iTurismo: Valorizar, Qualificar e Empregar, por Atilio Forte

O investimento turístico na Ásia, o valor do trabalho que gera valor no emprego, e a tendência de prolongamento das estadas, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo. Atilio Forte destaca o Programa Valorizar, que vai arrancar com uma dotação de 20 milhões de euros, bem como a formação na área do Turismo. “O + da Semana” tem como tema “o México prepara-se para criar um inovador sistema de classificação hoteleira”.

Tópicos da Semana:

  • Investimento turístico na Ásia: De acordo com um recente relatório do World Travel &T ourism Council (WTTC), na próxima década o continente asiático atrairá 10% (!) do total do investimento efectuado em viagens e turismo, sendo que só a China ficará com metade do mesmo e países como o Cambodja, o Myanmar e as Filipinas lutarão pela atracção de capitais que lhes permitam fazer face ao ritmo do aumento da procura que vêm registando.

 

  • Valor do trabalho gera valor no emprego: Fala-se muito da geração do milénio na óptica do consumidor esquecendo-se, em grande parte das vezes, que quem dela faz parte também trabalha. Por isso, vale a pena lembrar que o primeiro passo para comunicar eficazmente com os “trabalhadores do milénio” é perceber que eles tendem a trabalhar naquilo em que acreditam, razão porque se deve definir com total clareza o valor e a importância da função que se pretende que desempenhem. 

 

  • Prolongar as estadas: Um cada vez maior número de destinos, hotéis e outros agentes turísticos vem apostando no prolongamento das estadas através de uma maior proximidade junto dos consumidores, nomeadamente pelo uso criterioso das redes sociais. A utilização da conectividade digital e dos dados que ela permite recolher, alimentam a relação com os turistas, tanto antes como após a visita, possibilitando ainda uma melhor personalização das experiências oferecidas.

 

Comentário

 

Turisver.com – A Secretária de Estado do Turismo tornou público que o Programa Valorizar vai arrancar com uma dotação de 20 milhões de Euros, verba proveniente das contrapartidas anuais pagas ao Turismo de Portugal pelas concessionárias de zonas de jogo. O programa vai ter como objectivos a valorização e qualificação do destino Portugal e as primeiras linhas de apoio destinam-se ao turismo acessível (cinco milhões de euros) e a disponibilizar redes wi-fi nos centros históricos das cidades portuguesas (um milhão de euros), podendo a elas concorrerem entidades públicas e privadas. Que comentários lhe merecem estas aplicações de verbas?

 

Atilio Forte – Em nossa opinião, e fazendo uma leitura genérica, estas duas primeiras linhas de apoio financeiro que decorrem do Programa Valorizar, afiguram-se-nos como positivas, pois ambas indiciam uma inequívoca vontade política em melhorar e alargar o potencial da oferta turística nacional, tanto no domínio da criação de condições para que as pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência possam ter a possibilidade de livremente acederem a sítios relevantes do ponto de vista turístico – tema (do turismo acessível) que foi escolhido pela Organização Mundial do Turismo como pano de fundo das comemorações do Dia Mundial do Turismo, ocorrido há pouco mais de um mês (27 de Setembro) –, como no da melhor capacitação através de redes “sem fio” (wireless) dos locais de maior carga (e interesse) turística.

Mesmo tendo em consideração que, em conjunto, estas linhas de apoio ascendem a 30% do valor total da verba afecta ao “Valorizar”, cremos que se enquadram totalmente nos objectivos estipulados para aquele Programa, isto é, no âmbito da “[…]concessão de apoios financeiros a projectos de investimento e a iniciativas que tenham em vista a regeneração e reabilitação dos espaços públicos com interesse para o turismo e a valorização turística do património cultural e natural do país.”.

Por outro lado, também é de saudar que nenhum dos Despachos Normativos que criam estes apoios – o relativo ao turismo acessível e o da disponibilização de acesso “wi-fi” – imponha qualquer limitação à capacidade financeira das entidades promotoras, sejam elas públicas ou privadas. Se o fizesse, como é norma, atendendo a que uma grande parte das empresas que exercem a sua actividade no turismo têm capitais próprios negativos ou estão muito perto de os terem, e que tanto as autarquias, como as Entidades Regionais de Turismo (ex-Regiões de Turismo), também se encontram extremamente debilitadas económica e financeiramente, tal inviabilizaria as suas candidaturas (sublinhe-se que o sector privado não está contemplado no subprograma de “acesso wi-fi”).

Contudo, se fizermos uma leitura não tão “superficial” destas medidas, e apesar dos benefícios para o turismo de passarmos a ser um país mais “inclusivo” e de melhor oferta “digital”, somos de opinião que o Governo poderia ter aguardado mais algum tempo antes de fazer este anúncio, por duas ordens de razões: uma, mais directamente relacionada com o Programa Valorizar; e, outra, inserida num contexto mais vasto. E porquê?

No primeiro caso, porque anunciando um Programa com uma dotação total de 20 milhões de euros, conviria que, de uma só vez, o Governo explicitasse todos os subprogramas que o compõem e quais as respectivas dotações que decidiu atribuir a cada um. A mensagem seria não apenas mais escorreita, como a abrangência da intervenção que se pretende fazer seria bem mais perceptível, tal como o equilíbrio entre as diferentes medidas e os montantes disponibilizados para corporizarem cada uma das mesmas.

No segundo caso, este bem mais importante, porque se encontra em fase de debate público (até ao final do ano) o documento “Estratégia Turismo 2027”, apresentado pelo Governo em Maio passado, não se sabendo, por isso, se os contributos entretanto recolhidos e os que, por certo, ainda serão recebidos confirmarão (ou não) estas áreas como fundamentais para a aplicação dos sempre escassos recursos financeiros “atribuídos” à actividade económica do turismo – recorde-se que alguns dos eventos mais importantes que poderão contribuir para o enriquecer, em particular os congressos nacionais de algumas das principais associações empresariais, ainda não se realizaram.

Temos consciência que, como dizem os ditados populares, “o óptimo é inimigo do bom” e “quem espera, desespera”, mas mesmo assim ficaria bem ao Governo ter aguardado um pouco mais, até para não dar a ideia – seguramente errada – que está a desvalorizar os contributos de terceiros, que por si foram expressamente solicitados, para a mais importantes das decisões, isto é, para a definição da estratégia que o turismo nacional irá prosseguir na próxima década.

 

Turisver.com – O crescimento do turismo está a levar os cidadãos a olharem para esta actividade económica como uma área de emprego com futuro, motivando os jovens a apostarem na formação, a procurarem,  em escolas e universidades, os cursos de turismo para os quais pensam ter vocação. Por outro lado, cada vez mais entidades de ensino por todo o país vão dando estas opções aos alunos. Na sua opinião, estamos a ir pelo caminho correcto ou está a correr-se o risco, por falta de docentes com conhecimentos do sector turístico, de termos uma formação aquém do expectável?

 

Atilio Forte – Já por diversas vezes aqui referimos que o turismo é, de acordo com todas as previsões, a única actividade económica que nas próximas três décadas irá, no mínimo, crescer acima dos valores máximos previstos para a economia mundial (prevê-se que o turismo cresça, pelo menos, 3% ao ano, enquanto que a economia mundial não crescerá mais do que 2,5% ao ano).

Devemos somar a este dado, o facto de o turismo ser uma área de mão-de-obra intensiva e, ainda, de ter “as pessoas” como matéria-prima. Ou seja, é uma actividade feita por pessoas … para pessoas.

Ora, uma vez que nos estamos a referir à maior actividade económica a nível mundial, isto significa que o seu potencial de criação de emprego aumentará a um ritmo extremamente elevado o que terá (e já tem!) como consequência uma grande necessidade de trabalhadores qualificados. Julgamos nem valer a pena referir a crescente complexidade, sofisticação e competição da oferta de produtos e serviços turísticos, que exige uma cada vez maior especialização e conhecimentos por parte de todos quantos elejam uma carreira no turismo como objectivo para a sua vida activa.

Portugal, como se tem comprovado pelo desempenho turístico que vem revelando, não foge a esta regra. Por isso é natural que cada vez mais jovens olhem os diferentes sectores turísticos como os que mais e melhores saídas profissionais lhes podem oferecer o que, paralela e simultaneamente, também faz (e fará) com que a oferta formativa e académica aumente na proporção dessa maior procura.

No entanto, como bem sabemos, quantidade não é sinónimo de qualidade. E isso quer dizer que nem todos os que procuram (ou procurarão) trabalhar no turismo vão ser bem-sucedidos, como também que nem toda a oferta formativa existente (profissional ou académica) apresenta qualidade, seja pela adequação dos conteúdos programáticos ministrados, seja por estar em sintonia com os requisitos e necessidades do mercado de trabalho, para apenas citar dois exemplos. Numa frase: a existência de uma maior interligação entre a “escola” e as empresas é hoje um imperativo incontornável que, infelizmente, só raramente se verifica.

Mais do que atribuir culpas, acreditamos que a solução reside numa maior responsabilização de todos os intervenientes, com o objectivo de construir um verdadeiro “casamento” entre a formação, o ensino e os conhecimentos ministrados e aquilo que quem emprega verdadeiramente necessita: saber, melhoria de processos, inovação, … Em suma, soluções concretas e actuais passíveis de anteciparem e resolverem os desafios, os problemas e os constrangimentos da “vida real” com que diariamente os principais actores (as empresas) da maior actividade económica do Mundo são confrontados.

E também isso só pode ser feito pelas pessoas! Tudo o resto virá, naturalmente, por acréscimo.

 

 O + da Semana:

Após sete anos de estudos que envolveram inúmeras entidades – Ministério do Turismo, Conselho Nacional para a Ciência e Tecnologia, Instituto para a Competitividade do Turismo, Associações Hoteleiras e Grupos de Interesse –, o México prepara-se para criar um inovador sistema de classificação hoteleira, pondo um ponto final à actual ausência de qualquer mecanismo de controlo, que tem conduzido a que cada um dos cerca de 700.000 estabelecimentos de alojamento daquele país se auto-atribua uma categoria. Este novo modelo baseia-se na auto-avaliação, obrigando a que cada unidade, durante os próximos 12 meses (até Setembro de 2017), se registe junto do Ministério do Turismo e faça uma auto-análise, respondendo a 49 perguntas relacionadas com o seu desempenho, distribuídas por oito áreas distintas: acessibilidade, exterior e visão global; comunicação; quarto e casa de banho; comidas e bebidas; lobby; climatização; serviços; e, áreas públicas. Cada uma das respostas corresponderá a um determinado número de pontos no (doravante designado) Sistema de Classificação Hoteleira que, posteriormente, originará a atribuição de estrela(s), pela seguinte fórmula: de 0 a 260 pontos = 1 estrela; de 261 a 520 = 2 estrelas; de 521 a 780 = 3 estrelas; de 781 a 1040 = 4 estrelas; e, de 1041 a 1300, 5 estrelas. Uma das maiores vantagens que todas as partes atribuem a este inovador sistema é que ele irá provocar, em cada um dos estabelecimentos, um grande ganho de consciência acerca das facilidades e serviços que oferecem, bem como os ajudará a identificar novas áreas de oportunidade.