iTurismo: Viajar Mais, Poluir Menos, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana Atilio Forte analisa a consciência ecológica do turismo, um sector que necessita de transportes que, de uma forma geral, deixam um rasto ecológico negativo. O abolir das propinas nas Escolas do Turismo de Portugal, para estudantes que estão a cumprir a escolaridade obrigatória, é outro dos temas comentados.

 

Tópicos da Semana:

  • Grandes marcas hoteleiras para crescerem no mercado europeu devem fugir aos padrões: Pelo menos é esta a opinião de muitos especialistas que enfatizam que os custos e as taxas contratuais, a duração dos contratos, a aversão pelo genérico e o anseio por um desempenho operacional irrepreensível (nomeadamente em termos de serviço ao cliente), são as principais razões apresentadas pela maior parte dos hoteleiros independentes para justificarem a sua recusa em aderirem às grandes marcas, apesar dos ganhos de popularidade que estas vêm obtendo no “Velho Continente” e do facto de, à partida, as mesmas garantirem 30% do total de reservas de cada hotel, que esteja debaixo do seu “guarda-chuva”, em consequência dos programas de fidelização que proporcionam.

 

  • Sabe quanto custa levar o seu cão de férias?: De acordo com dados da organização de consumidores (sem fins lucrativos) Consumer Reports, 40% dos donos de animais de estimação leva os seus cães consigo quando viaja. Por sua vez a TripAdvisor diz que 35% opta por férias mais curtas e que 25% vão menos vezes de viagem, por terem animais. Recentemente, um novo estudo feito pela Rover.com (plataforma on-line de compra e venda de serviços para animais de estimação), dirigido exclusivamente ao mercado americano e intitulado “The Dog People”, calcula que levar um cão numa viagem de 1 semana pode custar entre 853 e 1.564 Dólares. Entre outras despesas, este valor já inclui: $250 para transporte aéreo (ida e volta), $25 por noite de suplemento no hotel, $25 a $400 para limpeza do carro alugado em rent-a-car e, até, $10 a $15 para compra de um protector solar especial para o bichano.

 

  • Turismo acessível chega aos ex-líbris de Jerusalém: A Cidade Velha, em Jerusalém (local classificado pela UNESCO como Património Mundial), que contém alguns dos locais mais sagrados do Mundo – como o Muro das Lamentações e o Monte do Templo – já pode ser visitada por turistas que utilizem cadeira de rodas graças às obras de adaptação que aí foram realizadas, de modo a tornar os seus becos estreitos e as inúmeras subidas mais fáceis de percorrer.

 

Comentário

 

Turisver.com – Sem transportes não há turismo, mas desde o automóvel ao comboio e aos aviões, passando pelos navios de cruzeiro, uma área da oferta turística actualmente em grande crescimento, todos os meios de transporte, de uma forma geral, deixam um rasto ecológico negativo. No seu entender já se está a fazer tudo o que é possível na forma como os mesmos são fabricados para minimizar os impactos negativos que estes deixam no ambiente?

Atilio Forte – É uma verdade incontornável que só há turismo se houver “como chegar”, o que apenas é possível quando existe uma forma para transportar quem viaja do local de origem ao de destino e, depois, de regresso “a casa”. Assim, não é de admirar que o impressionante desenvolvimento dos meios de transporte – especialmente o avião – seja uma das causas profundas do progresso turístico e um dos principais responsáveis pelo lugar de destaque que a actividade tem actualmente na economia mundial. De igual modo pode também afirmar-se que não fora o crescimento do “mercado” turístico global e a evolução dos transportes, em geral, não teria sido tão significativa, nem tão rápida. Esta é a grande razão porque sempre defendemos dever existir uma umbilical relação entre estas duas áreas e que determinados sectores fossem considerados como parte integrante e peça fundamental da constelação turística, como acontece com a aviação.

Contudo, não é preciso ser-se especialista em questões ambientais para facilmente se perceber que qualquer veículo de transporte precisa de uma fonte energética que lhe sirva de propulsor a qual, necessariamente, gera a emissão de partículas poluidoras, particularmente dióxido de carbono, que (também) contribuem para prejudicar o meio ambiente e, consequentemente, impactam na “saúde ecológica” da Terra.

Não obstante, o turismo desde muito cedo compreendeu a importância vital – e a grande dependência – que os activos naturais têm na formação e atractividade da oferta turística, ou naquilo a que usualmente chamamos produto e, por esse motivo, desde há algumas décadas incorporou no seu “ADN” procedimentos tendentes à sua preservação e/ou à sua fruição com parcimónia, sendo que nos últimos anos, o acelerar do aquecimento global, a par de uma maior consciência colectiva para esta temática, sobretudo no que respeita aos consumidores, provocou tanto uma redobrada atenção sobre o assunto por parte dos diversos agentes turísticos, como a adopção por estes de um maior número de práticas direccionadas para a sustentabilidade ecológica e ambiental, com o objectivo de contribuir activamente para a diminuição generalizada da poluição, para a criação de condições que permitam a regeneração da natureza e para garantir, a médio-longo prazo, a sobrevivência dos ecossistemas e da biodiversidade.

Não deve assim estranhar-se que o turismo se posicione na “linha da frente” quer do combate à poluição, quer da defesa do meio ambiente, e que os seus actores, mormente os empresariais, anunciem quase diariamente novas medidas com essa finalidade e de espectro tão diverso, como sejam, a abolição das palhinhas de plástico na hotelaria e nos estabelecimentos de restauração e bebidas, a utilização de combustível aeronáutico menos poluente (SAF – Sustainable Aeronautical Fuel) pelas companhias aéreas a partir de 2022, ou a instalação de terminais de recarga eléctrica de automóveis num crescente número de hotéis, para só darmos alguns exemplos.

Propositadamente abrimos aqui um parêntesis para sublinhar que seria de grande utilidade que fosse clarificado em que medida é que algumas ditas “boas medidas”, como as relativas aos veículos eléctricos, são ou não tão ou mais nocivas para o meio ambiente do que as provocadas pelos automóveis (ainda) mais comuns (propulsão térmica), uma vez que recorrem ao uso de baterias, cujo fabrico também polui – para além de obrigar à extracção de algumas matérias-primas, como o lítio (que abunda no nosso país) –, e o que se passará quando estas chegarem ao “final da sua vida” e tiver de se reciclar o lítio e os químicos que as compõem? É que, ao invés do que acontece com o propalado pela “classe política”, as conclusões da comunidade científica estão longe de serem consensuais… para já não referir que em muitos países a quase totalidade da energia eléctrica é produzida a partir de centrais nucleares…

Fechado o parêntesis e retomando o nosso raciocínio, a realidade é, como vimos, que ao nível dos transportes mais usados ou ligados ao turismo – o avião e o automóvel – já estão em curso soluções que, aparentemente, contribuirão para a diminuição das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, a que se deve adicionar o transporte ferroviário, uma vez que boa parte dos comboios são movidos a electricidade embora, infelizmente, estes tenham paulatina e progressivamente perdido protagonismo nas deslocações turísticas à escala global.

Resta-nos falar dos navios de cruzeiro ou, se se quiser, do transporte marítimo, que tem vindo a (re)conquistar índices de crescimento bastante significativos, bem ilustrados no aumento do número de paquetes de grandes dimensões que sulcam os oceanos ou se encontram em construção. Pese embora neste domínio não existam muitos indicadores científicos especificamente sobre o sector dos cruzeiros – que seria bom produzir –, há informação e estudos sobre os níveis de poluição da marinha mercante que não são muito animadores para o sector, já que revelam, se se tomar em consideração o tamanho dos motores e o tipo de combustível utilizado (diesel), que os 40 maiores cargueiros (porta-contentores) do Mundo poluirão anualmente tanto como os 760 milhões de automóveis do Planeta (numa viagem de ida e volta entre a Europa e a Ásia cada um consome cerca de 10.000 toneladas de combustível!) …

Ora, se consideramos que estes 40 navios fazem parte da frota actualmente existente de 3.500 cargueiros, à qual devem somar-se 17.500 petroleiros, facilmente se verifica o quanto prejudicam o ambiente os 100.000 navios que percorrem quase diariamente os mares… facto que se extrapolado para os grandes barcos de cruzeiro sublinha (bem!) a urgência em encontrar alternativas mais sustentáveis.

Em jeito de conclusão, pode pois afirmar-se que sendo os meios de transporte vitais para a existência de turismo e não obstante os progressos que vêm sendo efectuados, é fundamental que os agentes da actividade procurem maior esclarecimento científico sobre algumas das soluções promovidas pelos responsáveis políticos, intensifiquem, persistam e aprofundem a composição de produtos turísticos menos poluentes, mais “amigos” da ecologia e que acautelem a sustentabilidade das espécies e, no limite, da própria Terra, preservando a Natureza e tudo quanto, tão generosamente, ela põe à sua (nossa) disposição para que possa ser fruído, e para que a actividade continue de modo crescente a ser percepcionada, interiorizada e olhada como um dos grandes paladinos do ambiente e do património natural universal, ao mesmo tempo que se garante que embora existam mais turistas a viajar estes poluem menos!

 

Turisver.com – As Escolas do Turismo de Portugal vão abolir as propinas para os estudantes que estão a cumprir a escolaridade obrigatória, já a partir do ano lectivo 2019-20. Na sua opinião esta medida faz sentido face à escassez de mão-de-obra qualificada para a hotelaria e a restauração?

Atilio Forte – Em jeito de nota introdutória deve salientar-se que a escolaridade obrigatória em Portugal é, presentemente, um direito e um dever que envolve o acesso ao ensino às pessoas com idade compreendida entre os 6 e os 18 anos ou até terem completado o 12º ano.

Dito isto, atendendo às necessidades crescentes de mão-de-obra qualificada por que passam muitos dos diversos sectores turísticos no momento presente, nomeadamente a hotelaria e a restauração, antecipando constrangimentos futuros, em consequência da evolução demográfica negativa que se perspectiva para o nosso país e tomando em consideração a qualidade (inegável) do ensino técnico-profissional ministrado pelas Escolas do Turismo de Portugal, bem demonstrada nas elevadíssimas taxas de empregabilidade obtidas, esta é uma medida que, em nossa opinião, se justifica como forma de procurar atrair um maior número de jovens para as várias profissões turísticas.

Igualmente deve salientar-se que a mesma se insere num “pacote” mais vasto que aquele Instituto Público decidiu pôr em prática para o próximo ano lectivo e que, entre outras disposições, também contempla: a redução em 50% dos custos de inscrição e matrícula para os alunos que frequentem os cursos que atribuam qualificação profissional de nível 4 (“ensino secundário obtido por percursos de dupla certificação ou ensino secundário vocacionado para o prosseguimento de estudos a nível superior acrescido de estágio profissional – mínimo de seis meses”) e de nível 5 (“qualificação de nível pós-secundário não superior com créditos para o prosseguimento de estudos a nível superior”); a procura de uma maior captação de discentes para as escolas situadas em territórios de menor densidade populacional (Lamego, Portalegre e Vila Real de Santo António) através do financiamento de 50% do custo das propinas dos cursos de nível 5; e, o reforço da oferta formativa de nível 4 através da abertura de mais turmas e mais vagas em todos os estabelecimentos de ensino do Turismo de Portugal.

No entanto, e sem que se retire qualquer mérito a estas decisões, convirá ter presente que os principais motivos que as justificam são, por um lado, a fraca percepção que a valorização das carreiras e profissões turísticas tem junto dos alunos (futuros trabalhadores) e, por outro lado, a pouca atractividade revelada por alguns sectores turísticos em função dos baixos salários que praticam.

Só a esta luz se entende que cursos que (praticamente) garantem emprego imediato após a sua conclusão necessitem deste tipo de estímulos, factor ao qual acresce uma diminuta taxa de retenção dos profissionais a médio prazo e que, sem dúvida, deve fazer pensar não apenas o Turismo de Portugal como, principalmente, quer os agentes empregadores, com especial destaque para os do sector privado, quer o próprio Estado que, do ponto de vista fiscal, continua a não abdicar de penalizar severamente os vencimentos pagos pelas empresas e auferidos pelos trabalhadores.

Assim, em nosso entender e considerando que a actividade turística é na sua globalidade uma área de mão-de-obra intensiva, uma menor carga fiscal sobre o “factor trabalho” seria, sem dúvida, bem mais benéfica e proveitosa do que “pacotes” como o que aqui hoje analisamos, os quais, pelos motivos expostos, acabam por não ser mais do que meros paliativos!

 

O + da Semana:

No passado Outono tivemos oportunidade de aqui comentar a suspensão da ligação aérea entre Portugal e a China e os impactos que tal poderia ter no turismo nacional, bem como a necessidade de envolvimento, ao mais alto nível, do Estado Português, seja para compreender as razões que suportaram aquela decisão – dado que durante o tempo de operação os voos transportaram mais de 80.000 passageiros e registaram taxas de ocupação que oscilaram entre os 80 e os 90% –, seja para que a mesma pudesse ser reposta no mais curto espaço de tempo. Assim, e após o interregno verificado em Outubro de 2018, a Capital Airlines veio agora anunciar a retoma da sua ligação aérea a Portugal (Lisboa) a partir do próximo dia 30 de Agosto, com três frequências semanais operadas por uma aeronave com capacidade para 440 passageiros (Airbus A330), e com alterações ao nível da rota escolhida, isto é, Pequim / Xi’an (Noroeste da China) / Lisboa, em vez de Hangzhou (Este da China) / Pequim / Lisboa (anterior). Naturalmente, saudamos esta decisão e todos quantos para ela contribuíram, pois a dita não só é importante para as relações entre ambos os países – pessoais, culturais e económicas – como, seguramente, estimulará os fluxos turísticos entre os dois Estados, sendo natural que (também) capte a atenção do mercado nacional pois, para além de servir a principal metrópole daquele país oriental e as múltiplas atracções turísticas que a mesma proporciona, igualmente toca a primeira capital da China unificada, onde pode ser visitado o famoso exército de terracota do Imperador Qin, também conhecido pelo nome de “Guerreiros de Xiam”.