iTurismo: Um Carnaval Mais Autêntico, por Atilio Forte

O impacto que os festejos relacionados com o Carnaval já começam a ter no turismo interno, bem como o bom momento nas relações entre Portugal e Angola, que se estendem também à actividade do turismo, são comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana.

Tópicos da Semana: 

  • ALICE, a resposta tecnológica para as tarefas que não requerem um sorriso: Esta plataforma baseada em tecnologia “cloud”, que é capaz de coordenar várias funções que têm de ser levadas a cabo num hotel, está a ser promovida (e vendida!) como a melhor forma de aumentar a simpatia e a atenção dedicada aos hóspedes, dado “aliviar” muitos trabalhadores das tarefas mais fastidiosas e rotineiras. Segundo Alexander Shashou, Presidente da ALICE, “se se conseguir afastar as pessoas da obrigação de executarem muitos dos seus afazeres mais triviais, isso pode aumentar a interacção humana, já que elas passam a ter mais tempo para dedicarem e cuidarem das necessidades dos clientes”.
  • Tecnologia é o maior aliado do turismo na hiperpersonalização das viagens: Na opinião de muitos especialistas a Inteligência Artificial e o aparecimento de equipamentos capazes de aprenderem e apreenderem os gostos individuais de cada um tem vindo a permitir que a actividade turística ascenda a um outro patamar no tipo dos serviços que oferece e presta. Por essa razão defendem que a hiperpersonalização continuará a dominar o desenvolvimento tecnológico do turismo e, consequentemente, a ver aumentado o seu grau de importância.
  • Hotéis com quartos a partir de quatro dígitos: O Burj Al Arab Jumeirah no Dubai, o Four Seasons Tented Camp Golden Triangle na Tailândia e o Royal Mansour em Marrocos são apenas alguns exemplos de unidades de topo cujo preço por quarto/noite é superior a 1.000 dólares. Claro está que por este valor as expectativas dos seus hóspedes são extremamente elevadas… mas não ficam desiludidos, já que lhes são proporcionadas todas as atenções e mordomias!

 

Comentário:

 

Turisver – O Carnaval já tem um considerável impacto no turismo interno, sendo muitos os portugueses que nesta época do ano se deslocam para visitar ou mesmo passar alguns dias nas regiões do país onde as celebrações carnavalescas já têm tradição. O clima ameno que temos em Portugal nesta época do ano (época de grande sazonalidade turística), os eventos que já se realizam, a dispersão regional que provoca, poderiam na sua opinião potenciar  um cartaz com expressão internacional?

 

Atilio ForteÉ um facto que, a cada ano que passa, a multiplicidade de eventos e festejos associados ao Carnaval tem vindo a conquistar uma crescente adesão por porte dos(as) portugueses(as), à semelhança do que se passa noutras paragens, sendo aproveitados não apenas pelos mais foliões como forma de descontracção e diversão mas, também, por muitas pessoas como pretexto para um curto período de férias ou de lazer, em muitos casos associado a viagens de reduzida duração pelo país, seja em família, seja com amigos.

E se é verdade que muitos “carnavais” nacionais são influenciados ou tentam adaptar fórmulas mais afamadas de outros “entrudos” que se realizam por esse Mundo fora – o brasileiro é o mais emblemático –, outros há que têm a preocupação de manter bem vivas algumas expressões das nossas tradições e cultura, tanto no que respeita aos corsos como, igualmente, a um sem número de manifestações paralelas que vão desde a gastronomia ao envolvimento das (e com as) comunidades locais.

O certo é podermos afirmar que, apesar das suas declinações, a celebração do Carnaval é actualmente um fenómeno (quase) global, que mobiliza milhões de pessoas, atraindo e envolvendo um crescente número de participantes e até fluxos turísticos externos, nas situações de maior notoriedade, que transcende em muito os “mercados internos” onde tem lugar. Mesmo pondo de lado os “notáveis brasileiros” – “carioca”, “paulista” ou de Salvador –, a verdade é que o Mardi Gras de Nova Orleães, o Carnaval de Veneza ou o de Barranquilla na Colômbia, para enumerarmos apenas alguns dos mais famosos, são exemplos que ilustram na perfeição a sofisticação e a dimensão que este tipo de festividades já alcançou.

Portanto, com elevado grau de segurança é possível afirmar que esta é uma tipologia de eventos que deve merecer toda a atenção por parte dos diversos agentes turísticos, em geral e, por maioria de razão, dos do nosso país, em particular.

É que do ponto de vista turístico o Carnaval é (ou pode ser) muito mais do que apenas uns dias de intervalo lúdico, que nos permite descansar, descontrair e divertir. Pode e deve ser transformado num verdadeiro produto, que passe a integrar a oferta turística nacional!

Contudo, para que se possa dar corpo a essa “nova” realidade deverão ter-se em atenção alguns aspectos, de entre os quais a genuinidade e a atractividade são, em nossa opinião, aqueles que mais se destacam. E porquê?

A genuinidade porque hoje em dia a tendência de consumo é a busca (incessante) pelo único, pelo irrepetível, pelo autêntico, ou seja, pela vivência de experiências e emoções que possam ser marcantes tanto para o turista, como utilizadas por este como factor de “auto promoção” junto daqueles com quem se relaciona (família, amigos, colegas de trabalho ou, simplesmente, “parceiros” de redes sociais).

Isto quer dizer que esse objectivo só pode ser atingido se os nossos “carnavais” se expurgarem do que não é “verdadeiramente” português, do que foge às nossas tradições e cultura, sem que tal belisque a brincadeira, o humor e a sátira tão próprias do (qualquer que ele seja) Entrudo, caso contrário o turista confrontar-se-á com uma realidade “déjà vu” em versão (quase sempre) de qualidade inferior à original.Exemplificando, isso significa valorizar a música popular portuguesa, os cabeçudos ou os caretos, que são nossos e autênticos, em vez do samba ou das baianas “d’além mar”.

A complementar este “regresso ao que é nosso” deve enfatizar-se a gastronomia (em que a feijoada é rainha) e a doçaria tradicionais desta época, “regadas” a preceito com os nossos (excelentes) vinhos e demais bebidas espirituosas típicas, bem como a possibilidade de imersão com as comunidades locais, deixando que a (afamada) hospitalidade lusa faça o resto.

Quanto à atractividade porque, felizmente, muitas das nossas celebrações do Entrudo já são detentoras de assinalável dimensão – num ou outro caso até internacional –, contando com alargada participação de gentes de todo o país (ninguém imagina um Carnaval pouco “concorrido”) e, como é dito no enunciado da pergunta colocada, beneficiando quer do agradável clima de que dispomos (este ano terá sido a excepção que confirma a regra), quer destes festejos ocorrerem durante a denominada “época baixa” (nos meses de Fevereiro ou Março, consoante o ano), situações que podem tornar mais apetecível e acessível a captação de fluxos turísticos para o nosso país, sobretudo se tivermos em consideração que os nossos principais mercados emissores são de proximidade (Centro e Norte da Europa), têm condições climatéricas mais adversas nesta altura do ano e que, em muitos deles, também existe pausa escolar.

A somar às razões invocadas está a inegável qualidade e diversidade da nossa oferta turística continental e insular, concentradas num território de diminuta extensão, a qual, cada vez mais, vêm granjeando o reconhecimento internacional.

Assim, e como acreditamos ter demonstrado, Portugal tem todas as condições para fazer crescer o seu turismo nesta altura do ano de sazonalidade mais acentuada, se souber valorizar, com genuinidade e atractividade, as suas celebrações carnavalescas e, por essa via, transformá-las numa verdadeira oportunidade de captação de mais fluxos turísticos, principalmente no segmento das estadas de curta duração (vulgo “short breaks”). Mas, para que isso seja possível, tem de passar a levar o Carnaval “mais a sério”, tornando-o mais autêntico, isto é, mais português!

 

Turisver – São evidentes as boas relações que actualmente Angola tem com Portugal. Num período em que este país pretende diversificar a sua economia e fazer uma aposta no turismo, não lhe parece acertado que o nosso país considere estreitar os laços turísticos com Angola?

 

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que esta deveria ser uma prioridade tanto dos Governos de ambos os países, como dos seus agentes turísticos. Mais a mais, num momento em que não só há sinais claros de tentativa de redução da dependência do petróleo por parte de Angola como, tão ou mais importante, de retoma da sua economia.

Vale a pena aqui recordar que nos últimos anos aquele país africano tem atravessado uma profunda recessão económica, bem espelhada nos 2,6% em 2016, nos 0,1% em 2017 e nos 1,1% em 2018 (previsão) de contracção do seu Produto Interno Bruto (PIB), o qual se espera venha a crescer cerca de 2,5% este ano, invertendo assim a tendência que se vinha verificando.

Estas “boas notícias” devem-se tanto às reformas económicas e políticas levadas a cabo no último par de anos, como aos primeiros impactos positivos que o programa de ajustamento desenhado pelo Governo angolano e aprovado e apoiado pelo FMI – Fundo Monetário Internacional começa a dar, na sequência do pedido de assistência financeira internacional realizado por Angola.

Deste modo faz todo o sentido – e temo-lo dito (e defendido) inúmeras vezes – que Portugal coopere com Angola neste seu “virar de página” económico, ajudando a que este país explore e potencie todo um conjunto de actividades que possam contribuir para que, em definitivo, a sua economia entre num novo ciclo, que se quer mais diversificado, mais dinâmico e de maior crescimento, com tradução efectiva na criação de riqueza e emprego.

E, não há área da economia em que Angola tenha tanto potencial, mas que esteja tão desaproveitada, como a do turismo. Quem conhece ainda que superficialmente o país tem plena noção do seu potencial turístico. Mas também sabe do muito que há a fazer para o tornar atractivo e apetecível aos olhos dos mercados internacionais, desde a melhoria das infra-estruturas à segurança, do saneamento à educação, do acesso aos cuidados de saúde à circulação dos capitais, dos estímulos ao investimento à celeridade da justiça, do planeamento à estruturação da oferta turística, da regulamentação dos diferentes sectores que integram a constelação do turismo à formação dos seus dirigentes e gestores, para só darmos alguns exemplos.

Naturalmente, Portugal não só deve como tem obrigação de contribuir para que este país “irmão” supere o momento menos bom por que passa e possa “abrir-se” ao turismo, disponibilizando-se para colaborar em todos os aspectos que forem entendidos como necessários, aproveitando os laços históricos que unem ambos os povos, valorizando a sua língua comum, tirando partido das amplas comunidades de cidadãos – angolanos e portugueses – que residem em cada um deles, tendo bem presente que esta é uma das regiões do globo que nas próximas décadas maior evolução demográfica e progresso económico irá ter.

Pese embora Angola seja já um dos “gigantes” de África, ao longo dos anos vindouros assistiremos, com toda a certeza, ao acentuar desse seu papel primordial, primeiro na Região Subsariana e, em seguida, estendendo-se a todo o Continente, o que pode (vai!) significar uma imensidão de novas oportunidades para as empresas dos dois países, mormente no que ao turismo se refere. Desde que aprendam a cooperar. Desde que confiem umas nas outras. Desde que olhem mais para o que as une do que para o que as divide.

Mas, como diz o povo na sua infinita sabedoria, o exemplo vem de cima. Por isso os primeiros passos cabem aos dois Estados. Ora sabendo nós o quanto o turismo contribui para o estreitar dos mais diversos laços entre povos e sendo inequívoco o regresso da harmonia às relações entre ambos os países, bem patente no empenho que os respectivos Presidentes da República têm posto em toda essa retoma, a iniciativa está agora entregue aos seus dois Executivos. Por isso é com expectativa e, confessamos, alguma esperança, que aguardamos para ver qual o papel que reservarão para a actividade. Angola já deixou bem clara a sua vontade, disponibilidade e abertura à cooperação turística com o nosso país. Cabe agora a palavra a Portugal…

 

O + da Semana:

No início do corrente mês o CNIG – Conselho Nacional da Indústria do Golfe anunciou os indicadores relativos à actividade em Janeiro do ano em curso, os quais revelam um aumento homólogo acima dos 7% – 7,3% para sermos exactos – no número de voltas realizadas em campos nacionais, o que vem acentuar a tendência verificada neste mês nos últimos dois anos. Assim, em Janeiro de 2017 aconteceram 106.725 voltas, em Janeiro de 2018 114.950 e em Janeiro de 2019 123.324. Deve também destacar-se que cerca de dois terços das ditas foram jogadas no Algarve, confirmando-se a importância do golfe para a atenuação da sazonalidade naquela Região. A segunda posição foi ocupada pela Região de Lisboa, com um aumento de 11,6% em igual período, traduzido em quase 19.000 voltas. Pode pois dizer-se que o sector volta a iniciar o ano da melhor forma, apesar do aumento da concorrência internacional que enfrenta e, sobretudo, da constante perda de competitividade com que se tem de debater em virtude de muitos dos seus (nossos!) principais concorrentes terem uma fiscalidade “mais amiga” do golfe, o que torna cada vez mais incompreensível e insustentável a manutenção da taxa do IVA a 23% sobre este produto estratégico e vital para a actividade turística portuguesa.