iTurismo: Um Aeroporto Inteligível, por Atilio Forte

Deve a aparente inércia em relação ao aeroporto complementar à Portela ser um dos temas da campanha eleitoral que se aproxima? Este é um dos temas abordados por Atilio Forte no iTurismo desta semana, bem como a importância da informação sobre os destinos transmitida por agentes de viagens ao consumidor, na compra das suas férias.

 

Tópicos da Semana:

  • Uber vai lançar serviço de helicóptero em Nova Iorque: A partir do próximo dia 9 de Julho a empresa Uber Technologies vai passar a operar um serviço de transporte de passageiros em helicóptero entre o aeroporto nova-iorquino John F. Kennedy e a baixa de Manhattan, com a denominação “Uber Copter”. O preço médio deste “transfer” situar-se-á entre os 200 e os 250 Dólares por pessoa.

 

  • Tratar bem quem atende/lida com o cliente gera mais lucros: Que o turismo é uma actividade económica feita por pessoas para pessoas é uma evidência que há muito vimos sublinhando. Por isso não deve estranhar-se que muitos peritos evidenciem que as empresas turísticas que façam uma boa gestão dos recursos humanos que estão na “linha da frente” do atendimento ao cliente, transmitindo-lhes confiança, reconhecendo o seu trabalho e dando-lhes incentivos, têm maior probabilidade de virem a ser recompensadas, não apenas com colaboradores mais empenhados nas suas tarefas mas, também, nos seus resultados de exploração.

 

  • Tecnologia impulsiona parques temáticos: Muitos parques temáticos têm optado por recorrer ao uso de novas ferramentas tecnológicas, nomeadamente a realidade virtual e a realidade aumentada, quer para atraírem mais público, quer para incrementarem o nível de satisfação dos seus clientes que, quase sempre, optam por experimentar várias vezes as atracções que proporcionam este tipo de oferta, de modo a poderem avaliar o que perderam nas “voltas” anteriores.

 

Comentário

 

Turisver.com – O tempo vai passando, já estamos a pouco mais de três meses das Eleições Legislativas e o aeroporto complementar à Portela continua sem avançar. No seu entender, este é um dos temas para a campanha eleitoral que aí vem?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que, pela sua objectividade, esta é uma pergunta da maior pertinência! E, por esse motivo, entendemos que a mesma é merecedora de uma resposta sem rodeios que, em nossa opinião, terá sempre de ser afirmativa. Contudo, não se julgue ou pense que ela poderá tornar-se fácil de concretizar. Mas, vamos por partes:

Do que tem sido noticiado, sabe-se que a ANA – Aeroportos de Portugal já concluiu e entregou (em Abril) à APA – Agência Portuguesa do Ambiente o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) relativo à instalação na Base Aérea nº 6 (Montijo) de um novo aeroporto complementar ao Humberto Delgado (Lisboa). No início de Junho foi a própria ANA quem deu nota que recebeu por parte daquele organismo público um pedido de esclarecimentos adicionais, adiantando que daria satisfação aos mesmos no prazo de um mês, ou seja, até ao começo de Julho.

Só após tal ser realizado é que a APA estará em condições de avaliar da conformidade, ou não, do referido estudo, sendo que no caso de a dita vir a ser atestada seguir-se-á o período legal de consulta pública do mesmo (60 dias), findo o qual aquela entidade terá de emitir o seu parecer. Ou seja, se nos cingirmos estritamente a estes passos – esclarecimentos da ANA sensivelmente até ao fim da primeira quinzena de Julho, apreciação de conformidade por parte da APA e consulta pública obrigatória – facilmente verificamos que, na melhor (e mais optimista) das hipóteses, a decisão final praticamente coincidirá com a data das próximas Eleições Legislativas (6 de Outubro).

Justifica-se assim que tenhamos começado por fazer esta nota introdutória pois, em nosso entender, ela é determinante quer para o desfecho do processo (se o EIA for “chumbado” volta-se à “estaca zero”), quer para a definição de uma posição por parte dos diferentes Partidos Políticos que se apresentarão ao acto eleitoral que definirá a constituição do novo quadro parlamentar e, consequentemente, de onde sairá o Governo para a próxima Legislatura.

Perante este cenário, e tendo (bem) presente os inúmeros avanços e recuos que este processo tem conhecido ao longo das últimas décadas, a obtenção de uma posição inequívoca por parte das várias “forças políticas” não se nos afigura simples ou tranquila, mais a mais se atendermos ao “súbito despertar de consciência” da classe política para as questões ambientais, em virtude do “peso” crescente que elas têm vindo a ganhar junto dos eleitores. E, claro está, mesmo que o novo aeroporto complementar de Lisboa obtenha “luz verde ambiental”, haverá sempre quem o conteste desse ponto de vista, antecipando um (pretenso) caos ecológico. Foi o que se passou aquando da construção da Ponte Vasco da Gama… e, no entanto, ela lá está e, mais importante, actualmente até há quem defenda com base científica que ela serviu de elemento protector da biodiversidade local.

Na prática isto pode significar alguma relutância em assumir uma posição clara sobre o assunto por parte dos Partidos Políticos (pelo menos de alguns), seja pela falta do parecer final da APA, em que se escudarão, seja por recearem que tal possa comprometer a sua votação, seja por não quererem trazer para a campanha eleitoral um tema que sabem à partida (poder) ser controverso e que, aparentemente, não lhes dará grande penetração eleitoral seja, ainda, porque no seu íntimo nunca compreenderam bem as múltiplas valências de uma infra-estrutura desta natureza, que transcende em muito as necessidades turísticas do país, já que também é determinante para o global da nossa economia, e para a soberania e independência nacionais, enquanto “placa giratória” e intermodal de passageiros e carga.

Chegados a este ponto, temos para nós que só há uma forma de garantir que, por uma qualquer das razões apontadas, este tema não passe “ao lado” dos compromissos eleitorais e faça parte das “promessas” políticas, tanto de quem for Governo, como de quem estiver na oposição, a qual tem de ser obrigatoriamente assegurada e fundamentada pelos diferentes actores económicos e, muito em particular, pelos turísticos.

Deste modo reveste-se de importância primordial explicar (e justificar) à opinião pública, em geral, e aos Partidos Políticos, em particular que, mais do que um mero equipamento, um aeroporto é um instrumento fundamental da política económica e, acima de tudo, da política de turismo. Tal como uma escola ou um hospital o são para a educação ou para a saúde. E, para isso, aqueles que forem eleitos como “representantes dos(as) portugueses(as)” têm de perceber que Portugal não tem – nem nunca teve! – uma estratégia para o sector da aviação (para não recuarmos muito no tempo, basta analisar-se o sucedido no que respeita à concessão da ANA ou as peripécias a que assistimos em torno da privatização da TAP) e que, tão ou mais grave, persiste em não considerar o sector (Aviação) como parte integrante e peça fundamental da actividade económica do turismo, fazendo “tábua rasa” do facto de cerca de 80% dos turistas que recebemos chegarem ao nosso país por via aérea (!).

Consequentemente, se se quiser continuar a desenvolver de forma sustentável a área da economia que mais tem contribuído para a criação de riqueza, emprego e progresso em Portugal nos últimos anos, é fundamental que as decisões tomadas tenham em conta os constrangimentos que o turismo enfrenta, sobretudo aqueles que apenas dependem da intervenção (e vontade) nacional, já que muitos há que nos transcendem porque não decorrem de qualquer possibilidade de acção directa da nossa parte.

Em simultâneo, e seguindo esta linha de raciocínio, torna-se indispensável provar e demonstrar com total clareza, que hoje em dia só têm futuro os destinos que forem sustentáveis – pelas boas práticas e pela constatação e percepção dos consumidores –, o que implica ter uma “agenda turística”, defensora da biodiversidade, para as questões ecológicas e ambientais a qual, para que não restem dúvidas, por um lado, deve ilustrar de modo inequívoco que o turismo é, e será sempre (cada vez mais), o maior aliado – e o maior interessado – em preservar a nossa “herança” natural, pois dela depende o seu futuro e, por outro lado, para afastar qualquer acusação de delapidação da natureza e dos recursos e activos que esta coloca ao seu/nosso dispor, assumindo empenhadamente o compromisso da sua fruição com parcimónia.

Para concluir, e como cremos ter justificado, o turismo não pode ficar à espera que a construção do novo aeroporto complementar de Lisboa se transforme, por “obra e graça” da vontade dos Partidos Políticos, num tema “obrigatório” da campanha eleitoral que se avizinha. Tem de trabalhar, e muito, para que tal aconteça. E, principalmente, saber valer-se de toda a sua inteligência e dos modernos fundamentos em que actividade assenta para o tornar inteligível!

 

Turisver.com – Estamos na época do ano em que maior número de viagens de lazer são comercializadas nas agências de viagens, mesmo tendo em conta que o cliente é cada vez mais bem informado sobre os destinos para as férias, está longe de ter um conhecimento pormenorizado de algumas situações. Na sua perspectiva o informar o cliente por parte do agente, mesmo quando a informação a transmitir pode levar o mesmo a não adquirir a viagem é um dever?

Atilio Forte – Gostaríamos de começar por dizer que esse é não apenas um dever por parte de quem vende como, igualmente, um direito de quem compra. E estamos em crer que, no que à esmagadora maioria das agências de viagens nacionais respeita, é exactamente isso que acontece, quanto mais não seja porque sabem que um consumidor insatisfeito ou decepcionado ou, pior, que se sinta defraudado, mais do que um cliente perdido, é um veículo permanente de “má opinião/informação” atenta quer a facilidade com que hoje se avalia e compara qualquer produto quer, sobretudo, a importância e a consideração em que são tidas as análises (“reviews”) feitas pelos próprios consumidores no ciberespaço, muito em particular nas redes sociais ou em sítios especializados para o efeito que levam, infelizmente, a que bastas vezes se lhes atribua maior credibilidade do que às de quem conhece o produto e tem competências e formação para o aconselhar (ou não).

Para além disto, e atentas as características humanas da actividade turística (feita por pessoas para pessoas, como tantas vezes dizemos), as relações entre vendedor e comprador só serão duradouras se alicerçadas na confiança do segundo no primeiro, a qual só se consegue conquistar pela verdade, transparência de processos e profundos conhecimentos técnico-profissionais. Ora sabendo nós o quão árduo é hoje em dia captar um cliente, não é difícil imaginar-se o tremendo esforço que é necessário para o manter e, principalmente, fidelizar. Daí ser totalmente contrário à própria natureza (e sobrevivência) do negócio omitir ou distorcer informação. Presentemente isso é algo que, quase sempre, acaba por ter um custo elevadíssimo.

Salvaguardadas algumas excepções que, quer queiramos quer não, sempre existem, o que se passa, com frequência crescente, é que os consumidores têm cada vez mais ao seu dispor – à distância de um clique – a facilidade de serem eles a reservar e comprar a sua viagem, pois têm acesso directo aos fornecedores e à descrição do que pretendem adquirir. Só que a maior parte não conhece os meandros da actividade e não está habituada a lidar com tamanho volume de informação acerca de um determinado produto ou serviço sendo, por esta razão, muito fácil “perder-se” na internet ou interpretar incorrecta e/ou deficientemente o que lhe é transmitido, isto para nem sequer mencionar o (poder) ser enganado.

O que não é tão difícil quanto se possa julgar, muito mais numa era onde é relativamente simples transformar o virtual em real. Ainda há dias soube-se que alguém tinha “criado” um hotel de luxo algures em Inglaterra, com o respectivo sítio na “world wide web” apto a aceitar reservas e o correspondente pagamento, com comentários e análises excelentes de supostos clientes “espalhados” um pouco por todo o lado, tendo-se no final descoberto que na morada indicada não existia qualquer hotel (tratava-se de um lote de terreno vazio) e, portanto, que alguns incautos tinham caído naquilo que comummente se designa por “conto do vigário”…

Não se infira das nossas palavras que defendemos o recurso e uso exclusivo das agências de viagens (físicas ou digitais). Ou que condenamos os consumidores que escolhem utilizar os (novos) meios que têm ao seu dispor. O que pretendemos sublinhar, e de certa forma alertar, é que é sempre melhor ter-se aconselhamento profissional, para obviar qualquer surpresa desagradável ou, caso tal se verifique, para que tenhamos a quem nos dirigir e apresentar a respectiva reclamação. Que é o que sucede no nosso país em que até existe um “Provedor do Cliente” – algo em que fomos pioneiros – criado pela associação representativa do sector, para assistir e garantir os direitos dos clientes e, também, salvaguardar os interesses e o bom nome empresarial das suas filiadas.

 

O + da Semana:

Uma das boas iniciativas do actual Governo foi a criação do Programa Revive que tem por finalidade promover a requalificação e o aproveitamento turístico de 33 imóveis detidos pelo Estado português (dispersos pelo território nacional), com reconhecido interesse histórico e patrimonial, de modo a transformá-los em activos económicos, passíveis de gerarem riqueza e emprego. Desde o seu lançamento e até ao momento este Programa Interministerial, que envolve os Ministérios da Economia, da Cultura e das Finanças, já lançou 17 concursos públicos internacionais, com o objectivo de concessionar por 50 anos cada um dos referidos imóveis, sendo que no passado Sábado foi inaugurado em Elvas o primeiro projecto executado ao seu abrigo, resultante da recuperação do antigo Convento de São Paulo feita pelo Grupo Vila Galé (Vila Galé Collection Elvas – Historic Hotel, Conference & Spa). Paralelamente, têm também sido desenvolvidas parcerias com outros países do “Espaço Lusófono” com o propósito de promover a reabilitação de património histórico edificado com ligações à lusofonia. De entre elas destacam-se as realizadas com São Tomé e Príncipe, Angola, Cabo Verde e, desde o passado dia 21, com o Brasil, mais concretamente com o Estado da Bahia que, assim, também se comprometem com os mesmos objectivos previstos pelo Programa Revive, em Portugal. Pela importância que tal tem para preservação da cultura lusófona e para a dinamização da actividade turística, aqui deixamos o nosso aplauso.