Licínio Cunha: Turismo precisa de Plano de Recuperação e Reorientação

Para o ex-secretário de Estado do Turismo, Licínio Cunha, é impossível, por enquanto, prever quando a actividade turística vai recuperar dos efeitos da pandemia mas acredita que essa recuperação vai acontecer desde que se salvem empresas e empregos. Para isso afirma ser necessário estabelecer, o mais rápido possível, um Pano de Recuperação e Reorientação de médio e longo prazo.

O ex-titular da pasta do Turismo (Licínio Cunha foi secretário de Estado nos anos de 1978/79 e 1985/91), que falava terça-feira num webinar organizado pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) que juntou seis ex-secretários de Estado do Turismo e a actual titular da pasta, para debaterem o tema “Covid-19 e Turismo: E daqui em diante?”, aproveitou para lembrar que no passado, o turismo foi sempre um factor de resolução de crises, algo que não acontece hoje
O turismo, afirmou, “nunca, como agora, sofreu uma crise tão profunda e tão avassaladora”, destacando ainda que “pela primeira vez, o turismo é causa da crise da economia”, principalmente em países que, como Portugal, tanto dependem deste sector, quando, no passado, serviu de motor à resolução de crises económicas. A braços com uma crise cuja causa se “situa num domínio inesperado”, o mundo passou, no entanto, a “reconhecer a importância do turismo, afastando as dúvidas que a esse respeito ainda se colocavam”, algo que disse ter importância em termos de futuro.

Reconhecendo que, pelos factores de imprevisibilidade desta pandemia “não é possível fazer previsões quanto à retoma turística”, Licínio Cunha afirmou acreditar que “mais cedo ou mais tarde as pessoas continuarão a viajar”, primeiro dentro dos seus próprios países e destinos de maior proximidade “mas, sobretudo, para aqueles que ofereçam confiança e credibilidade”.

O ex-secretário de Estado do Turismo deixou também claro que “é previsível que se criem novos hábitos e que se passe a dar maior atenção aos cuidados de saúde” mas, fora isso, “as mudanças pouco diferirão daquelas que já eram expectáveis, pela exigência da sustentabilidade e das alterações climáticas”, bem como “da digitalização”, áreas em que o turismo tem vindo a dar importantes contributos.

Para Licínio Cunha, a grande questão que se coloca no imediato é a de “salvar as empresas e os empregos, manter as infra-estruturas e as estruturas complementares da oferta turística nos destinos” bem como os equipamentos, os valores intangíveis, as relações estabelecidas, os conhecimentos adquiridos e os eixos de comunicação”, entre outras.

Há, no entanto, questões estruturantes que “exigem a definição de uma estratégia de médio e longo prazo que garanta a recuperação da procura” e que assente num paradigma de desenvolvimento sustentável. Neste âmbito, apontou a necessidade de, a partir de Janeiro, após o período definido para a vigência do PEES, que vai até Dezembro deste ano, ser desenhado um Plano de Recuperação e de Reorientação do Turismo, com o horizonte temporal de 2030.

Este Plano, defendeu, deverá assentar em dois subplanos: o primeiro, explicou, “com a duração de dois ou três anos, teria como objectivos a reestruturação das empresas turísticas, a generalização da implementação de sistemas de controlo de doenças contagiosas, a recuperação da procura turística; a aceleração da digitalização, a promoção de projectos inovadores em detrimento do crescimento da oferta, sobretudo em zonas costeiras”.

Já o segundo subplano, deveria ter como objectivos mais gerais, a “promoção de produtos de maior valor acrescentado, o melhor aproveitamento do turismo para uma maior diversificação da economia, o apoio ao desenvolvimento regional pelo incentivo, por exemplo, à criação de redes de recuperação e de turismo comunitário, a dinamização de programas de apoio à redução da pobreza e à melhor distribuição da riqueza; o fortalecimento da competitividade das empresas e dos destinos; e a adaptação às previstas transformações tecnológicas”.

Ressalvou, no entanto, que para que qualquer plano que seja definido possa ter sucesso, “as estratégias de desenvolvimento da economia nacional têm de integrar o Turismo a fim de promovê-lo no desenvolvimento das actividades que ele dinamiza e fortalece”, e tem também de ser feita uma “permanente monitorização” desses mesmos programas, quaisquer que eles sejam, apontando ainda que “tem que ser garantida a racionalidade nas verbas comunitárias”.

O ex-secretário de Estado do Turismo, Licínio Cunha, deixou ainda uma ideia que considera fundamental: “é preciso recuperar o turismo, mas também garantir que seja motor de desenvolvimento, que ganhe a aceitação generalizada e que se evite a turismofobia” e esta, garantiu, “pode ser uma oportunidade única que não se pode desperdiçar”.