Tourism Talks: O Turismo segue dentro de momentos

O turismo ainda está em pausa mas vai sendo tempo para pensar no retomar da actividade e começar a gizar planos para tirar o sector da quarenta. Neste pensar o futuro, não há cenários optimistas e apenas é certo que, a curto prazo, há que dizer adeus ao turismo que conhecemos. Sobretudo, há que chegar aos “dias depois” da melhor forma, se possível com liquidez e não com endividamento. Estas algumas das conclusões da 1ª Tourism Talks da Message in a Bottle.

Iniciativa da agência de comunicação Message in a Bottle, as Tourism Talks estrearam-se na passada quinta-feira com um painel de luxo formado por  Adolfo Mesquita Nunes, ex-secretário de Estado do Turismo; Miguel Júdice, administrador da Quinta das Lágrimas; José Roquette, administrador do Grupo Pestana; Rodrigo Machaz, administrador do Grupo Memmo Hotels; João Soares, administrador do Dom José Beach Hotel e Luís Leote, proprietário da Herdade do Touril. Em debate, moderado por Ruben Obadia, ex-jornalista e CEO da Message in a Bottle, esteve o tema “Turismo: The Days After”, através do qual se pretendia colocar em cima da mesa aqueles que vão ser os maiores desafios que se colocam ao sector neste momento em que a actividade passa por um dos piores momentos de sempre.

Se o tema escolhido remete para títulos de filmes-catástrofe como  “The Day After” e “The Day After Tomorrow”, a verdade é que não foi do fim do mundo nem do fim do turismo que se falou neste debate, apesar de as visões nele apresentadas pelos vários intervenientes não terem sido optimistas. Falou-se, acima de tudo, de tirar o turismo da quarentena obrigatória em que foi colocado, da necessidade de pensar na melhor maneira de o fazer, sendo certo que os tempos mais imediatos vão ser bem diferentes do que eram. E muito complicados.

Foi exactamente por aqui que se começou, com o ex-secretário de Estado do Turismo, Adolfo Mesquita Nunes, a deixar claro que “é hora de começar a pensar na saída do estado de emergência”, ideia sublinhada por outros intervenientes como Miguel Júdice (ex-presidente da AHP) que considerou tornar-se necessária “a abertura do país porque é a economia que está em causa”. Abrir, sim, mas com planos e sabendo que até lá o dinheiro tem que chegar à economia real, tem que haver fundos perdidos a não apenas apoios que levam ao endividamento, e sabendo também que o desemprego voltará a números que ninguém desejava, o que levou José Roquette (Grupo Pestana) a afirmar que depois da pandemia “o grande vírus será o desemprego”

Uma coisa parece certa: “o turismo vai regressar em força mas não para já” (Adolfo Mesquita Nunes). Aliás, como poderia voltar se Portugal fica no extremo da Europa e mais de 90% dos seus turistas vêm de avião? Por isso uma das grandes preocupações que traz o “dia seguinte” reside na forma como as companhias aéreas irão sair desta crise sem precedentes, nomeadamente a TAP que, afirmou Rodrigo Machaz (Memmo Hotels) “estava com uma estratégia muito boa para o mercado americano”.

Com o turismo internacional em pausa total, o que começará por salvar o sector em Portugal será o mercado interno – será assim em Portugal como nos restantes países. Será o regresso, que se pretende possa vir a ser em força e se possível ainda este Verão, do “vá para fora cá dentro” mas a preços acessíveis, o que significa que “a margem dos hoteleiros vai baixar” (Rodrigo Machaz). Se Luís Leote (Herdade do Touril) assumiu temer uma “guerra de preços quando todos começarem a abrir”, João Soares está convicto dela, afirmando “vamos começar a competir pelo preço”.

Uma certeza que todos têm, com Miguel Júdice a sublinhar que tanto a hotelaria como a restauração vão sobreviver com os “locais, regionais e nacionais e eventualmente com os espanhóis” e José Roquette a deixar mesmo uma lista: “primeiro teremos que apostar no mercado interno, depois no espanhol e só depois no médio curso”.

A aposta no mercado que sempre é assumido como salvação quando as coisas não correm tão bem lá fora será positiva para algumas regiões. “O Algarve poderá ser menos afectado este Verão devido ao turismo interno”, afirmou João Soares (Dom José Beach Hotel).

Certo é também que a noção de segurança tem agora que ser alargada às medidas sanitárias, levando uma nova realidade aos hotéis que terão que delinear uma política sanitária que poderá passar, nomeadamente, por ter funcionários com máscaras, novos horários para refeições e funcionamento das piscinas e Spas, kits sanitários em cada quarto e, acima de tudo, menor ocupação.

Recuperação mais tardia do turismo de negócios, afectando sobretudo as cidades e uma grande preocupação com a Madeira, foram outras ideias deixadas por um debate onde se assumiu que o que ficará desta crise “vai doer” mas que tem que haver vida para lá dela e que, mesmo acreditando que as pessoas vão sempre querer viajar, ainda vamos sentir falta daquilo que muitos consideravam ser excesso de turistas.