iTurismo: Unidos na Diversidade, por Atilio Forte

As possíveis mudanças na Europa no acolhimento a turistas de diferentes culturas com o potencial aumento de deputados de partidos extremistas no Parlamento Europeu é um dos temas abordados por Atilio Forte no iTurismo desta semana. Ainda relativamente às eleições que se aproximam, a importância da participação do Reino Unido e o que isso ditará para o seu futuro e para o turismo em tempos de Brexit é outro dos temas analisados.

 

Tópicos da Semana:

  • Turismo americano regista maior quebra dos últimos 4 anos: De acordo com o mais recente relatório da U.S. Travel Association o número de chegadas internacionais aos Estados Unidos da América caiu 5,4%, na comparação homóloga até ao final de Março, mesmo descontando o “efeito Páscoa”, o que faz deste desempenho o pior desde 2015. Apesar de algumas medidas entretanto tomadas pelo Governo daquele país, como a do alargamento do número de Estados cujos cidadãos não necessitam de visto de entrada, as perspectivas de erosão mantêm-se, pelo menos, para os tempos mais próximos. A única boa notícia é que a procura turística interna aumentou 2,8% no mesmo período.

 

  • Carregadores sem fios são a mais recente comodidade adoptada nos quartos dos hotéis: A empresa Courant veio revolucionar (e facilitar) a vida a muitas unidades hoteleiras, pois criou um carregador universal para dispositivos móveis que não necessita de fios, obviando que quem queira oferecer esse tipo de serviço já não tenha de estar munido com os acessórios adequados a todo o tipo de equipamentos deste género que estão disponíveis no mercado.

 

  • Hotelaria adopta cada vez mais sistemas “self-service”: É crescente o número de hotéis que recorre à implementação de sistemas “self-service” para efeitos tão diversos como a realização do “check-in” ou o serviço de bebidas nos quartos, procurando desta forma dar resposta às exigências por parte dos seus clientes de maior eficácia e menor demora dado, com frequência, confrontarem-se com manifestações de desagrado quando estes se vêem na contingência de esperar ou enfrentar uma fila, até serem atendidos.

 

Comentário

 

Turisver.com – As próximas Eleições Europeias poderão dar aos partidos extremistas um significativo aumento de Deputados no futuro Parlamento Europeu. Tendo em conta que, a nível mundial, o continente Europeu é o que mais fluxos turísticos recebe, na sua opinião o que poderá mudar no acolhimento aos turistas provenientes de países e culturas diferentes?

Atilio Forte – Gostaríamos de começar por referir que, sem dúvida alguma, esta é uma excelente pergunta não apenas pela abrangência do tema mas, principalmente, porque a sua resposta contribuirá – assim o esperamos – para ilustrar a transversalidade e a pluridisciplinaridade que a actividade económica do turismo encerra. Mas, vamos por partes…

Há um par de semanas tivemos oportunidade de aqui abordar (e lamentar) a pouca importância que, de um modo geral, as diferentes “forças” Partidárias atribuem a estas Eleições, bem expressa na omissão do debate que fazem das grandes questões da Europa dos 28 em favor dos aspectos da política interna de cada Estado- Membro da União Europeia (UE). Então sublinhámos que este não era um problema exclusivo do acto eleitoral que ocorrerá entre hoje e o próximo Domingo, mas de um desinteresse progressivo que, com o passar do tempo, tem vindo a acentuar-se, e que é fruto quer do aproveitamento do alheamento que a maioria dos cidadãos europeus revelam para as questões relacionadas com a UE, quer da fórmula fácil que os Partidos Políticos encontraram para “ganhar votos”, limitando os seus argumentos a matérias nacionais ou internas e, simultaneamente, transformando quase sempre as Eleições Europeias numa espécie de “Referendo” aos respectivos Governos.

Contudo, queira-se ou não, a origem mais profunda desta situação reside na quase total falta de informação e esclarecimento que os eleitos dão aos eleitores sobre as matérias que tratam, decidem e votam durante o seu Mandato nos diferentes organismos europeus, cavando o fosso da distância e, quando pressentem o descontentamento popular, ao invés de explicitarem as suas posições “apontam o dedo a terceiros” que, inevitavelmente, responsabilizam pela aprovação/adopção da medida em causa.

Não admira pois que, com o passar dos anos, as instituições comunitárias sejam mais olhadas como um obstáculo ou uma fonte de contrariedades, impositora de normas e regras, do que como verdadeiras promotoras da paz, da liberdade, da coesão económica e social e respeitadoras das diferenças entre países, princípios que estiveram na sua génese e presidiram à fundação da (então) CEE – Comunidade Económica Europeia.

A estes ingredientes deve juntar-se a crescente dicotomia que foi sendo construída na UE entre os países mais ricos – localizados no Centro e Norte – e os mais pobres – situados no Sul – em virtude dos primeiros entenderem que por serem “quem paga a maior parte da conta” podem (ou têm direito a) impor a sua vontade política e económica, fazendo “tábua rasa” da diversidade e da máxima “todos diferentes, todos iguais”.

Como se tudo isto já não bastasse, tanto o envelhecimento da população europeia, como a consequente necessidade de “importar” mão-de-obra, a que se juntaram as crises económicas, o desemprego e a incapacidade política para lidar com questões como a dos “migrantes” vieram pôr em causa o chamado “Estado Social Europeu”, de forma mais particular nos países que integram a moeda única (Zona Euro), abalando (e questionando) a confiança no “Projecto “Europeu”, e dando azo ao recrudescimento de nacionalismos, populismos, extremismos e outros “ismos”, que (todos) julgávamos já estarem enterrados pelas lições da História…

Em síntese, a “União da Igualdade” transformou-se, paulatinamente, numa Comunidade de países de “primeira” e de “segunda”, trazendo à tona todas as clivagens, prepotências e injustiças que se julgava estarem (e terem sido) ultrapassadas, levando ao agitar das “bandeiras” da autodeterminação e da defesa dos interesses nacionais de cada um dos Estados-Membro e pondo a nu as deficiências reveladas pelos Partidos Políticos pró-europeístas que, década após década, foram incapazes de compreender a evolução do Mundo e, muito principalmente, da própria UE que tinham ajudado a construir.

Assim sendo, em nossa opinião, é neste quadro de natural apreensão e adversidade pelos ideais europeus que ocorrerão as presentes Eleições para o Parlamento Europeu e para a constituição da próxima Comissão Europeia.

Eis-nos então chegados ao ponto onde legitimamente nos poderemos interrogar em que é que tudo isto pode colidir ou limitar ou prejudicar a actividade turística? Porque, aparentemente, o turismo já existia e florescia em todos os países que a dado momento passaram a integrar os 28 e, por essa razão, não haverá motivo para temer que, aconteça o que acontecer, tal não continue a verificar-se. Mais a mais, porque o “Velho Continente” mantém-se no topo como principal destino turístico mundial.

Ora, mesmo sabendo que estamos a falar da actividade da paz e da compreensão entre os povos, convirá termos presentes alguns cenários ou exemplos mais adversos que poderão vir a prejudicar o turismo. Senão, vejamos:

Imagine-se que os Partidos Políticos mais extremistas (ou nacionalistas, ou populistas) conseguem uma votação muito expressiva, isto é, que conquistam um papel determinante nos Órgãos Comunitários e, por essa razão, passam a ter força política para condicionarem/influenciarem decisões, nomeadamente no que respeita à imigração, à livre circulação de pessoas, às práticas e expressões religiosas e culturais, impulsionando uma mensagem com laivos xenófobos, donde se possa subentender que quem não é “europeu” não é bem-vindo. Naturalmente, isso será objecto de uma leitura pelo “resto” do Mundo que não bafejará o turismo, uma vez que ninguém vai para destinos onde, garantidamente, sabe que não será bem acolhido.

Igualmente, como começámos por afirmar, hoje em dia as Eleições Europeias têm em larga medida uma leitura interna, o que pode levar com que essas forças políticas, em caso de vitória, comecem a questionar nos seus próprios países a continuidade da presença destes na UE ou, se for o caso, no Euro ou na “Zona Schengen”, podendo despoletar processos análogos ao “Brexit”. Seguramente, que a actividade turística também por aqui poderá ser afectada.

Seguindo esta linha de raciocínio, e tendo em consideração que o turismo é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, pense-se por um instante nas grandes comunidades de imigrantes que existem em muitos dos Estados-Membro, algumas de segunda e terceira geração – que já têm a cidadania dos respectivos países onde vivem e trabalham –, e que encontraram emprego nas múltiplas profissões turísticas. Na eventualidade de uma deriva xenófoba, elas vão-se ressentir e, claro está, reagir – até porque têm os mesmos direitos que os seus concidadãos –, o que gerará instabilidade nos destinos e tensões sociais e laborais nas empresas, com reflexo directo na actividade.

Por último, para não sermos exaustivos, admita-se que a actividade turística mantém os níveis de crescimento na Europa e por maioria de razão na UE, fazendo com que o tecido empresarial continue a necessitar de contratar mais trabalhadores, mas que, em simultâneo, são aprovadas limitações à imigração vinda de países terceiros. Como e onde é que será possível sustentar esse crescimento? Mesmo os que possam defender a primazia no emprego para os “locais” (o que quer que seja que isso signifique!) esbarrarão sempre com a impossibilidade demográfica, fruto de uma baixíssima natalidade e uma população envelhecida. Mais do que uma evidência, esta é uma situação muito complexa e que não se resolve facilmente. Na melhor das hipóteses demorará uma a duas gerações a ser ultrapassada e, entretanto, interrogamo-nos sobre o que acontecerá ao turismo europeu?

Por tudo o que dissemos esperamos, sinceramente, que nenhuma destas possibilidades se venha a verificar e, queremos acreditar, que eleitores e eleitos serão mais criteriosos nas suas opções e decisões, apesar de normalmente só se dar o devido valor ao que temos… quando o perdemos.

E, em jeito de conclusão, em grande parte foi exactamente isso que nos aconteceu. Perdemos os ideais, os princípios e os valores de Schuman, de Monnet e de Adenauer, “pais fundadores” do Projecto Europeu. Contudo, ainda os podemos recuperar, basta que passemos a dar verdadeiro sentido ao lema da própria UE: “Unidos na Diversidade”!

 

Turisver.com – Depois dos avanços e recuos do Brexit, qual a importância da participação do Reino Unido nestas Eleições para o Parlamento Europeu e em que medida é que esse acto clarificará o seu futuro no seio da União Europeia e influenciará o turismo?

Atilio Forte – A votação que hoje (23 de Maio) tem lugar no Reino Unido para a eleição dos Deputados ao Parlamento Europeu tem uma importância crucial, não apenas para o turismo mas, muito especialmente, para o próprio futuro do Reino Unido e da União Europeia (UE), uma vez que se espera que dela saia um sinal claro e inequívoco relativamente ao processo que para sempre ficará conhecido como “Brexit”.

Assim, se os Partidos favoráveis à saída da UE saírem vencedores da mesma tal significará a reconfirmação dos resultados obtidos no Referendo de 23 de Junho de 2016 e, consequentemente, o fim da Europa dos 28 (passando a 27), voltando inclusivamente a colocar-se “em cima da mesa” a possibilidade de uma resolução “dura” (“hard Brexit”), isto é, sem acordo, até ao final do mês de Outubro deste ano, data limite que as partes concordaram para uma decisão sobre o assunto.

Mas se, ao invés, a votação pender para as organizações políticas pró-europeístas, somos de opinião que ela funcionará como uma espécie de segundo Referendo – independentemente da necessidade formal de realização de novo plebiscito – caucionando a manutenção do Reino Unido na UE.

No entanto, também existe a possibilidade de tudo continuar extremamente confuso bastando que o total de votos de ambas as tendências se equilibre, o que mergulharia a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte numa profunda crise política de consequências e proporções difíceis de prever, tanto do ponto de vista interno, como externo.

Claro está que qualquer um destes três cenários terá reflexos diversos, nomeadamente no que ao turismo se refere, ou não estivéssemos perante algo que pode afectar a quinta maior economia do Mundo.

É que em caso de “empate” ou de vitória dos que são favoráveis ao “Brexit” assistiríamos, entre outros fenómenos, a uma nova desvalorização da Libra, a um aumento da inflação e à perda de poder de compra por parte da população da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, o que naturalmente impactaria no consumo e inevitavelmente na actividade turística, já que ir para o estrangeiro passaria a ser (ainda) mais dispendioso. Porém, o destino ficaria mais barato para quem o pretendesse visitar…

Do mesmo modo, se o resultado fosse inverso, ou seja favorável aos defensores da permanência na UE, o quadro seria o oposto, com benefícios notórios para muitos dos mercados preferidos pelos turistas do Reino Unido, onde Portugal se inclui.

Por tudo isto é mais do que justificável que os “olhos do Mundo” estejam postos nos resultados eleitorais de hoje, que logo mais (durante a noite) serão conhecidos. Até porque os mesmos podem contribuir para atenuar e apaziguar a deriva “anti UE” que vai grassando num cada vez maior número de países comunitários ou… exactamente para o oposto. Resta-nos aguardar…

 

O + da Semana:

Muitas, e por vezes estranhas, são as motivações da procura no que se refere à busca incessante por novas experiências ou emoções turísticas. A comprovar esta “quase” máxima está o crescimento assinalável que o denominado “turismo negro” (vulgo, “dark tourism”) tem vindo a registar desde o início do milénio e que se define pela visita a locais associados com a morte e a tragédia, mas possuidores de valor histórico (patrimonial, arquitectónico, cultural, etc.). Porventura, muitos de nós já visitámos alguns desses locais, mesmo que não nos tenhamos apercebido dessa sua “carga”, conotação ou classificação, como sejam, as Catacumbas ou o Coliseu, em Roma (Itália), passando pelos campos de concentração do Holocausto ou, até, antigos mercados de escravos. Em 2010, o Conselho da Europa criou a Rota Europeia dos Cemitérios da qual as únicas duas necrópoles nacionais que dela fazem parte localizam-se no Porto – os cemitérios municipais de Prado do Repouso e de Agramonte, cuja origem remonta, respectivamente, a 1839 e 1855 – sendo, simultaneamente, os nossos exclusivos representantes na Associação dos Cemitérios Monumentais da Europa. Serve este enquadramento para destacar a informação disponibilizada pela autarquia portuense onde é revelado que nos últimos quatro anos o número de turistas que visitou aqueles locais triplicou e os circuitos guiados aumentaram cerca de duas vezes e meia, sendo a atracção pelas decorações dos jazigos e mausoléus, a estatutária e a simbologia constante dos túmulos, os factores que mais são relevados pela parte de quem procura este tipo de visitas.