Luís Correia da Silva: “Retoma vai ser mais lenta do que o previsto”

Apesar do alerta, Luís Correia da Silva, que foi secretário de Estado do Turismo nos anos de 2003 e 2004, acredita que a necessidade de fazer férias está enraizada e não vai terminar. Considera, por isso, essencial, que não se deixe perder a “oferta fantástica e competitiva” que o país tem enquanto destino turístico e que se invista numa comunicação clara de Portugal como destino seguro.

O ex-titular da pasta do Turismo falava na passada terça-feira num webinar organizado pela Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE) que juntou seis ex-secretários de Estado do Turismo e a actual titular da pasta, para debaterem o tema “Covid-19 e Turismo: E daqui em diante?”.

No seminário online, o gestor começou por alertar que “a pandemia de Covid-19 está ainda longe de estar controlada no mundo”, que “tanto a Europa como Portugal estão a enfrentar novos surtos” e que o seu controlo só acontecerá quando houver uma vacina, situação que gera incerteza quanto ao futuro.

A pandemia, disse, “veio interromper em Portugal, de forma subida e inesperada, um ciclo de grande crescimento da economia turística, afectando, sem excepção, todas as actividades e empresas da cadeia de valor, sendo particularmente crítica para os recentes investidores e para empresas que recorreram ao crédito para financiar a sua expansão”. Mas a paralisação, que afectou milhares de trabalhadores do sector, “conferiu uma visibilidade mais generalizada da importância do turismo na criação de riqueza”.

O que está claro para Correia da Silva é que as expectativas que de início se tinham de uma retoma mais ou menos rápida, saíram goradas, estando hoje assente a ideia de que o turismo vai levar mais tempo a recuperar do que aquele que se previa, até porque depende de inúmeros factores externos que não apenas a saúde pública, como a abertura de fronteiras, a livre circulação, os transportes, nomeadamente o aéreo.

“A retoma vai ser lenta, mais arrastada no tempo do que o previsto e demorará mais do que outras actividades produtivas”, afirmou, frisando que, tanto para as empresas como para os trabalhadores, “as condições de sobrevivência são cada vez mais difíceis e dentro de três meses serão mesmo dramáticas”, principalmente para quem mais investiu nos últimos anos.

Ainda assim, Luís Correia da Silva acredita que “a necessidade de viajar e de conhecer novos destinos turísticos, de beneficiar de períodos de descanso e férias, pode ter sido adiada não vai diminuir”. Viajar para outros destinos vai estar, no entanto, dependente da confiança dos consumidores em determinado destino, sublinhou, explicando que o restabelecimento dessa confiança vão ser diferente do que foi, por exemplo, após os ataques terroristas, uma vez que a pandemia é um fenómeno mundial, afectou todos os países, todos os mercados emissores e todos os destinos.

Neste contexto, avançou que “o trabalho de todos deve hoje centrar-se, internamente, em tudo fazer para que seja possível minimizar os riscos de alastramento da pandemia”. Imprescindível é também comunicar a segurança do destino de forma clara, principalmente junto dos operadores turísticos e dos potenciais turistas, dando conta dos protocolos de higiene e segurança implementados, mas também garantindo “toda a flexibilidade possível nas reservas”.

Argumentando que a comunicação que se está a fazer sobre o estado da pandemia em Portugal é essencialmente dirigida aos portugueses e que mesmo para esses não resulta totalmente clara, permitindo interpretações muito diversas, o que gera confusão, principalmente nos operadores turísticos internacionais, o que não deve acontecer, sob pena de perdermos turistas e mercados. Apelou por isso ao Turismo de Portugal e à secretária de Estado do Turismo para que a comunicação se torne mais clara: “Temos que ter a capacidade de fazer uma comunicação dirigida”, alertou.

O facto de Portugal ter sido considerado, por 3 anos consecutivos, o melhor destino turístico do mundo e de estar entre os países mais seguros do mundo “pode ajudar, mas nada garante uma retoma mais rápida do turismo”, disse, alertando para o facto de deverem ser muito bem equacionados “os riscos e os custos, a curto, médio e longo prazo, de uma retoma eventualmente mais rápida mas menos controlada do turismo nos nossos principais destinos regionais”.

Depois de um tempo em que tanto se ouvir falar do “overtourism”, o país vive hoje uma situação triste, sem turistas e com os serviços turísticos parados. Esta crise, disse, deve constituir uma “oportunidade” para “discutir, ajustar e mesmo reinventar alguns aspectos do modelo de turismo”, adequando-o às novas exigências de sustentabilidade e de segurança, dois pólos que irão marcar a decisão de viajar no futuro.

Essencial para Luís Correia da Silva é que não se deixe perder a oferta que Portugal tem em termos turísticos, seja em equipamentos, e infra-estruturas ou produtos e serviços. “Temos uma oferta fantástica e competitiva e não podemos deixar que ela se perca”, declarou.