Opinião Ricardo Ferreira – Turismo de Saúde

Pela dimensão crescente que está a ganhar, o turismo de saúde começa a estar na agenda de muitos países, alguns dos quais o promovem já activamente, e a despertar a atenção dos agentes turísticos. Numa altura em que a Universidade Autónoma de Lisboa lançou o MBA Turismo de Saúde, o Turisver.com publica uma série de três artigos de opinião elaborados por especialistas que abordam esta temática. Hoje, o tema é abordado por Ricardo Ferreira, Business Manager Osiris Travel e um dos docentes convidados para leccionar o MBA da UAL.

TURISMO DE SAÚDE

O segmento do turismo de saúde corresponde a agregação de dois conceitos específicos, por um lado o turismo médico o qual corresponde à decisão de viajar para se ter acesso a cuidados médicos ou realizar uma cirurgia, por seu turno o turismo de bem-estar resulta da opção em viajar com o intuito de promoção da saúde mas de uma forma preventiva, a nível físico, psicológico e espiritual. Este artigo irá priorizar uma análise ao segmento do “turismo médico”, no entanto é necessário frisar que o crescimento do turismo de bem-estar não deve, de forma alguma, ser desconsiderado uma vez que continuará a evoluir a um ritmo elevado e são múltiplos os factores que sustentam essa tendência. Por um lado, o envelhecimento da população, por outro, os consumidores orientam as suas procuras de consumo para serviços com maior “custo efectividade”, que visam prevenir casos de doença. A saúde preventiva de forma progressiva vai ganhando maior preponderância face à filosofia tradicional sustentada no tratamento.

Em termos de turismo médico, um grande número de países activos procura captar os turistas mediante preços mais competitivos, existindo uma oferta transversal relativamente uniforme entre todos (com especial destaque para tratamentos e cirurgias de estética). No entanto, alguns países de forma a não focar exclusivamente a componente preço, implementaram estratégias para tornar algumas das suas unidades de saúde em centros de referência em especialidades de maior complexidade. Este processo de especialização dificilmente conseguirá ser alcançado com sucesso se não existir uma cooperação multidisciplinar a nível interno de cada país, sobretudo de aproximação do sector secundário e terciário ao nível da saúde, coordenação entre as diferentes unidades privadas e públicas, nomeadamente em termos de promoção internacional, por seu turno é necessário implementar uma estratégia de proximidade com outras instituições com preponderância no segmento turismo médico mas de uma forma indirecta (caso das companhias de aviação, hotelaria, aeroportos…).

Apesar do incremento do segmento do turismo médico, existem no entanto alguns riscos que condicionam um crescimento mais acentuado, nomeadamente a existência de diferentes padrões de prática clínica (quer dos hospitais quer em termos de procedimentos médicos). Cada país tem características próprias, por exemplo em termos de licenciamento e certificação. Uma forma de controlar alguns riscos é optar por hospitais acreditados internacionalmente e com médicos legalmente licenciados. Os turistas médicos costumam enumerar mais riscos, no entanto do lado da oferta existe uma preocupação permanente em encontrar soluções que permitem diminuir os receios demonstrados pelos utentes internacionais.

TURISMO DE SAÚDE EM PORTUGAL:

Alguns países já dispõem de estratégias activas de promoção do turismo de saúde, no entanto este segmento ainda é trabalhado, frequentemente, de forma parcial e desintegrada pelas diferentes instituições portuguesas com interesse em explorar este nicho de mercado.

A multidisciplinariedade do tema, aliada a necessária complementaridade entre múltiplas entidades, são elementos que dificultam uma cooperação imediata entre os diversos intervenientes, existindo zonas de menor clareza jurídica, obriga a conhecimentos técnicos mais amplos, resulta em dispersão académica em termos de estudo e formação, etc. De forma a facilitar a percepção do amplo espectro de intervenientes, partilho um diagrama adaptado da “Medical Tourism Association”.

Ao nível do sector do turismo ainda se olha para este “nicho” de uma forma muito simplicista, na realidade vislumbra-se um interessante potencial neste segmento concreto mas sem uma concreta sustentação numérica e sem um posicionamento objectivo. O “Turismo Médico”, na sua génese, é um segmento que se sustenta na vertente técnica dos intervenientes da área da saúde, mas com base no diagrama partilhado, é fundamental que o lado do turismo assuma posições, se prepare, forme os seus quadros e se posicione, disponibilizando essenciais serviços complementares. Se tudo isto acontecer, a actuação cumulativa das várias entidades de turismo proporcionará uma maior força sectorial a nível macro. O Turismo de Portugal está sensibilizado para o tema, mas a nível micro no sector do turismo, impera um posicionamento ainda muito superficial e pouco concreto.

MERCADO E QUANTIFICAÇÃO DO MESMO:

Em 2014 foi publicado um relatório interministerial relativo ao tema central deste artigo, na preparação do mesmo cooperaram representantes de diversas entidades quer do sector da saúde quer do turismo. Os autores do trabalho conseguiram efectuar cálculos para mensurar o real potencial deste segmento. Com base no citado documento, é expectável uma evolução de 10.000 “turistas médicos” estrangeiros em Portugal no ano de 2010 para 20.000 em 2017, perspetivando-se a médio-prazo um total anual de 42.000 clientes (pacientes). Estas previsões permitem identificar um intervalo de receitas entre 66 e 139 milhões de Euros. Ao nível do turismo (receptivo) e hotelaria nacional, a aposta neste segmento poderá ainda permitir combater a “crónica” sazonalidade do sector.

Um elemento primordial no incentivo à opção pelo turismo de médico são as seguradoras que procuram minimizar os custos com os serviços de saúde dos seus clientes mas mantendo os níveis de qualidade. Por outro lado, focando exclusivamente a situação europeia, com a introdução da Diretiva relativa ao direito de exercício de acesso aos cuidados de saúde transfronteiriços, existe um grande optimismo com a evolução da procura a médio-prazo.

Actualmente, Portugal atrai sobretudo “clientes” (pacientes) de estética e, com um maior grau de complexidade, destaque para a ortopodia. O posicionamento de Portugal deverá ser na qualidade dos serviços de saúde, ou seja centros de referência, em detrimento de um mero posicionamento com base no preço. Por um lado, outros mercados concorrentes conseguem melhores preços mediante legislação (obrigações) mais suaves, benefícios cambiais, subsídios estatais directos e indirectos, menores encargos com seguros, custos de construção e terreno, etc… Por outro lado, o elevado valor dos serviços de saúde é explicado em grande parte pela tecnologia associada, sendo Portugal altamente dependente das importações para equipar as suas unidades de saúde, colocando Portugal numa posição de menor competitividade ao nível do preço quer comparando com outros países Europeus quer com outros concorrentes não Europeus mas igualmente próximos geograficamente.

MITOS:

MITO #1: TURISMO e SAÚDE COMBINAM (REALMENTE?)

– A justaposição de “Turismo” e “Saúde”, na realidade muitas das vezes não acontece, isto porque a prestação de um serviço médico mais exigente no estrangeiro, obrigará em muitos dos casos a um período de convalescença e recuperação. Esta necessidade impedirá o usufruto de actividades lúdicas que o “turismo”, na sua concepção mais pura considera. Só em pequenos tratamentos a conjugação de ambos os termos é exequível na prática. No entanto, é fundamental e recomendável um reforço da cooperação entre o turismo médico e o turismo de bem-estar, nomeadamente numa fase pós-operatório e de recuperação. Este complemento é aplicável em dois casos distintos, por um lado se o utente solicitar um tratamento ou uma cirurgia de estética, é imediatamente perceptível a sua preocupação com os cuidados com o corpo e de beleza, por isso a lógica de prolongamento do tratamento, numa fase pós-operatório, num centro de bem-estar e de gestão do envelhecimento poderá ser uma opção válida. Por outro lado, no caso de uma intervenção cirúrgica em ortopedia, o período de convalescença e recuperação poderá ser realizado num centro de bem-estar próximo da unidade hospitalar. As unidades de bem-estar devem primar pela excelência dos serviços e comodidade, com base numa abordagem médica integrada e num diagnóstico detalhado, onde nenhum factor é deixado ao acaso (nomeadamente: cuidados de alimentação e genética, promoção da actividade física e controlo do stress e poluição).

MITO #2: CONTABILIZAÇÃO ESTATÍSTICA: OS (REAIS) PLAYERS INTERNACIONAIS

– Mesurar a procura ao nível do turismo médico, em termos globais, requer bastante cuidado: alguns dados oficiais não são fidedignos, coerentes e incorrem em erros de base, por exemplo alguns hospitais contabilizam o número de consultas em vez do número de pacientes. Por outro lado, alguns países não efectuam qualquer registo estatístico. Um outro aspecto que dificulta a tarefa de contabilização global da procura, resulta do facto da grande maioria dos turistas que recorrem a serviços médicos no estrangeiro, se forem interrogados irão referir de forma genérica que se deslocam a um determinado país por motivo de “férias ou lazer”, quer para evitar algum constrangimento na entrada do país que obrigue a mais burocracia, quer para evitar um eventual impedimento de entrada no país. De salientar ainda outros erros usuais na recolha de dados estatísticos: os cuidados médicos realizados a turistas que necessitam de assistência de carácter de urgência e a assistência a expatriados, diplomatas, são incorrectamente contabilizados como turistas médicos. Por vezes, existe ainda a tendência de avaliar por excesso os dados relativos ao turismo médico, por parte dos hospitais, dos médicos ou mesmo dos governos por motivos políticos, de marketing ou competição.

Alguns países europeus, possivelmente com maior fluxo de turistas de saúde que muitos dos países da Ásia e América do Sul (que apregoam ser pólos de atracção de turistas de saúde em larga escala), não reconhecem a sua real posição porque grande parte dos tratamentos são efectuados em clínicas ou hospitais privados, onde não são contabilizados para efeitos estatísticos. Apesar das limitações, é inquestionável que ao longo dos últimos 10 anos, o turismo médico conheceu um incremento considerável.

 

*Ricardo Ferreira

[email protected]

Business Manager Osiris Travel

Docente Convidado MBA Turismo Saúde (UAL)

Docente Convidado ISCTE-INDEG (Módulo Turismo Saúde)