Tourism Talks: Não há receitas mágicas para a distribuição turística

Dentro do turismo, o sector da distribuição é dos mais afectados pela pandemia. Com as fronteiras fechadas e a aviação parada, incoming, outgoing, viagens de lazer e de negócios bem como os eventos, entraram em pausa. Sem soluções de cura à vista nem timings definidos, acredita-se que as viagens vão regressar à vida de todos nós, mas até lá há um difícil, e provavelmente longo, caminho a trilhar.

Incerteza sobre o futuro, mesmo o mais próximo, impossibilidade de traçar previsões, necessidade de apoios mesmo quando se iniciar a retoma, para que a oferta não saia beliscada e o consumidor possa readquirir confiança para viajar, foram algumas das mensagens deixadas pelos participantes na segunda edição das Tourism Talks da agência de comunicação Message in a Bottle, de que o Turisver.com foi media partner.

Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT; Frédéric Frère, CEO da TravelStore; Carlos Baptista, administrador da Bestravel; Francisco Teixeira, director-geral da Melair; João Moita, director-geral da CITUR e Markus Zahn, CEO da Olimar, integraram o debate sobre as “soluções de cura” para a distribuição turística e se algo ficou claro foi que neste caminho de incerteza que todos estamos obrigados a trilhar, não há receitas mágicas nem se arriscam previsões, apenas se traçam cenários.

Em muitos dos pontos as opiniões foram concordantes, a começar pela incerteza do futuro próximo na distribuição, porque incerto é também o evoluir de uma doença que provocou o caos no sector e terá consequências económicas gravosas em todo o mundo.

Para sair desta crise e sarar as feridas, “toda a gente vai precisar de tempo” arriscaria o presidente da APAVT, certo de que não há timings definidos para a recuperação e que esta se fará por segmento, a começar pelo turismo interno, já este Verão, e a acabar nos eventos, talvez no segundo semestre de 2021. Mas esta era, afirmou, a sua previsão mais optimista e aquela em que disse acreditar menos.

Mais pessimista é a visão de Markus Zahn, da Olimar, operador especializado na venda do destino Portugal nos mercados germânicos que aponta para que “só em 2022 ou 2023 o turismo chegue aos níveis de 2018 ou 2019”, esperando para “2021 um máximo de 40% do negócio que tivemos em 2019”.

Enquanto não houver cura para o Covid-19, “a produção será muito baixa” e mesmo depois da cura ficará a crise económica, o que não abre boas perspectivas, considera Carlos Baptista (Bestravel), secundado nesta visão por Markus Zahn que se mostrou “muito preocupado com a situação económica” porque a recessão vai abranger o mundo todo e ninguém vai sair ileso, o desemprego vai aumentar, muitos salários vão ser cortados e o dinheiro que sobra para viajar será pouco.

“Zero de facturação” é o que está a acontecer no sector da distribuição e por isso, João Moita (Citur) embora se considere um optimista por natureza, não esconde a sua preocupação até porque “os DMC vão demorar a retomar a actividade” por via até da questão da mobilidade sem a qual o sector não pode retomar a actividade.

Sem facturação e com frágeis almofadas financeiras, as agências de viagens vão precisar de apoios à recuperação. Pedro Costa Ferreira foi o primeiro a afirmá-lo mas foi secundado por Carlos Baptista que frisou que sem ajudas económicas ninguém resiste até à retoma, e por João Moita que considera “indispensável” não só o “apoio financeiro” como o prolongamento do lay-off, a flexibilidade laboral e a revisão do IVA na Meetings Industry porque “se o turismo não retoma, o país também não”.

No incoming e no outgoing as preocupações podem parecer ter pólos opostos, mas a verdade é que se encontram. Fronteiras, aeroportos, voos, situação económica dos consumidores, são problemas que afectam ambos os segmentos da distribuição e também os cruzeiros, outra das actividades sacrificadas com esta pandemia, com Francisco Teixeira (Melair) a considerar que a recuperação desta indústria apenas deverá acontecer em 2022/23, que e 2021 a taxa de ocupação vai ser muito baixa e que “as empresas vão ter que estar preparadas para perder dinheiro”, pelo menos até que haja uma vacina ou até que o consumidor readquira confiança neste tipo de viagens.

Que destinos / mercados vão e o que é que se vai vender primeiro, é algo que ainda é prematuro saber, mas fica a crença que o mais vendável serão os produtos relacionados com a sustentabilidade e nichos como o turismo de natureza, em regiões de menor carga turística e alojamentos de pequena dimensão, visão partilhada por Pedro Costa Ferreira, Carlos Baptista e Markus Zahn.

Solução para a distribuição só há uma, a imunidade / cura para a doença. Quando isso acontecer ou pelo menos, como disse Markus Zahn, quando o mundo se habituar a (con)viver com este vírus, a retoma virá rápida e há que estar preparado, na certeza de que “não vai haver menos viagens” porque “todos vamos querer voltar a viajar como antes”. Frédéric Frère e Pedro Costa Ferreira acreditam mesmo que o “novo normal” de que tanto se fala será provisório e que “vamos voltar à normalidade que tínhamos antes”. Por isso, alerta Pedro Costa Ferreira, as agências de viagens têm de manter acesa a sua relação com o cliente.