vindo a registar na última década. Segundo as previsões daquela empresa a taxa de ocupação estagnará e o preço por quarto/noite tenderá a diminuir, já em 2019.

 

  • Filipinas preparam-se para ter dois novos casinos: O empresário filipino de ascendência chinesa Dennis Uy anunciou que irá investir 1 bilião de dólares na construção de dois novos casinos naquele país asiático. O primeiro, denominado The Emerald, que ficará localizado na região de Cebu (Ilha de Mactan), tem abertura prevista para o final de 2020 e contará com 1.186 “slot machines” electrónicas, 146 mesas de jogos bancados, um complexo comercial, um centro de convenções, 18 restaurantes e um hotel de 5 estrelas com 838 quartos. Já o segundo, apelidado de Clark Resort, com inauguração prevista para 2022, oferecerá 600 “slot machines” electrónicas, 100 mesas de jogos bancados, vários hotéis com um total de 400 quartos, um complexo comercial e outro de restauração e situar-se-á na Zona Económica Especial de Clark.

 

Comentário

Turisver.com – Portugal vai receber, pela primeira vez, o VI Congresso Europeu de Turismo Rural, uma área que tem vindo a desenvolver-se no nosso País. Com os apoios que estão disponíveis para o desenvolvimento das zonas do interior, parece-lhe que este segmento da oferta deve aproveitar para se potenciar?

Atilio Forte – O denominado Congresso Europeu de Turismo Rural (COETUR), cuja sua 6ª edição decorrerá nos próximos dias 29 e 30 de Maio no nosso país, mais concretamente no município do Sabugal, é um evento cuja organização é da responsabilidade do principal portal espanhol de turismo rural (EscapadaRural.com) e tem como grandes objectivos, por um lado, ser o ponto de encontro e de debate do sector e, por outro lado, proporcionar aos seus agentes a análise dos problemas e dos desafios presentes e futuros com que se debatem.

Todos os cinco anteriores eventos tiveram lugar em Espanha e apesar de um ou outro ter contado com a participação de oradores internacionais o facto é que tanto o seu âmbito quanto o seu “público” foram quase sempre exclusivamente espanhóis.

Assim, e tratando-se da primeira vez que o Congresso se realiza fora do “país vizinho” não deve estranhar-se a escolha do tema que lhe servirá de pano de fundo “Destino ibérico, turismo rural sem fronteiras” mas, antes saudá-lo e enaltecê-lo, pois ele indicia a clara ambição de dar um salto em frente no que respeita ao sector, antecipando a “sua internacionalização”, ou pelo menos a sua “iberização”, colocando os agentes económicos portugueses e espanhóis num patamar de cooperação que aumente a sua dimensão e capacidade promocional e lhes permita captar, atrair e, se possível, fidelizar novos fluxos de turismo e tornar a Península Ibérica numa Região-Destino líder mundial ao nível deste produto turístico que vem contando com um crescente número de adeptos.

Vale a pena aqui abrir um parêntesis para recordar que, entre nós e para efeitos jurídicos e de classificação, o sector (Turismo no Espaço Rural) integra os Empreendimentos Turísticos e engloba os Hotéis Rurais, as Casas de Campo, os Agroturismos e, em casos muito particulares, também envolve franjas do que tradicionalmente se designa por Turismo de Habitação.

Feito que está o enquadramento da iniciativa e a sua tipificação, convirá referir que é com alguma expectativa que ficaremos a aguardar pelos seus efeitos e conclusões, nomeadamente, ao nível dos ensinamentos que o nosso país, os nossos empresários e demais instituições dela possam retirar, por um variado conjunto de razões que, acreditamos, merecem uma rápida explanação e de entre as quais se destacam:

Em primeiro lugar, a incessante busca do genuíno e do autêntico, mas também da vivência de sensações únicas e irrepetíveis por parte dos turistas actuais, em completa imersão com as comunidades locais, particularmente no que respeita à partilha e compreensão dos seus usos, costumes, tradições e cultura, em total comunhão com a natureza, com a preservação patrimonial (tangível e intangível) e com a sustentabilidade do(s) território(s).

A comprovar o que acabamos de afirmar está o amplo desenvolvimento que o Enoturismo tem registado nos últimos anos o qual, como se sabe, já extravasou em muito o “vinho” em si mesmo, aliando-lhe outros produtos de produção regional ou local de que os queijos, as frutas e compotas, os azeites, os doces artesanais e a gastronomia são exemplos mais paradigmáticos e cujo “ponto de união” é amiúde feito pelo Turismo Rural.

Depois, o progresso (turístico) do interior de Portugal que, apesar da atenção crescente que tem merecido por parte do Estado – Central, Regional e Local –, nomeadamente através de programas e incentivos ao investimento com essa finalidade, necessita urgentemente de robustecer a sua estrutura económica – muito para além das actividades turísticas – para que não só se possa desenvolver, como adquirir argumentos que promovam a criação de emprego, ajudando a fixar populações e, por essa via, atenuar a excessiva litoralização que assola o país.

Ora, atento o carácter simbiótico da actividade turística e os inúmeros efeitos multiplicadores que é capaz de induzir localmente, o aparecimento de mais unidades deste género será, por certo, uma preciosa ajuda e um valioso contributo para o alcançar desse desígnio.

Por último, e muito fica seguramente por dizer, porque esta é uma das formas mais expeditas e eficazes: quer de dar expressão internacional e rentabilidade a alguns produtos e investimentos, de entre os quais sobressaem os nossos Geoparques (Terras de Cavaleiros, Naturtejo, Arouca e Açores) e as Aldeias Históricas de Portugal (co-anfitriãs deste VI Congresso) que, se inseridos numa rede mais vasta e com um propósito mais amplo poderão (em definitivo) descolar da ligação mais estreita que têm mantido com o mercado interno; quer de estabelecer vínculos duradouros entre os profissionais do sector de ambos os países através de uma cooperação mais efectiva que atente e se identifique sobretudo com as múltiplas ligações ao espaço rural e continuidade territorial intrínsecas a este segmento, superando as tradicionais fronteiras geográficas; quer ainda pelos ganhos de dimensão que pode trazer ao Turismo Rural Ibérico aproveitando as óbvias sinergias existentes ao nível dos dois países e a realização de acções conjuntas e concertadas de promoção turística nos mercados emissores em que este produto tenha maior aceitação.

Portanto, e em jeito de conclusão, esta será uma excelente oportunidade que o Turismo Rural irá ter, seja para aumentar o seu potencial seja, acima de tudo, para se afirmar como produto turístico com resposta às tendências e exigências dos consumidores do século XXI.

 

Turisver.com – A escola, nomeadamente o ensino do turismo em Portugal e o sector privado têm condições para desenvolver mais a sua interligação e aprofundar parcerias?

Atilio Forte – Esta é uma das questões que, com formulações diversas, mais frequentemente nos tem vindo a ser colocada pelos nossos leitores. E com toda a propriedade, ou não fosse o turismo uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, crescentemente carente de profissionais qualificados, possuidores de “saberes” e conhecimentos académicos e técnicos que lhes permitam enfrentar o aumento de complexidade próprio de uma área da economia que, embora jovem, já é líder mundial.

Deve salientar-se que seja no domínio do ensino superior, seja no plano do ensino técnico-profissional – tanto público, quanto privado –, Portugal tem excelentes estabelecimentos educativos que, ano após ano, apresentam notáveis taxas de empregabilidade, as quais resultam da elevada qualidade formativa que possuem mas, também, do aumento das necessidades por parte de empresas e organizações que operam no turismo, muito por “culpa” do bom desempenho que a actividade turística nacional tem vindo a atingir nos últimos anos.

Não obstante este aspecto, que não deve ser menosprezado, o facto é que tanto quem educa e forma, como quem emprega, mais do que condições tem a obrigação de fazer (bem) mais e (bem) melhor, sabendo que a principal consequência dessa atitude é garantir o futuro do próprio turismo. Como tantas e tantas vezes aqui já dissemos esta é uma actividade feita por pessoas, para pessoas! E isso constitui razão mais do que suficiente para que uns e outros procurem intensificar os níveis de colaboração e interligação actuais.

Faz por isso todo o sentido que o diálogo e a cooperação entre as instituições de ensino e o tecido empresarial se aprofunde, quer através de uma maior colaboração na definição dos programas a leccionar, quer no delinear das carreiras e profissões que se perspectiva venham a revelar maiores carências ou necessidades, quer no enriquecer dos curricula das diferentes disciplinas com aspectos mais práticos ou, se se quiser, dando-lhes uma maior ligação ao “mundo real”, quer ainda no trazer para o seio educativo uma amostra concreta da vivência (e experiência) do dia-a-dia na vida activa, das pressões a que se está sujeito, da capacidade de decisão que é necessário possuir, da constante evolução do Mundo e das tendências de consumo que é preciso observar e fazer, das competências que é vital adquirir, pois será esse o ambiente em que os discentes de hoje irão trabalhar no amanhã.

Em suma, a “escola” e a “empresa” estão condenadas a entenderem-se. E é bom que o percebam! É que uma e outra só prosperarão se trabalharem em conjunto, se cada uma assumir a sua quota-parte de responsabilidade na educação, na formação e na qualificação dos profissionais vindouros. O seu (in)sucesso reflectir-se-á proporcionalmente no nosso desempenho turístico enquanto destino/país e na capacidade de atracção, realização e competência laboral dos(as) profissionais do futuro.

 

O + da Semana:

A mais recente publicação do Barómetro do Turismo Mundial da Organização Mundial de Turismo (UNWTO) revelou o “top 15” das nacionalidades dos turistas que mais gastaram nas suas viagens em 2018 e, simultaneamente, qual o percentual de aumento homólogo (2017 X 2018) nelas verificado e os locais que cada uma mais visitou. Pela importância da informação – saber quem mais receitas turísticas gera e quais os principais países que escolhe – aqui a deixamos, de forma crescente: No 15º lugar encontram-se os holandeses com perto de 17 biliões de Euros despendidos, +5,4% do que em 2017, sendo os seus destinos preferidos a Alemanha, a França, a Espanha, a Bélgica e a Áustria; em 14º aparecem os belgas com cerca de 18 biliões de Euros, +4,4% do que no ano anterior, optando por França, Itália, Espanha e Reino Unido; na 13ª posição surgem os espanhóis com quase 19,5 biliões de Euros, +13,1% do que em 2017, elegendo os Estados Unidos da América (EUA), França, Portugal, Itália, México, República Dominicana, Equador e Brasil; em 12º lugar ficaram os singapurenses com perto de 21 biliões de Euros gastos, +2,9% do que em 2017, tendo dado preferência à Malásia, Tailândia, Hong Kong, Indonésia, Taiwan, Japão e Austrália; a 11ª posição ficou ocupada pelos hongueconguenses com cerca de 22 biliões de Euros, +5,6% do que no ano anterior, não havendo informação disponível sobre as suas escolhas; no 10º lugar temos os italianos com perto de 24 biliões de Euros, +8,9% do que em 2017, os quais preferiram a Grécia, a Espanha, a Áustria, a Suíça, a França, o Reino Unido e a China; no 9º lugar surgem os sul-coreanos com quase 27 biliões de Euros, +9,4% do que em 2017, escolhendo os EUA de forma esmagadora; em 8º aparecem os russos com perto de 27,3 biliões de Euros, +12,8% do que em 2017, os quais optaram pela República Checa, pela Alemanha, pela França e pela Polónia; os canadianos vêm em 7º lugar com aproximadamente 28 biliões de Euros, +7,8% do que em 2017, elegendo o México, os EUA, a República Dominicana, a Jamaica, a França, a Itália e o Reino Unido; no 6º lugar aparecem os australianos a despender perto de 30 biliões de Euros, +8,3% do que em 2017, com a Nova Zelândia, Indonésia, EUA, Reino Unido, Tailândia, China e Singapura no topo das suas escolhas; em 5º os franceses com gastos a rondarem os 36,4 biliões de Euros, +1% do que em 2017, preferindo Portugal, Bélgica, Alemanha, Reino Unido, Itália e Espanha; na 4ª posição encontramos os britânicos com quase 62 biliões de Euros gastos, +1,4% do que em 2017, dando preferência à França, à Espanha, à Itália e aos EUA; em 3º lugar surgem os alemães com um valor a rondar os 78 biliões de Euros, +9,4% do que em 2017, elegendo os EUA, a China, a Tailândia, as Caraíbas, o Egipto e o Canadá; na 2ª posição estão os americanos com perto de 120 biliões de Euros, +9,3% do que em 2017, os quais escolheram o México, o Canadá, o Reino Unido, a República Dominicana, a França e a Alemanha; finalmente, em 1º lugar surgem os chineses com quase 226 biliões de Euros, +4,7% do que no ano anterior mas, infelizmente, sem que exista informação sobre as suas preferências.