iTurismo: Vale a Pena Pensar Nisto

O processo de reflexão sobre as  medidas a tomar para estimular a retoma é o ponto de partida para o comentário de Atilio Forte que foca matérias como a lenta e progressiva retoma dos fluxos turísticos, o prolongamento de ajudas à manutenção do emprego, a exiguidade do mercado interno e a “acirrada” competição internacional que se seguirá à abertura das fronteiras.

 

Desde que se começou a antecipar o fim do Estado de Emergência que, paralelamente, se deu início ao processo de reflexão sobre quais as melhores medidas para estimular a retoma económica das diferentes áreas de actividade, dado haver plena consciência que só “tiros certeiros” permitirão uma rápida e eficaz recuperação seja do tecido empresarial, seja do emprego, com todos os efeitos positivos que daí podem advir, inclusivamente, a nível psicológico, tanto no plano individual como no colectivo. Não deve por isso estranhar-se que a entrada do país numa nova fase – Estado de Calamidade – e o gradual desconfinamento que ela veio permitir a partir da semana passada, intensificaram a urgência da definição destas medidas para que cada um saiba verdadeiramente com aquilo que poderá contar.

Escusado será dizer-se que a grande expectativa do “Portugal económico” é, por um lado, saber se a receita a aplicar vai (continuar a) ser de formato único como até aqui, isto é, igual ou praticamente igual para todas as actividades e para os sectores que as integram e, por outro lado, perceber se o que vier a ser disponibilizado às empresas é apenas mais do mesmo – adiamento do cumprimento das obrigações fiscais e recurso ao endividamento bancário para os que possam – ou, pelo contrário, constatar que novas possibilidades passaram a integrar o lote de soluções e apoios disponíveis.

É que se nada de substancial mudar poderemos vir a confrontar-nos com graves problemas, nalguns casos insolúveis, pelo menos no que ao Turismo respeita, já que não nos podemos esquecer que a sua retoma depende da conjugação de um vastíssimo conjunto de factores, que vão da abertura de fronteiras intra e extra comunitárias, à percepção sanitária que os consumidores formulem quer dos destinos e dos produtos e serviços que estes oferecem, quer dos meios de transporte (sobretudo o avião) que tenham ao seu dispor para aí se poderem deslocar, para já nem voltar a referir o que neste espaço temos vindo a afirmar, que não se podem aplicar “terapias” idênticas a áreas de actividade económica diferentes.

Nesta sequência, é do senso comum admitir-se que, ao invés da abrupta “travagem a fundo” que se verificou na actividade turística na primeira quinzena de Março, o processo de retoma dos fluxos turísticos vai ser lento e progressivo, começando pelo mercado interno, alargando-se posteriormente aos países que integram a União Europeia e o Espaço Schengen e só depois aos demais, mesmo considerando uma perspectiva optimista que não contempla sequer a hipótese de existência de uma segunda vaga do CoViD-19.

Isto significa que temos perante nós um “calendário” em que, por exemplo, para a manutenção do emprego a mera extensão do layoff simplificado não será suficiente, tal como a persistência em não disponibilizar apoios com verbas a fundo perdido ou não reembolsáveis e isenções ou diminuição da carga fiscal, inviabilizará a sobrevivência de muitas empresas e dos postos de trabalho por elas assegurados, levando a que um número considerável de empresários não tenha outra alternativa que não a de abrir falência e esperar por “melhores dias” para voltar a arriscar num regresso à actividade. Este é um perigo sério que (presentemente) corremos e que seguramente todos querem impedir. O que não invalida que ele seja real e por isso: que se deva evitar que entremos numa espiral (incontrolável) de definhamento; que esteja mais do que na altura de reconhecer com gestos concretos e com medidas efectivas o muito que o Turismo tem dado ao país; de nele investir sem receios porque já deu incontáveis provas do muito e bem que é capaz de fazer por Portugal. Por todas estas razões e, pelas muitas mais que aqui ficaram por referir, vale a pena pensar nisto. A sério!

 

No seguimento da paulatina abertura dos mercados que atrás referimos e pela ameaça de que se reveste, entendemos justificar-se aqui trazer uma das controvérsias que veio à luz durante a semana transacta e que foi a relacionada com as férias que tradicionalmente os(as) emigrantes portugueses(as) vêm gozar às suas terras, no seu (nosso) país, isto porque terá corrido o rumor que o Governo Português desaconselhava a sua vinda, no próximo Verão, à semelhança do sucedido durante a última Quadra Pascal.

Obviamente que para quem está medianamente atento ao que se passa isto não é mais do que um rumor infundado, já que, para além da situação interna estar a evoluir favoravelmente, nunca tal foi dito pelas autoridades nacionais, como o Ministério dos Negócios Estrangeiros se apressou (e bem!) a esclarecer.

O problema é que no meio de tanto “disse que disse” alguma coisa acaba por se perder. E, como se sabe, atenta a exiguidade do mercado interno, não estamos nem nos podemos dar ao luxo de prescindir de um só visitante que seja, pois, ainda que emigrante, que se hospede em casa própria ou de familiares, vem cá gastar o seu dinheiro e com esse pequeno gesto também contribuir para a economia nacional, em geral, e para as receitas turísticas, em particular.

Assim, à medida que, como se espera, as fronteiras vão sendo (re)abertas e o acto de viajar volte a ser possível, é importante estar atento ao acirrar da competição internacional e aos muitos expedientes, mais ou menos éticos e legítimos, que possam vir a ser utilizados para “cativar” os que viajam. É que, tal como nós, todos os países contam, acima de tudo, com o “seu” mercado interno. Vale a pena pensar nisto!

 

Os tempos de crise, onde a incerteza e os imponderáveis surgem a cada dia que passa, são terreno fértil e bastas vezes os momentos por que tanto anseiam e aguardam muitos investidores – também há quem lhes chame especuladores – para usarem uma das primeiras coisas que nessas alturas mais rapidamente começa a escassear: o dinheiro.

Independentemente de concordarmos ou não com as suas estratégias, o facto é que todos reconhecemos (algum) valor a esses(as) personagens, quanto mais não seja pelo seu sentido de oportunidade ou pelas apostas acertadas que, quase sempre, fazem.

Ora o “apagão turístico mundial” que resultou da disseminação da pandemia com que a Humanidade está confrontada, e a demora previsível na retoma da actividade, tem colocado a quase totalidade das empresas turísticas em situação de extrema dificuldade financeira e económica, independentemente da sua grandeza, sector de negócio ou localização. Todas têm sido afectadas de modo (genericamente) idêntico.

Por isso é sem surpresa que começamos a assistir a muitas movimentações de quem tem disponibilidade para investir (leia-se Euros, Dólares ou similar), aproveitando este momento de particular fragilidade das empresas turísticas para adquirir a bom (por vezes excelente) preço uma posição importante no capital destas que, assim, a troco da entrada de dinheiro fresco, evitam no imediato males maiores, apesar de nalguns casos verem os seus centros de decisão alterados, inclusivamente para outras paragens.

Contudo, não deixa de ser curioso verificar-se que há quem esteja a vender boas posições accionistas em companhias aéreas, para adquirir participações em cadeias hoteleiras. Como sem meios de transporte não há viagens e, consequentemente, necessidades de alojamento, a única explicação para esta opção só pode ser porque estas últimas oferecem uma tangibilidade (activo imobiliário) que as primeiras estão longe de possuir. A ser assim, tal deve levar-nos a perguntar e reflectir, sobre como é que estes investidores encaram o futuro do Turismo? Vale a pena pensar (seriamente) nisto!

Protejam-se a vós, aos vossos e, se possível ou necessário, ajudem o próximo. #vamostodosficarbem!

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email iturismo@turisver.pt continua ao dispor das(os) nossas(os) leitoras(es).