Opinião: Internet das Coisas 2.0 em Turismo, por João Pronto*

No seguimento de um artigo publicado em Março de 2016, João Pronto volta hoje a abordar a temática da Internet das Coisas (IdC) em Turismo, agora numa perspectiva 2.0, ou seja, numa perspectiva que tem em conta os avanços registados desde então.

Em Março de 2016, a Turisver publicou o meu 1.º artigo, desta nova série de artigos (mais ou menos) mensais, e a temática foi “A Internet das Coisas para o Turismo”, e que pode ser consultado diretamente através do link: IdC_JPronto, por forma a se melhor enquadrar este segundo artigo relativo à temática da Internet das Coisas – IdC.

Atualmente, tal como acontecia em 2016, temos diversos entusiastas destas tecnologias aplicadas ao turismo, que, como eu, pensam e escrevem sobre estas temáticas tecnológicas aplicadas ao Turismo, nos diversos portais de comunicação turística, difundidos pelos quatro cantos deste nosso mundo turístico.

Alguns comentadores/analistas/futuristas “atrevem-se” a indicar diversas evoluções no refrescante mundo da Internet das Coisas, fundamentando, de forma mais ou menos evidente, as evoluções preconizadas…

Devo admitir que, perante os meus alunos, sempre tive, e mantenho, relutância em “catalogar” os conceitos com prefixos ou sufixos numéricos, pois considero que devemos de apresentar novas designações quando ocorrem efetivas ruturas tecnológicas que consubstanciem a evolução apresentada. Vide Internet, Internet 2.0, Internet 3.0, e assim sucessivamente… (temática a aprofundar futuramente)

Com a devida ressalva acima apresentada, já li em inúmeros artigos, diferentes evoluções de IdC, resumidamente apresentadas como IdC 2.0 ou IdC 3.0, e até já encontrei IdC 5.0!

A evolução tecnológica gira, de forma mais ou menos consensual, em torno da famosíssima Lei de Moore, já mencionada diversas vezes nestes meus artigos de opinião, mas convenhamos que exagerar na invocação da Lei de Moore e reduzi-la de 18 meses, para 9 ou menos meses, todos os anos, é manifestamente exagerado…

Pelo que irei tentar, fundamentadamente, descrever neste artigo a evolução de IdC para IdC 2.0, e sempre que possível, enquadrar com exemplos práticos neste nosso trade.

Conceito de Internet das Coisas (IdC) – segundo a Internet Society (https://www.internetsociety.org) a IdC é, em sentido amplo, uma extensão da conectividade de rede e da capacidade de computação para objetos, sensores, dispositivos, e outros artefactos que tradicionalmente não são considerados computadores, e que requeiram consumo de dados, com a menor intervenção humana possível…

Por outras palavras, nesta nossa sociedade contemporânea, está a iniciar-se um processo de massificação de interconectividade entre coisas, mesmo que adquiridas a fornecedores diferentes, por forma a que esta interconectividade potencie a qualidade do trabalho dos profissionais de turismo, assim como na esmagadora maioria das atividades profissionais.

Para que ocorra a tão proclamada interconectividade, é necessário que os diferentes fabricantes desta tipologia de tecnologia, partilhem entre si, protocolos de comunicação, respeitando standards de comunicação, por forma a que cada tecnologia consiga comunicar de forma transparente com outra tecnologia eventualmente fornecida por um ou mais fabricantes concorrentes.

Resumindo: se pretendo implementar um sistema de domótica nos quartos e áreas públicas do meu Hotel, não devo de me preocupar demasiado se o sistema que controla as persianas das janelas é ou não compatível com o sistema de iluminação dos quartos, nem com o sistema que gere os aparelhos de ar condicionado do Hotel, porque, através de uma plataforma central de gestão de domótica, consigo controlar todos estes mecanismos de gestão, mesmo que os tenha adquirido a empresas distintas, e ainda consigo fazer com que colaborem, i.e., sempre que a janela se abre e não se fecha, durante 30 segundos, o sistema de ar condicionado desliga-se ou reduz automaticamente a intensidade, e o sistema de gestão da iluminação atenua a intensidade das lâmpadas do quarto que estão mais próximas da janela, pois “detetou” ou “foi informado” que a iluminação exterior é suficiente e não há necessidade de “injetar” tanta potência no sistema de iluminação do quarto…

Acima desta camada de interoperabilidade deverá surgir a componente de “inteligência” que permitirá, com maior ou menor índice de autonomia, (da plataforma central de gestão de domótica) a deteção e apreensão dos padrões comportamentais da “usabilidade das coisas”, possibilitando desta forma, aos profissionais de turismo, tomarem mais e melhores decisões, consubstanciadas em dados concretos e não em suposições.

Admitamos que a plataforma central de gestão de domótica tem, cumulativamente, a funcionalidade de aprendizagem ao longo do tempo, sendo capaz de prever comportamentos, com elevada probabilidade de acontecimento, reportando-os sempre que necessário, em tempo real, ou caso assim esteja previsto, reportando a informação obtida, através da leitura dos dados dos diferentes dispositivos de IdC, de forma automática, a determinada(s) hora(s) do dia – emails e/ou SMS.

Temos então “coisas” que comunicam entre si, de forma automática, e em paralelo, uma, ou eventualmente mais, plataformas de gestão consegue(m) entender a comunicação entre as coisas, e entre as coisas e os utilizadores das coisas, por forma a melhor estudar comportamentos das coisas e dos seus utilizadores, estudando e reportando “comportamentos desviantes, clusters comportamentais, comportamentos partilhados por diferentes clusters comportamentais,…”, permitindo aos decisores decidir atempadamente e com menor probabilidade de erro.

Se a(s) plataforma(s) de gestão da IdC também tiver(m) a capacidade de aprendizagem, ao longo dos tempos, através da utilização de uma ou mais heurísticas, estaremos perante IdC “multiplataforma” e inteligentes, i.e., estamos portanto perante IdC 2.0, pois as coisas comunicam com outras coisas de outros fornecedores, e, existe num nível acima, “algo” que tem a capacidade de as entender, e a capacidade de aprendizagem suportada pelos inputs que recebe, em tempo real. Temos portanto uma rutura tecnológica consubstanciada por dois níveis adicionais: interoperabilidade e inteligência.

Ilustrando, podemos verificar em tempo real, a densidade, por dispositivo conectado, numa determinada área de conferências…, ou ser alertados sempre que determinada ocorrência suceda, por forma a resolver a situação no menor tempo possível, com o menor impacte percetível… em que a reação se confunde com a pró-atividade das organizações turísticas.

 

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*Professor Adjunto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

** O comentador escreve segundo o novo Acordo Ortográfico